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DA SÉRIE POEMAS DE OURO


Sete poemas da Poeta baiana Luíza Silva Oliveira
SOLIDÃO
nas ruas
lá vão eles...
seres pensantes, passantes
um calor preguiçoso
faz a sua dormência
se olham se estranham
dormem em suas demências
só,
costuro minha mágoa falida..
não tem ninguém nessa terra
seres oblíquos
ai que vontade de voar
Sou presa na ratoeira
ratazanas cheiram e querem
comer meu pé
faminta
em casa só tem farinha
queria sentir
mas na estrada
só tem seres fantasmagóricos
sem pulsação
existe uma imprecisão
um amor sem coleiras
cadelas no cio
meu nome é ninguém


DESORDEM

Camas desarrumadas
Lençóis atirados no chão
Cumpro rituais de uma paixão inexistente
ensaboo meu corpo
saio na rua, nua....
Pego a mão de um desconhecido
vivo num tom desafinado da vida...
Nada me pertence.
Como me apossar da inexistência?
Como mulher recebo presentes masculinos
Não me aposso deles.
Destrepo da árvore com receio de cair.
Despenco....
Com a imagem denegrida caminho na contramão.
Me garanto nos devaneios da escuridão
há luminosidade nela
entro num teatro de marionetes
sorrio constrangida
tento decifrar os hieróglifos do amor
me desumanizo e viro bicho
caio na correnteza da vida ou da emoção
sem uivos, sem gritos, sem berro, sem grunhidos
tudo volta a silenciar...


uma cachaça, por favor

As chaleiras estão fervendo
ventiladores no alto não sustentam o calor
eu preciso de um refrigerador
panos úmidos não seguram fogos de artifícios
Eu preciso ser
as pessoas são, já dizia o rei Arthur
mas cadê ele?
somos plasmas, cataplasmas
soltos no ar
sementes jogadas em vasos sanitários
vivemos parcelados
a minha primeira parcela já tá paga
o que faço com as restantes?
o saldo acabou,
estou suando, carpindo com a enxada rochas duras
vou e volto
volto e vou
caminhos isentos são o nosso habitat
mas queremos sempre ganhar
somos ansiosos, desonestos
só o cativeiro é peculiar
como feto sofro pancadas para abrir os olhos
que um dia se fecharão
vivemos em dois lados, em dois hemisférios
a vida dupla amansa a escuridão
existe uma rua sem saída
são os caminhos mornos que rondam a cidade
ainda tem uma raspa de osso, quer comer???


o melhor do flash back (92 clipes)

últimos dias do ano...

um desfile de incertezas
a roda que não para de girar

dorme, dorme...
crianças  em calçadas sujas

limpa, lava, torce
e esse cheiro que não sai

essa nostalgia maldita
dos que se foram...

o tempo borrado
não dá pra enxergar

os tiros sem alvos
as cortinas cerradas

e a solidão
um caminhão de recordações

e as ausências

dos beatles beatificados
dos woodstocks  asertanejados

e o vazio endurecido

enfia o dedo no cu e grita
essa terra não é mais sua

você já não mais se pertence
pertences viram cinzas

e nossos ideais 
calcaram em pós

escureceram as salas
vai começar o filme

não pula a janela
vai sujar a calçada de sangue

e o lixeiro tá em greve..


SEM GARANTIAS     

pescoço duro
febres amarelas
sem dinheiro no bolso
amarga o dia que chega

roleta russa
e os meninos despencam dos morros
mato o jacaré
engulo o leãozinho

e sou fuzilado em praça pública


Da menina que virou bicho

Cadê o gato?
O rato comeu...
Cadê o rato?
Voou pela janela, com os sonhos de menina

"Perdi, antes de nascer, o meu castelo antigo".
Só quando deslizo em lamas de ouro,
me esfria a saudade do céu azul com nuvens de cordeirinhos
do outro lado do muro,

Terezinha de Jesus canta em dueto com a menina de ovos de ouro:
A canção da cigana, do boi da cara preta
Na escola maculada, a menina desaprende o verbo e leva chicotadas
de megeras da alfabetização.

Entre risos e choros a menina aquece seus tormentos
À noite, abafa seus sonhos com cobertores pesados, fétidos,
Seus cachos encaracolados são cortados por tesouras gigantes de aço preto
no brejo, aproxima-se de um sapo... ao beijá-lo, o sapo vira jacaré e a engole...

A tragédia do primeiro ato se encerra e a cortina se fecha.
pelos começam a grudar em seus devaneios
seus pés crescem e se petrificam
seus olhos se congelam,
e seu rosto vira uma máscara de ferro

O horizonte é cortado por vértices afiadas,
a menina se debruça em  névoa molhada,
seus ídolos caem em mortalhas
nesse calvário, sem nobreza,
o  enterro da menina acontece num dia de chuva...


Hoje, eu preciso chorar

hoje, preciso chorar.
jogar fora esse escarro do choro.
as nuvens cinzas ficaram pretas
o dia já aconteceu... ou já vingou? 
a menina? branqueou o seu cabelo.
o vira-lata da esquina morreu
o jornaleiro vendeu sua banca
minha casa amarelou
os prédios cresceram, viraram magazines
o jogo de botão virou botões da internet
a boneca dorme no canto da caixa de papelão
o meu pai?
está lá no céu agora, me olhando
os meus amigos?
não sei.
o beija flor morreu de agrotóxico
a tv continua com seus noticiários horrendos
a vida está despencando dos penhascos...
meus sonhos coloridos? estão desbotados.
as frutas estão passadas...
o ser humano continua andando em filas.


Mais de Luzia Silva Oliveira

Luiza Oliveira é poetisa, atriz, bailarina, socióloga, advogada. Em 2011, lançou seu primeiro livro de poesias, chamado Afetos Transgressores; agora, em 2017, saiu a sua segunda obra,  chamada   Da menina que matou seus bichos. Participa de diferentes saraus literários em São Paulo. No teatro, já trabalhou com diretores como Antunes Filho, Naum Alves de Souza, Miriam Muniz, Berta Zemel . Em cinema, realizou dois longas com o diretor Elvis DelBagno: O homem da cabeça de laranja A suíte epifânica de Luiza – este, inspirado em seus poema



DA SÉRIE POEMAS DE OURO

Sete poemas da poeta paulista Máyda Zanirato
Fênix

Um vento leve varreu a última poeira de ti mesma
Por um instante o reino do nada se instala
e se vislumbra um império de mil anos
de ausência total e
de silêncio profundo e
de escuro, escuro...

Então um clarim não se sabe de onde
anuncia um novo parto de ti mesma
a dor
a alegria
e o recomeço de um tempo novo
e de um círculo eterno

Enquanto um deus mudo e indiferente
preside sonolento
à tua vida eterna
à tua sede
à tua busca
ao teu encontrar-nunca

Mar./87

 •
  
Poemateu

 Tu, que ateias fogo
 e foges
 (ah! teu jogo
 que me fez perder
 a fé
 e o foco!)

 fica!

 ateu,
 ah, meu
 ah, nosso amor!
 não quero mais
 nenhum
 (a)deus!

Outubro 2.017



Pousa tão leve
não percebe
os olhos do cão
que desde longe
a segue

nem a mira
inexorável
que enquadra
seu peito frágil
entre as asas

E ele atira

e erra

E ela voa
salva

(valeu minha torcida
pela ave)

nov/ 2.017


Não ao teu brilho fácil à superfície branca
que impermeabiliza
a tua essência

não ao teu riso solto
que oculta porém
o teu por dentro

não à dança num palco
que disfarça
o teu t(r)emor
de amor e medo

não a tudo que te esconde
nesse nicho
em que te cercas
de segredos

Vem só
despido e puro
porque
no escuro que atravesso
insisto que só posso te encontrar
no teu avesso

nov/2017


Por recusar
o pão
o vinho
a dança
a festa
a luz
me chamam de louca
Não sabem
Só tenho uma única urgência:
a da tua boca.

Nov/2017


quando teu nome do fundo do sonho
emerge
e sai como suspiro
e sinto
meus lábios se movendo
te chamando

quando mal desperta vejo
que tenho só teu nome
em minha boca
vazia do teu beijo
que
de tão intenso
me tirou do sono

quando me recuso a despertar de todo
e não ver que o corpo teu
junto do meu
era só um sonho

procuro te pensar então
como se apenas
sonho mesmo fosses

um sonho a que sequer devo dar forma
se acordada
(com medo que se despedace)

e tento então dormir de novo

jan/2.018

  
Confidências do mar

Bate-me aos pés e me conta segredos: amou ilhas distantes
virgens, antes da atual paixão
a prostituta
que se entrega a todos
navios e outros
que lhe usam o corpo. E partem
deixando de lembrança
o sêmem gonorreico
E aos que também a meretrizam
crescendo enfileirados: montes altos de concreto
cheios de verme, bichos
e dejetos

Á tarde caminho ao longo
da sua franja suja
que me molha os pés. E ele explica
um dia ela - amada amante -
vai se desvencilhar de todos eles
( já tenta fazer isso)
e de novo limpa e bela como poucas
será só dele
que pergunta:
Mas vou amá-la tanto assim, quando ela for
no fim
tão parecida com todas as outras?

nov/ 2.017


Saiba mais sobre Máyda Zanirato 
Cursou Letras na Unesp em Assis. Foi professora do Ensino Fundamental , do Ensino Médio e Diretora de Escola
Escreve desde 1984, mas só começou a divulgar seus escritos vinte anos depois, nas redes sociais.

DA SÉRIE POEMAS DE OURO





Sete poemas do maior nome da Poesia Nacional, CASTRO ALVES14 de  março  é  considerado o  Dia  Nacional da Poesia, em homenagem a Antônio Frederico de  Castro Alves, nascido em 1847.  O poeta  foi  um dos  maiores  nomes do Romantismo brasileiro e  uma  das  principais  vozes a favor da abolição da escravatura. 
A atriz Eugênia Câmara

No dia seguinte ao de uma vaia
sofrida no Teatro Santa Isabel, no
Recife.

HOJE ESTAMOS unidos a adorar-te
Tu és a nossa glória, a nossa fé,
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!...


Ontem a infâmia te cobria de lama
Mas pra insultar-te se cobriu de pó! ...
Miseráveis que ferem a fraqueza
De uma pobre mulher inerme, só!

Tu és tão grande como é grande o gênio
És tão brilhante como a própria luz,
Dentre os infames do calvário d'arte,
Tu foste o Cristo, foi o palco a cruz! ...

Mas estamos unidos a adorar-te!
Tu és a nossa glória, a nossa fé!
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!


Adeus
 
Je te bannis de ma mémoire,
Reste d'un amour insensé,
Mystérieuse et sombre histoire
Qui dormiras dans le passe!
Et toi qtíi, jadis, d'une amie
Portas la forme et le doux nom,
L'ínstant suprême oú je t'oublie,
Doit être celui du pardon.
A. DE MUSSET.

ADEUS! P'ra sempre adeus! A voz dos ventos
Chama por mim batendo contra as fragas.
Eu vou partir... em breve o oceano
Vai lançar entre nós milhões de vagas ...

Recomeço de novo o meu caminho
Do lar deserto vou seguindo o trilho...
Já que nada me resta sobre a terra
Dar-lhe-ei meu cadáver... sou bom filho!...

Eu vim cantando a mocidade e os sonhos,
Eu vim sonhando a felicidade e a glória!
Ai! primavera que fugiu p'ra sempre,
Amor — escárnio!... lutulenta história!

Bem vês! Eu volto. Como vou tão rico...
Que risos n’alma! que lauréis na frente...
Tenho por c'roa a palidez da morte,
Fez-se um cadáver — o poeta ardente!

Adeus! P'ra sempre adeus! Quando alta noite,
Encostado à amurada do navio...
As vagas tristes... que nos viram juntos
Perguntarem por ti num beijo frio,
Eu lhes hei de contar a minha história.
Talvez me entenda este sofrer do inferno
O oceano! O oceano imenso e triste,
O gigante da dor! o Jó eterno!

Fazia um ano. Era o dia
Do fatal aniversário...
Ergui-me da cova escura,
Sacudi o meu sudário...
Em meio aos risos e à festa
E às gargalhadas da orquesta,
Que eu tinha esquecido, enfim,
Tomei lugar!... Solitário
Quis rever o meu Calvárío
Deserto, tredo, sem fim!...

Sabes o que é sepultar-se
Um ano inteiro na dor...
Esquecido, abandonado,
Sem crença, ambição e amor...
Ver cair dia... após dia,
Sem um riso d'alegria...
Sem nada... nada... Jesus!
Ver cair noite após noite,
Sem ninguém que nos acoite...
Ninguém, que nos tome a Cruz?!

Ai! não sabes! nunca o saibas!...
Pois bem; imagina-o só...
E então talvez compreendas
A lenda escura de Jó.

II

Mon coeur, encore plein d'elle, errait sur son visage
Et ne Ia trouvait plus.
MUSSET.

Porém de súbito acordou do ergástulo
O precito, que ali jazia há pouco...
E o pensamento habituado às trevas
Atirado na luz... — pássaro louco!

Vi de repente o passado
Erguer-se em face de mim...
A rir... a rir, como espectro,
De uma ironia sem fim.

A orquestra, as luzes, o teatro, as flores
Tu no meio da festa que fulgura
Tu! sempre a mesma! a mesma! Tu! meu Deus!
Não morri neste instante de loucura ...

Quebra-te pena maldita
Que não podes escrever
A horror de angústias e mágoas
Que então me viste sofrer.

A mesma fronte que amei outrora!
O mesmo riso que me vira um dia!
O mesmo olhar que me perdera a vida!
A mesma, a mesma, por quem eu morria!

Que saudades que eu tenho do passado,
Da nossa mocidade ardente e amante!
Meu Deus! Eu dera o resto de existência
Por um momento assim... por um instante.

Mas não! entre nós o abismo
Se estende negro e fatal...
— Jamais! — é palavra escrita
No céu, na terra, no val.

Eu — já não tenho mais vida!
Tu — já não tens mais amor!
Tu — só vives para os risos.
Eu — só vivo para a dor.

Tu vais em busca da aurora!
Eu em busca do poente!
Queres o leito brilhante!
Eu peço a cova silente!

Não te iludas! O passado
P'ra sempre quebrado está!
Desce a corrente do rio...
E deixa-o sepulto lá!

Viste-me... E creste um momento
Qu'inda me tinhas amor!. i.
Pobre amiga! Era lembrança,
Era saudade... era dor!
Obrigado! Mas na terra
Tudo entre nós se acabou!
Adeus! ... É o adeus extremo...
A hora extrema soou.

Quis te odiar, não pude. — Quis na terra
Encontrar outro amor. — Foi-me impossível.
Então bendisse a Deus que no meu peito
Pôs o germe cruel de um mal terrível.

Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua,.
Não quero mais teu amor! Porém minh'alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua.


Amemos!


DAMA NEGRA

 
A cette, où Ión ploie
Sa tente au déclin du jour,
Ne demande pas Ia joie;
Contente-toi de l'amour!
Dans ce monde de mensonges,
Moi, faimerai mes douleurs,
Si mes rêves sont tes songes
Si mes larmes sont tes pleurs.
V. HUGO.


POR QUE TARDAS, meu anjo! oh! vem comigo.
Serei teu, serás minha... É um doce abrigo
A tenda dos amores!
Longe a tormenta agita as penedias...
Aqui, ao som de errantes harmonias,
Se adormece entre flores.

Quando a chuva atravessa o peregrino,
Quando a rajada a galopar sem tino
Açoita-lhe na face,
E em meio à noite, em cima dos rochedos,
Rasga-se o coração, ferem-se os dedos,
E a dor cresce e renasce...

A porta dos amores entreaberta
É a cabana erguida em plaga incerta,
Que ampara do tufão...
O lábio apaixonado é um lar em chamas
E os cabelos, rolando em espadanas,
São mantos de paixão.

Oh! amar é viver... Deste amor santo
— Taça de risos, beijos e de prantos
Longos sorvos beber...
No mesmo leito adormecer cantando...
Num longo beijo despertar sonhando...
Num abraço morrer.

Oh! amar é ser Deus!... Olhar ufano
O céu azul, os astros, o oceano
E dizer-lhes: "Sois meus!"
Fazer que o mundo se transforme em lira,
Dizer ao tempo: "Não... Tu és mentira,
Espera que eu sou Deus!"

Amemos! pois. Se sofres terei prantos,
Que hão de rolar por terra tantos, tantos,
Como chora um irmão.
Hei de enxugar teus olhos com meus beijos,
Escutarás os doces rumorejes
D'ave do coração.

Depois... hei de encostar-te no meu peito,
Velar por ti — dormida sobre o leito —
Bem como a luz no altar.

Te embalarei com uma canção sentida,
Que minha mãe cantava enternecida
Quando ia me embalar.

Amemos, pois! P'ra ti eu tenho nalma
Beijos, prantos, sorrisos, cantos, palmas...
Um abismo de amor...
Sorriso de uma irmã, prantos maternos,
Beijos de amante, cânticos eternos,
E as palmas do cantor!

Ah! fora belo unidos em segredo,
Juntos, bem juntos... trêmulos de medo,
De quem entra no céu,
Desmanchar teus cabelos delirante,
Beijar teu colo!... Oh! vamos minha amante,
Abre-me o seio teu.

Eu quero teu olhar de áureos fulgores,
Ver desmaiar na febre dos amores,
Fitos fitos... em mim.
Eu quero ver teu peito intumescido,
Ao sopro da volúpia arfar erguido
O oceano de cetim

Não tardes tanto assim... Esquece tudo...
Amemos, porque amar é um santo escudo,
Amar é não sofrer.
Eu não posso ser de outra... Tu és minha,
Almas que Deus uniu na balça edênea
Hão de unidas viver.

Meu Deus!... Só eu compreendo as harmonias,
De tua alma sublime as melodias
Que tens no coração.
Vem! Serei teu poeta, teu amante...
Vamos sonhar no leito delirante
No templo da paixão.


Cansaço

O NÁUFRAGO nadou por longas horas...
Na praia dorme frio num desmaio.
A força após a luta abandonou-o,
Do sol queimou-lhe a face ardente raio.

Pois eu sou como o nauta... Após a luta
Meu amor dorme lânguido no peito.
Cansado... talvez morto, dorme e dorme
Da indiferença no gelado leito.

Sobre as asas velozes a andorinha
Maneira se lançou nos puros ares...
Veio após o tufão... lutou debalde,
Mas em breve boiou por sobre os mares.

Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo
Sobre as asas gentis da fantasia.
A descrença nublou-me o céu da vida...
E a crença estrebuchou numa agonia.

Como as flores de estufa que emurchecem
Lembrando o céu azul do seu país,
Minha alma vai morrendo, suspirando
Por seus perdidos sonhos tão gentis.

E que durma ... E que durma ... ó virgem santa,
Que criou sempre pura a fantasia,
Só a ti é que eu quero que te sentes
Ao meu lado na última agonia.


Horas de saudade

TUDO VEM me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minh'alma — o ninho!

Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...


Não sabes

QUANTA ALTA noite n'amplidão flutua
Pálida a lua com fatal palor,
Não sabes, virgem, que eu por ti suspiro
E que deliro a suspirar de amor.

Quando no leito entre sutis cortinas
Tu te reclinas indolente aí,
Ai! Tu não sabes que sozinho e triste
Um ser existe que só pensa em ti.

Lírio dest'alma, sensitiva bela,
És minha estrela, meu viver, meu Deus.
Se olhas — me rio, se sorris — me inspiro,
Choras — deliro por martírios teus.

E tu não sabes deste meu segredo
Ah! tenho medo do teu rir cruel!...
Pois se o desprezo fosse a minha sorte
Bebera a morte neste amargo fel.

Mas dá-me a esp'rança num olhar quebrado,
Num ai magoado, num sorrir dó céu,
Ver-me-ás dizer-te na febril vertigem
"Não sabes, virgem? Meu futuro é teu"!


Poeta
 
Meditar é trabalhar. Pensar é obrar.
O olhar fito no céu é uma obra.
V. HUGO.

L'univers est ]e temple, et Ia serre rautel.
Les cieux sont le dbme; et les astres vans nombre
Sont les sacrés flambeaux pour ce temps aliurptés.
LAMARTINE.

POETA, às horas mortas que o cálice azulado
— Da etérea flor — a noite — debruça-se p'ra o mar,
E a pálida sonâmbula, cumprindo o eterno fado,
As gazas transparentes espalha do luar,

Eu vi-te ao clarão, trêmulo dos astros lá n'altura
Pela janela aberta às virações azuis,
— A amante sobre o peito sedento de ternura,
A mente no infinito sedenta só de luz.

Perto do candelabro teu Lamartine terno
À tua espera abria as folhas de cetim;
Mas tu lias no livro, onde escrevera o Eterno
Letras — que são estrelas — no céu — folha sem fim

Cismavas... de astro em astro teu pensamento errava
Rasgando o reposteiro da seda azul dos céus:
E teu ouvido atento... em êxtase escutava
Nas virações da noite o respirar de Deus.

O oceano de tua alma, do crânio transbordando,
Enchia a natureza de sentimento e amor,
As noites eram ninhos de amantes s'ocultando,
O monte — um braço erguido em busca do Senhor.

Nas selvas, nas neblinas o olhar visionário
Via s'erguer fantasmas aqui... ali... além,
P'ra ti era o cipreste — o dedo mortuário
Com que o sepulcro aponta no espaço ao longe... alguém


No cedro pensativo, que a sós no descampado
Geme e goteja orvalhos ao sopro do tufão,
Vias um triste velho — sozinho, desprezado
Molhando a barba em prantos co'a fronte para o chão.

Aqui — ondina louca — vogavas sobre os mares —
Ali — silfo ligeiro — na murta ias dormir,
Anjo — de algum cometa, que vaga pelos ares,
Na cabeleira fúlgida brincavas a sorrir.

Sublime panteísta, que amor em ti resumes,
Sentes a alma de Deus na criação brilhar!
Perfume — tu subias, de um anjo entre os perfumes,
Ave do céu — nas nuvens teu ninho ias buscar.

Canta, poeta, os hinos, com que o silêncio acordas,
A natureza — é uma harpa presa nas mãos de Deus.
O mundo passa... e mira o brilho dessas cordas...
E o hino?... O hino apenas chega aos ouvidos teus.

Todo o universo é um templo — o céu a cúpula imensa,
Os astros — lampas de ouro no espaço a cintilar,
A ventania — é o órgão que enche a nave extensa,
Tu és o sacerdote da terra — imenso altar.

DA SÉRIE POEMAS DE OURO


 Sete poemas da poeta paraense NASSARY LEE BAHAR, diretamente da Turquia:




Sinfonia de outono

Eu,
Nassarynho Leevre
No meio dos Campos quentes de trigo silvestre
Trigo seco de inverno
Trigo fresco de primavera
Perigo de ressurreissão em vida 
Perdida no vento da criação
Percorro as arestas ásperas de trigo
Altas, por cima dos meus ouvidos
Do silêncio à quimera!
Onde há uivos que falam de mim
Mas nunca estão perto...
Eu percorro e me recupero
Porque sei mais quem eu sou nos Campos
Do que os campos de visão miúda
Que me circundam invictos
Julgando saberem tudo o que me faz  voar em abandono
De costas, livre, por sobre o novo trigo de outono

***

Entre becos e sonhos

Por que perco, à faca, os dedos? [das mãos.
Por que jogo fora minha colher? [de sobremesa.
Alguém me passa um trote... Estou traída.
Alguém me passa para trás... Estou confiante.
E me passo – horas – perguntando:
Onde foi parar aquele colar? [de esmeraldas.
Noutro sonho? Em que trecho? Em que beco?
E por que só o que vejo é um diário escrito a sangue?
E por que se foi desfeito um praia-mar, tão excitante?

Por que faço chover quando choro?
Se me vou daqui, por que o apavoro?
Por que tentei ser sol um dia?
Se longes raios jamais percorreria?
Por que minha natureza teima em ser lua?
Se dentro de mim só há rua?

(E)scura e fechada;
(E)streita e calada;
(E)sgueirando em cada calçada;
(E)sperando em cada passada;
(E)squecer aquele brilho;
(E)scondido, meu ladrilho.

Da rua que sou.
Do poeta que me sobrou.

Divagações entre “esquerdas” de comportamentos.
Direções entre “esquinas” de sentimentos.
– Encruzilhada –

E sigo vencendo rabiscos de bares.
E prossigo reunindo os meus lares.
[numa grande Caixa Preta.

Entre becos e sonhos.
Entre rua e poesia.

***

Pedras na barriga

Da nicotina que ficou no casco,
a maior impotência que senti
se chama embaraço.
Nó de garganta – ardi.

A saudade tua me manteve presa.
Renegando ao peso das pedras.

Sigo.

A ciência que ali dentro existe: surpresa!
Moléculas, tu procuras, só vejo as “quebras”.

Fisgo:

te peguei.
E na barriga puxo pelo teu braço.
Enfiado por desespero do que sei.
Embaraço só vira cansaço...
Meu bem, depois que gozei.

Se vida, pedras fossem,
minha impotência de ti desvalidaria.
Nós de tua garganta, cuspam a todas as fossas!
Aquelas que fazem de ti brujería.
Há bueiros que pedras de dor não entupam?
Por que, então, tu não queres engolir
...o que “rochas” já não me engra-(rimam)?
Permaneço forte; estás travado a colidir.

/// Barriga e refluxo ///

Cuspa, cor, eu depredo.
Vomite, amor, eu engulo.
Despeje, calor, eu procuro.
Engula, dor, eu carrego.

***

Jogo de palavras

Raia,
fere-me com o esporão do desconto
apenas porque nos deste uma segunda vez
fere-me quando pensas que estás pronto
Baia.
Tua redoma de vidro blindado se desfez
E éramos orgulho. E éramos pausa. E ponto.
Agora reticência nas arraias das palavras
que nos cercam de saudade e medo
Justo nós, percorredores das farpas
O tabuleiro de teu braço é negro
Mas o coração (bem sei) não é raia
cujas grandes navegações não recusam “redes”
Saia.
Parta. Vista. Mas queira ter pernas
Para sempre voltar,
tapete ardiloso do mar
Caia no chão, tapete!
E reconheça: estou aqui, vou te pisar
Colorir-te com os pés e ser
não tua segunda vez
mas a segunda escama
E vais raiar consigo mesmo
– Por que motivo eu me permito
viver de jogo assim a esmo?

***

Lisboa menina e moça canção [ A mulher que eu amo]

A mulher que eu amo habita um oceano
Ela me convida a navegar quando não tenho pernas nem pleuras
Ela serpenteia dilemas em minha falta de fé
Seria real se não fosse Sereia
É a própria salvação em figura feminina
N’um mar de tantas que se entregam sem nadar
A mulher que eu amo acaricia ao meu corpo
Como quem perfuma a Confissão da saudade dos atos infames
Ela escolhe, nos dentes, os versos remotos, mordendo remorsos
Quando perto, me bane! Eu tenho medo de amar a este Ser
Quando longe, me mata! Eu tenho peito de voltar a lhe querer
Ela é fértil, doce, pálida, pequenina
Ela me perdoa sempre
Porque faz de mim louco, eu sendo normal
Ela é mágica
Porque guarda nos olhos a força firme de um ímã infinito
E me encanta para o centro de um coração imenso, o mais bonito
Escuros, esses olhos, abissais
Eu me abismo – verbo novo – completamente iluminado
A mulher que eu amo, Deus do Céu, é um recado
Que a vida inteira me responde para eu entender...

***

Sobre dias quentes

O sol vai nos castigar enquanto puder
O calor vai desgastar
o que resta de pele em nós
Quando tudo descarnar,
o sentimento
  de tão exposto –
não vai ter do que se esconder
E vai viver ambulante
batendo de Sol em Sol
Sem medo de se queimar
e de ser feliz.

***

Morte súbita

Diz-se, à boca miúda, que quando se beija um poeta
as letras percorrem o céu da boca em forma de pista
Viram trem-bala e morrem no peito em faísca
Constelação: é tiro e queda...


Quem é ela ?

NASSARY LEE BAHAR é jornalista e autora do livro Entre becos e sonhos (2014). Obteve vários prêmios literários e participou de coletâneas dentro e fora do Brasil.
 Hoje, nas águas de 12 de Março de 2018, completa 32 primaveras. Tem “primavera” no nome (“Bahar” em Turco). Nasceu poeta paraense de Belém, estrela do Norte. Atualmente reside na Turquia, estrela do Oriente. Acredita que a poesia é do mundo, não de ninguém! Acredita em destinos, astros, encontros e reencontros. Insiste em acreditar no ser humano e na força de bons versos. 
Uma mulher: Frida. Uma escritora: Lispector. Uma cor: lilás. Um hobby: tricotar. Uma paixão: desbravar idiomas e estradas. Um filme que marcou: Jornada da Alma (Drama / Psicologia). Um sabor: vinho. Uma saudade: tudo o que viveu e o que virá.