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HOMENAGEM A SANCHO PANÇA ►

Um texto da escritora TEREZA CUSTÓDIO

Quando manuseei, pela primeira vez, o livro O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha – clássico da literatura universal do autor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) – devo confessar que não estava com tanta disponibilidade para ler todas aquelas páginas pitorescas sobre o nobre e valente cavaleiro andante dos romances de cavalaria. Porém, aos poucos, fui me entusiasmando pelo fidalgo de porte alto e delgado que saía cavalgando em terras espanholas em seu cavalo Rocinante revestido de uma antiga armadura, um elmo, um escudo e uma lança em punho, dedicando suas aventuras e façanhas heroicas à amada Dulcinéia de Toboso. Como não se encantar por esse homem fantasioso e idealista que lutou contra a opressão com bravura e coragem em prol da justiça e da integridade do ser humano? Sem sombra de dúvida, Dom Quixote de La Mancha é um personagem loucamente apaixonante. Contudo, sem a pretensão de tirar um milésimo do mérito da grandeza do honrado e notável herói, longe de mim, simples mortal, insinuar tal disparate, tal despautério; deixo-o intocável com todas suas honras, suas glórias e seus feitos que o imortalizaram nesses quatro séculos. Mas, apaixonei-me pelo outro. Por Sancho Pança – o fiel escudeiro de Dom Quixote. Apaixonei-me por aquele homem de singular sabedoria que ajuda seu amo em suas empreitadas tresloucadas a deslumbrar o mundo de uma forma mais realista e o faz repleto do sentimento de compaixão pelo Cavaleiro da Triste Figura. Apaixonei-me por aquele gorducho baixinho, prosaico e ingênuo que deixa o posto de governador de uma ilha e, montado numa mula capenga, volta a seguir, fielmente, seu velho amo de cinquenta anos pela região seca de Castilla, consolidados em laços afetivos indissolúveis. Apaixonei-me por aquela figura solidária e generosa que providencia o alimento, cuida dos ferimentos com unguentos e alentos, zelando pelo bem-estar físico e emocional do velho Dom Quixote de La Mancha.
Quero, portanto, homenagear e enaltecer Sancho Pança e todos os que fazem do ato de cuidar um verdadeiro ato de amor. Que aprendamos com Sancho Pança a ser benevolente e tolerante com nossos irmãos.
Tereza Custódio
Romancista, cordelista e trovadora.
Dezembro, 2018

A noiva da vitrina - Mírian Cerqueira Leite



A noiva imóvel trancada na vitrina invade o vidro. E sobre braços tristes de manequim brilha rendas de lantejoulas. Botões de cetim. Desfila no pedestal de mármore seu riso parado de porcelana.

Acordada de seu sono de estátua anônima. Envolta em trajes nupciais. E véus invasores. Desabotoa pernas e passos. E sai.
Sem rumo. Sem alento. Se desarruma no vento. Se solta nas pedras da rua. E solta o corpo pálido. De sangue parado. E escolhe soltar os cabelos. Deitar nas calçadas as amarras dos véus.

A vida a chama. A paixão a chama. Acende a chama.
O sol esquenta seu corpo. Tudo escuta. Tudo sente.
No peito o pulsar do sangue. Quente.
No horizonte o cheiro do mar azul. Frio.
O som das ondas dos mistérios. Nas quebradas dos desafios. Mornas.

Caminha pelas areias. Brancas e grossas. Toca a água fresca de espuma. Completa-se no mar de belezas infinitas.
Sobre as ondas o sol arrasta raios. São cores que mergulham dentro. E fora.

Veste-se da nova roupa. Do novo riso. Dos sentimentos que escondeu. Daquilo que agora sente.

Passa um pássaro. No céu um risco. De liberdade recém-chegada. Chamam-na rumores. Além de todos os tempos. De todos os amores. Para além de toda modelagem. Para a intimidade de toda entrega.

Uma prosa de Renata Regina


O seu bem me faz bem, a sua alegria me emprenha, o seu sol queima a minha pele, bem como a sua brisa me alivia. Das minhas dores, horrores e amores. A sua viagem é minha, vou com você ao Alaska, vibro quando você se banha no Mediterrâneo. A sua canção ecoa nos meus ouvidos. Cante. A sua dança me rodopia. Dance. Estou com você no Himalaia e no Nepal. Sem sair daqui. Aprendi a ser você num amor que não tem mais fim. Até no sexo que você faz sem mim. Vá à Paris, e tome champanhe na Torre Eiffel. Brinde. Tim-tim! Nós dois, não sei, mas, não faz mal: passei a acreditar, e talvez seja verdade, que somos mesmo e apenas Um.

O SACO DO PAPAI NOEL • DE ROBERTO HEFLER


Esse ano a coisa tá tão feia que Papai Noel virá com um saco muito maior que o de costume, afinal haja saco pra aguentar o tanto de presente que está por vir!
2017 foi um ano difícil, mas um ano proveitoso. Aprendi muito nesse ano, não sei se algum dia esse aprendizado terá utilidade, mas que aprendi, aprendi!
Aprendi, por exemplo que quem tem poder e sofre da próstata, pode precisar de sonda pruma mijadinha, mas caga de transbordar vaso plus size! Quem diria que o sujeito com uma caneta e um cateter vesical fosse tão potente?
Outra coisa que aprendi nesse ano, foi que cadeia não é um lugar tão ruim quanto minha ignorância penitenciária julgava. Não que eu tenha desfrutado de uma prisão, mas ouvi dizer que uns certos camaradas, apesar de jurarem pros quatro cantos serem inocentes, estão presos em celas com home theater, que agora as quentinhas são gourmet, que uns estão passaram no vestibular da faculdade de teologia – Deus ajuda - outros lendo muitos clássicos, enfim adquirindo cultura Imagina só como daqui uns seis meses vão sair doutos. Isso é uma reviravolta na recuperação de criminosos inocentes. A Justiça sabe o que faz, né não Gilmar?
Mas retomemos ao futuro, afinal somos ou não somos o país do futuro?
Não importa, o Natal taí, gemendo na porta da gente, Papai Noel vai voltar a descer pelas chaminés, porque o preço do gás de cozinha tá nas nuvens, então não se esqueça de apagar o fogão a lenha. Também vale um alerta aos maridos: não precisam se esconder quando a patroa falar que vai assar o peru, duvido que ele vai trocar você por uma poderosa canetinha, ela é das antigas.
Aqui em casa vamos fazer o bom, velho e econômico amigo secreto, já sorteamos os nomes, levamos tão a sério que todos os papeizinhos estavam em branco pra ninguém saber que é o amigo. Meio lugar comum né, afinal não reconhecemos nem mais os inimigos, quanto mais os amigos.
Minha amada esposa já me prometeu um presente que faz tempo eu estava de olho, mas sabe como é, salário atrasando, cartão zerado, mas tudo isso é passageiro. Acreditem, vou ganhar um bife de contrafilé!
Meu presente também será caprichado, ela é o grande amor da minha vida e merece. Já comprei, tá escondido pra não estragar a surpresa. Ela vai adorar, vive me pedindo, tava difícil de comprar, mas Natal é Natal. Então meu amor, comprei seu esmalte!
Então é Natal e tudo pode praqueles que prevalecem, desejo a todos amigos, secretos, ocultos ou explícitos um Feliz Natal, que Papai Noel venha de saco vazio e que 2018 seja realmente um ano novo, porque de saco cheio já estamos!


A PROSA/POÉTICA DE NASSARY LEE


A noite é um perfume negro, um impacto que se põe e marca.
O mar é uma garrafa violada, vazando mensagens na imensidão.
A lua, um poema branco, puro, longínquo, um quase Eu redondo, essa dúvida circular no infinito.
A música, um verso que me embala o coração.
A arte, um prego que me reverbera a mente.
Um beijo só... nada mais me faz sonhar tanto.
É assim que o teu pensamento encobre o meu corpo e durmo.
No meio desses verbetes paralelos.


Rogo que a chuva molhe minha boca na ausência da tua vez... As gotas o fazem, ouvem a mim, e recuperam em minha voz uma verdade de saber, sem sede alguma, quando é que se vêem vencidos de novo: lábios e "lágrimas" que partem do Céu...


Lua, toda noite eu chego em casa esperando te encontrar... E aí estás, distante, no meu encontro, tão bela... Quero a ti, Lua, cegando aos meus olhos: o teu branco no meu preto. Eu já nem sei o que brilha mais nesse encontro de avessas cores. Eu não me canso de te ver, já o sabes ? Espero agora ansiosa (apenas porque te tenho), nestes dias lunares, a tua partida; espero que te despeças de mim com a saudade corriqueira das despedidas de amor, somente para que eu tenha a chance de te esperar de novo... e de novo... e de novo... como em todas as noites. Eis a minha vigília! Podes partir, podes atracar no céu dessa varanda aberta e estarei sempre aqui à tua espera, Lua. O meu peito é um cais.


SOMBRA AMIGA

Um texto de GUILHERME DE ALMEIDA

Não pude deixar de pensar nesse “John Doe” (1) — nesse Homem Comum — que está animando a tela do Art Palácio, quando, na noitinha chuvosa de anteontem, olhei em torno de mim, no ônibus abarrotado, macio e morno.
O homem, que eu tinha a meu lado, era vago como uma capa de borracha e simpático como um desconhecido.
— O sr., naturalmente, não me conhece. Ninguém me conhece. E isso é justamente o meu orgulho e a minha melhor felicidade. Sabe quem sou eu? Não sabe. Ninguém sabe. No entanto, eu estou todos os dias em todos os jornais. Eu sou aquele "Etc.” cômodo e fácil, que é o remate comum, o exit smiling de todas as notícias de reuniões sociais, ajuntamentos representativos em gares, aeroportos, enterros... “Notamos a presença dos srs. A., B., C., D., E., F. etc.”... Eu sou esse "etc.” Eu sou aquele transeunte de que falam muito confortavelmente as reportagens urbanas: "Um transeunte deu o alarme e o Corpo de Bombeiros acorreu prontamente”:.. Eu sou aquele “popular" que socorre sempre cardíacos e atropelados: "Transportada por um popular à farmácia mais próxima, a vítima recebeu os primeiros curativos”... Eu sou o homem coletivo. Não há, na vida, melhor situação do que a minha. 0 sr. é um homem na multidão: eu sou a multidão num homem. Todo o mundo me deve uma atenção, um serviço; e eu não dou a ninguém o trabalho ou a honra de me agradecer. Toda gente me incomoda, e eu não incomodo ninguém...
O ônibus parou numa esquina anônima. O homem saiu. Saiu todo banhado por um meu longo olhar; que era de gratidão, de ternura, de admiração e de inveja.

ABSTRATO

Um texto de LILI RIBEIRO 

E o peito apertado juntando os pedaços de uma vida traçada e quebrada.
Não sabia onde encontrar forças pra arrancar de dentro de si, tantas imagens desenhadas em cores múltiplas que se tornaram transparentes.
Depois de olhar por longas horas da janela, pensando numa possibilidade de voltar.
Mas não sabia o caminho.
Decidida, tirou ali mesmo suas roupas, uma de cada vez. Diante ainda da janela, olhou para o céu. A lua estava ainda bem cheia, mas um frio cortante entrava sem pedir licença. Suas roupas continuavam abaixo dos seus pés.
Admirando a lua, enrolou seus cabelos em nó. Virou- se é foi para o chuveiro. Deixou que a água morna lhe banhasse.

Lentamente, começou a cantar baixinho e suas lágrimas se misturavam as águas que caiam sobre o seu corpo. Aos poucos, a música foi tomando conta de sua alma e lindamente, soltava a voz, libertando a alma. Já noite, a luz do luar invadia a casa. Seu pranto, seu canto, consolo e liberdade. Amanheceu envolvida numa toalha branca e os raios de sol, lhe aquecia. Te apronta. Um novo dia, um novo tempo te espera.

ESCREVER, HUMILDADE, TÉCNICA

Um texto de CLARICE LISPECTOR
Texto extraído do livro "A Descoberta do Mundo", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1999.

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade" refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

ÚLTIMO DESEJO

Um texto de GABRIELA CÂNDIDO

São raros os amores que permanecem intactos com as úlceras do tempo. São raros os amantes que ao passar dos anos não pensam em abandonar o barco e se deixar submergir.
Conheci amigos que namoraram por anos, e num dia, sem mais nem menos, acabaram. Como assim? E o amor? E os filhos que ainda não nasceram? A casa na praia? O chalé em Martins? E os sonhos que ficaram pendentes para nunca mais se realizar?
É fato, indiscutível, indubitável, que não importa o quão bom você seja, quantos cafés da manhã tenha preparado e levado à cama, quantas flores tenha comprado e quantos “eu te amo” você tenha dito; a pessoa que você ama pode um dia acordar e já não mais sentir o mesmo.
O tempo que faz surgir o amor é o mesmo que faz finar-se o sentimento. E nós, tolos, como os apaixonados que em meio ao ato tampam a boca para o desejo não escapar do corpo, tampamos o grito e seguramos o fim. Um nó na garganta, tampado com a mão, segurando o desejo de dizer que acabou.

ODEIO PERDER UM ORGASMO

Um texto de MARCINHA GIROLA
Vou escrever isso e sair correndo das redes sociais. Apertar todos os botões de saída de emergência. Usar a saída estratégica pela direita e pela esquerda. Tentar enganar e desviar a todos. Os homens. Que vão querer comentar e enviar mensagens para autodefesa. Bem sabemos que muitas mulheres fingem orgasmo. Que muitas ainda nem sabem como é ter um orgasmo. Que muitas mulheres sequer gostam de sexo. Que muitas mulheres demoram para gozar. Que outras muitas mulheres gozam rápido. Que muitas mulheres sequer chegam a um orgasmo. Não importa o quanto os homens tentem. Fatos! Às vezes os homens sabem. Às vezes não sabem. Identificar. Quando a mulher teve um orgasmo. Parece que os sinais são diferentes. Quem disse que o jeito e a intensidade do orgasmo é igual? Depende do quanto a mulher conhece o próprio corpo. Eu perdi várias oportunidades de ter orgasmos. Porque o homem gozava rápido. Porque o homem mudava a posição quando eu estava quase lá. Porque o homem dizia que precisava mijar. Porque o homem não sabia em que bolso da calça ou da blusa tinha guardado a camisinha. Porque o homem não tinha camisinha. E eu nunca as tenho mesmo. Vai que compro uma que fique apertada, ou frouxa, ou dê reação alérgica? O dono do pênis que se vire com a proteção que lhe cabe. Porque eu não sou adivinha. Tudo isso, mas o problema não está nos orgasmos não sentidos, fingidos, rápidos, demorados, únicos ou múltiplos. O que é insuportável mesmo, nem é culpa das mulheres. O trágico de um orgasmo é quando você não sabe se o homem já teve o dele. 
Escritora, comediante, professora, mãe,
revisora , editora e o restante
é um livro aberto (segundo ela)...
Quando o homem goza tão quieto, que você, apesar de já ter tido um, ou dois, querendo o terceiro, continua, mas, de repente, o cara sai de cima, ou de baixo, ou o pênis escapa, mole. Caramba. Esfriou? Ou já gozou? Não tem coisa pior do que ter de olhar para a camisinha e fazer uma verificação. E reparar que sim, hora de deitar do lado, jogar conversa fora, ouvi-lo roncar, até poder começar tudo de novo. Não tem coisa pior do que não ter um aviso do homem na hora em que ele está tendo ou vai ter o seu orgasmo: um gemido ou um "eu vou gozar". Qualquer coisa... Que indique, opa, então está na hora de eu ter o último dessa penetrada. Odeio perder orgasmos por não saber quando um homem goza.

SORRISO

Da obra do escritor português JOSÉ SARAMAGO...

Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.

O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exatamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.

Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.

O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.

AS RECEITAS ♣ RUBEM ALVES


Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas  terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as idéias que moram na cabeça do pintor. São as idéias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançar sobre a tela.

Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres em idéias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. Hoje, nas relações de troca entre os países, o bem mais caro, o bem mais cuidadosamente guardado, o bem que não se vende, são as idéias. É com as idéias que o mundo é feito. Prova disso são os tigres asiáticos, Japão, Coréia, Formosa que, pobres de recursos naturais, se enriqueceram por ter se especializado na arte de pensar.

Minha filha me fez uma pergunta: “O que é pensar?” Disse-me que ‘esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia proposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns. Primeiro por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta. Porque, se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento. O pensamento é como a águia que só alça vôo nos espaços vazios do desconhecido. Pensar é voar sobre o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido.

E, no entanto, não podemos viver sem as respostas. As asas, para o impulso inicial do vôo, dependem de pés apoiados na terra firme. Os pássaros, antes de saber voar, aprendem a se apoiar sobre os seus pés. Também as crianças, antes de aprender a voar, têm que aprender a caminhar sobre a terra firme.

Terra firme: as milhares de perguntas para as quais as gerações passadas já descobriram as respostas. O primeiro momento da educação é a transmissão deste saber.

Nas palavras de Roland Barthes: “Há um momento em que se ensina o que se sabe…” E o curioso é que este aprendizado é justamente para nos poupar da necessidade de pensar.

As gerações mais velhas ensinam às mais novas as receitas que funcionam. Sei amarrar os meus sapatos automaticamente, sei dar o nó na minha gravata automaticamente: as mãos fazem o seu trabalho com destreza enquanto as idéias andam por outros lugares.

Aquilo que um dia eu não sabia me foi ensinado; eu aprendi com o corpo e esqueci com a cabeça. E a condição para que minhas mãos saibam bem é que a cabeça não pense sobre o que elas estão fazendo. Um pianista que, na hora da execução, pensa sobre os caminhos que seus dedos deverão seguir, tropeçará fatalmente. Há a estória de uma centopéia que andava feliz pelo jardim, quando foi interpelada por um grilo: “Dona Centopéia, sempre tive curiosidade sobre uma coisa: quando a senhora anda, qual, dentre as suas cem pernas, é aquela que a senhora movimenta primeiro?” “Curioso”, ela respondeu. “Sempre andei, mas nunca me propus esta questão. Da próxima vez, prestarei atenção.” Termina a estória dizendo que a centopéia nunca mais conseguiu andar.

Todo mundo fala, e fala bem.

Ninguém sabe como a linguagem foi ensinada e nem como ela foi aprendida. A despeito disto, o ensino foi tão eficiente que não preciso pensar para falar. Ao falar não sei se estou usando um substantivo, um verbo ou um adjetivo, e nem me lembro das regras da gramática. Quem, para falar, tem de se lembrar destas coisas, não sabe falar. Há um nível de aprendizado em que o pensamento é um estorvo. Só se sabe bem com o corpo aquilo que a cabeça esqueceu. E assim escrevemos, lemos, andamos de bicicleta, nadamos, pregamos pregos, guiamos carros: sem saber com a cabeça, porque o corpo sabe melhor. É um conhecimento que se tornou parte inconsciente de mim mesmo. E isso me poupa do trabalho de pensar o já sabido. Ensinar aqui, é inconscientizar.

O sabido é o não-pensado, que fica guardado, pronto para ser usado como receita, na memória desse computador que se chama cérebro. Basta apertar a tecla adequada para que a receita apareça no vídeo da consciência. Aperto a tecla moqueca. A receita aparece no meu vídeo cerebral: panela de barro, azeite, peixe, tomate, cebola, coentro, cheiro verde, urucum, sal, pimenta, seguidos de uma se série de instruções sobre o que fazer.

Não é coisa que eu tenha inventado. Me foi ensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta é a regra fundamental desse computador que vive no corpo humano: só vai para a memória aquilo que e objeto do desejo. A tarefa primordial do professor: seduzir o aluno para que ele deseje e, desejando, aprenda.

E o saber fica memorizado de cor – etimologicamente, no coração -, à espera de que a tecla do desejo de novo o chame do seu lugar de esquecimento.

Memória: um saber que o passado sedimentou. Indispensável para se repetir as receitas que os mortos nos legaram. E elas são boas. Tão boas que elas nos fazem esquecer que é preciso voar. Permitem que andemos pelas trilhas batidas. Mas nada têm a dizer sobre mares desconhecidos.

Muitas pessoas, de tanto repetir as receitas, metamorfosearam-se de águias em tartarugas. E não são poucas as tartarugas que possuem diplomas universitários.

Aqui se encontra o perigo das escolas: de tanto ensinar o que o passado legou – e ensinar bem – fazem os alunos se esquecer de que o seu destino não é o passado cristalizado em saber, mas um futuro que se abre como vazio, um não-saber que somente pode ser explorado com as asas do pensamento. Compreende-se então que Barthes tenha dito que, seguindo-se ao tempo em que se ensina o que se sabe, deve chegar o tempo quando se ensina o que não se sabe.

Rubem Alves, no livro “A alegria de ensinar”. São Paulo: Ars Poetica Editora Ltda, 1994.


Um círculo vicioso • Lilly Araújo


O amor se desfez como estrelas derretidas, e escorreu para os esgotos, os ratos raivosos pararam de brigar quando dele beberam, dissolvido na água pútrida. Os insetos asquerosos e tão repugnantes ficaram belos no mesmo instante, e começaram a bailar numa festa em volta da fogueira sob a luz do luar.


Holly e Gibson, os dois crocodilos que vivem por essas bandas, fizeram enfim as pazes, e se esqueceram da última demanda pelo feto abortado que desceu até ali junto ao último sinal da dignidade humana.


O amor se derreteu em forma de cachoeiras líquidas e lácteas, bem ali no meio da rua, visto a olho nu, por todos que passassem. O amor estava na vitrine, e nunca se escondia.


Ele entrou líquido pelas grades da 'boca de lobo' e foi habitar outros lugares. Abençoar outros habitantes e seres. Quando Mestre Splinter provou dele, não deu mais o treino rigoroso do dia, antes, declarou que era dia de pizza e de poesia. Os “meninos-ninjas”, mais que depressa, gritaram em coro: — Santa tartaruga!— E a April, com seus cabelos vermelhos feito fogo, apenas sorriu.


O amor se liquefez tantas vezes, que aprendeu que essa era sua melhor forma. Ele é o cheiro de coito, e as paredes desmoronando da vagina liquefeita de uma vez por todas.


O amor mais puro e cristalino derramou-se em forma de lágrimas de anjos, que invejavam a capacidade de chorar dos homens, que foi a eles negada, e enfim, descobriram como fazê-lo: passaram a derreter estrelas polares.


Esse amor me tocou. [Não se deve jamais beber este tipo de coisa!] Agora, que bebi o último gole da taça, sem arrependimentos ou ponderação alguma, eu não restei mais nada de mim. Eu apenas sou!


O amor começou a evaporar-se, e o cheiro solto no ar é o cheiro do orgasmo das almas que estão presas no limbo, e das que se congelam no inferno de Niflheim; e das que estão nos subníveis, todas igualmente atormentadas, do Inferno de Dante; e das que vagam perdidas porque não tiveram as duas moedas do barqueiro.


O amor se condensou sob a forma de nuvem cúmulo-nimbo, e desceu em tempestades de raios verdes, despejando-se sob a face da terra em forma de chuva de sêmen. A terra bebeu e sorveu dessa chuva, e começou a produzir os seus frutos acre-doces e aromáticos, como torta de cereja da vovó esfriando na janela, ou bolo de mel, maçã e canela, dessas que sempre atraem os ursos da redondeza, onde primeiros a chegar são sempre o Catatau e o Zé Colmeia.


O amor estava insinuando-se no ar, e foi aspirado em forma do cheiro mais desejado do universo, e fundiu-se nos pulmões, e alvéolos, em trocas gasosas rítmicas. Foi açoitado e bombeado por ventrículos e aurículas, por veias e cavas e artérias. O amor virou o sangue, a vida e o oxigênio. Ele desceu até o mais humilde das partes do corpo: os joelhos; e continuou até tocar enfim os pés. Depois subiu ao topo, ao encontro do ‘dono da razão’, em forma de ondas alfas, e nas sinapses nervosas e mágicas, confundiu o arrogante cérebro, deixando-o mais terno.


O amor bombeou tão forte e fervente,  em doses tão assustadoras no peito de seu ocupante, que medido escala de Fahrenheit, estourou o termômetro, e é certo então, que o corpo não suportou e se expandiu.


Rompido o pobre corpo, o amor contido no sangue escorreu, como a lava efervescente escorre do topo da montanha e desce lambendo a terra, fazendo-a rubra e de céu cinzento.


E este amor alcançou novamente a ‘boca de lobo’ até ao encontro do esgoto.


O amor é um círculo vicioso!



Lilly Araújo


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Ter ou não ter namorado, eis a questão • Artur da Távola


Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remunerada de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega do lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado é quem não tem amor, é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar... Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa, é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora em que passa o filme, de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai pelos parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da metro. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem gosta sem curtir, quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar.

Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.


Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida, para de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.

O Aquém • Eduardo Galeano


Estimado senhor Futuro,
de minha maior consideração:
Escrevo-lhe esta carta para pedir-lhe um favor. V. Sa. haverá de desculpar o incômodo.
Não, não se assuste, não é que eu queira conhecê-lo. V. Sa. há de ser um senhor muito ocupado, nem imagino quanta gente pretenderá ter esse gosto; mas eu não. Quando uma cigana me toma da mão, saio em disparada antes que ela possa cometer essa crueldade.
E no entanto, misterioso senhor, V. Sa. é a promessa que nossos passos perseguem, querendo sentido e destino. E é este mundo, este mundo e não outro mundo, o lugar onde V. Sa. nos espera. A mim e aos muitos que não cremos em deuses que prometem outras vidas nos longínquos hotéis do Além.
Aí está o problema, senhor Futuro. Estamos ficando sem mundo. Os violentos o chutam como se fosse uma pelota. Brincam com ele os senhores da guerra, como se fosse uma granada de mão; e os vorazes o espremem, como se fosse um limão. A continuar assim, temo eu, mais cedo do que tarde o mundo poderá ser tão só uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem água, sem ar e sem alma.

É disso que se trata, senhor Futuro. Eu peço, nós pedimos, que não se deixe despejar. Para estar, para ser, necessitamos que V. Sa. siga estando, que V. Sa. siga sendo. Que V. Sa. nos ajude a defender sua casa, que é a casa do tempo.
Faça por nós essa gauchada, por favor. Por nós e pelos outros: os outros que virão depois, se tivermos um depois.
Saúda V. Sa. atentamente,
Um terrestre.

2001

— Eduardo Galeano, no livro “O teatro do bem e do mal”. tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2006

Carmen - Guilherme Cavalcante



Teus olhos são cacimbas d’água salobra. Salgado e doce. Olhos dúbios. Tu és ambígua, Carmen. E eu? Eu sou inteiro sempre! Ou caos, ou ordem. Quando entro em combustão, explodo! Quando sou calmo, atinjo o estado do pleno. 
Mas tu, Carmen... tu és o avesso e o direito. Ordem e anarquia. Céu e inferno. Sempre. Ao mesmo tempo. E sendo assim tu te constróis e me destróis e torna a me montar. E com isso vem aos meus lábios o ímpeto de um grito. Uma palavra de comando aos berros. Mas travo. Teu magnetismo é irresistível, tira-me de órbita. Quase perco o rumo. Quase me perco nos teus devaneios e nesse teu sorriso bambo de dentes alvos, delineado, trituradores. 
Sempre cultivei extremos alargados ao limite do intenso. Não gosto de indecisões. Ou suo de calor, ou tremo de frio. Mas tu... tu és o próprio calafrio que assalta a pele ao meio dia. Tu és o meio e não é equilíbrio. És descompasso. Tens o passo mole e carnes rijas. Carmen, poesia em latim. Carmen, prosa ao meu ouvido. Carmen, teu corpo é um amontoado de sinuosidades, cantos e arestas e eu aqui, embrenhado em decifrar o que você nem entende bem, mas é. 
Por fim, eu que ou sou nunca ou sou sempre, resvalo no quase. Culpa sua, oh ingrata. Tu és o meu desatino. Um universo paralelo e dominante. Uma imensidão infinita chamada Carmen.

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Guilherme Cavalcante

Veja o mundo de outra maneira - Marcinha Girola


O mundo já foi quadrado, achatado, girado, cartografado. E nem era mesmo o mundo a não ser pelo ponto da vista do humano, na soma das experiências condicionadas da história geral.

Imprudentemente metafísico, compõe a realidade universal: de gentes sofridas, no calor das feridas; de mentes dotadas, por matéria imortal; de consciências expressivas, com ritos temperamentais. Sobreviver é intuitivo e involuntário a cada geração.

Repare o mundo, colorido de bordas desbotadas e o inverso também se aplicam em camadas. Um globo onde a distância entre as estações pode significar apenas o dia em um único noturno.

Compreenda além das subjetivas impressões imperfeitas, que não há um mundo a ser visto por completo, que inexiste a sensação dialética a defender a totalidade. Embaixo ou de cabeça para baixo, o seu é diferente no modelo, nas formas… da boca, do pano da roupa sem pele. Em cada encanto um espanto, um martírio mágico. Longe e perto, vivem como verbo intransitivo indireto e morrem radicais em regular flexão.


Veja o mundo, de dentro a fora, de anverso e reverso. Veja o mundo a sua maneira, e de outra maneira, através dos meus olhos.

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Marcinha Girola 

Os nossos ponteiros sempre vão se encontrar - Mariângela Costa


“Quando duas pessoas fazem amor, não estão apenas fazendo amor... Estão dando corda ao relógio do mundo”. (Mário Quintana)

Dizem que todo poeta sente as coisas um pouquinho a mais do que todo mundo. É como se eles tivessem essa habilidade sensorial de perceber o lado mais colorido de tudo - das cores, dos toques, dos cheiros -  e sair traduzindo por aí em palavras que nós nem sempre entendemos. Com Mário Quintana não foi diferente. E ele foi muito esperto quando disse essa frase aí em cima. Ele sabia que o amor move o mundo e que, quando dois sortudos o dividem, entregam para a vida um propósito bem maior do que simplesmente “existir”. Ele sabia (mesmo colocando a própria profissão em risco), que quando uma pessoa ama, também descobre como fazer poesia. Mesmo que seja uma em branco, sem palavra nenhuma, já que o amor é cheio dessas coisas não-ditas. O que Mário não sabia é que o amor não tem nada a ver com relógios. Porque amor movimenta as coisas, dá força pra elas, mas não tem nada a ver com o tempo. Isso quem faz é a saudade. O único jeito de achar amor num relógio é olhando os ponteiros: por mais que o tempo faça os dois darem voltas, eles sempre vão se esbarrar um no outro. E só acredita no sempre quem acredita no resto. No amor, nas cores, nos toques, no movimento e nos ponteiros dos relógios. Eu, por algum motivo, resolvi ser uma dessas pessoas. Não virei poeta, mas resolvi abusar dos 5 sentidos que me deram. E isso nem sempre deu certo, porque o amor não gosta de gente que insiste. Ele gosta de gente que espera. Aí eu esperei. E esperei. Até que o meu ponteiro esbarrou no seu. Eu podia explicar o que aconteceu a partir daí falando de um dia de sol, da risada de um bebê, de uma paisagem colorida ou de um relógio ganhando corda. Mas eu prefiro explicar falando da gente. Do jeito confortável que passamos a experimentar a vida desde que um segurou o mão do outro pra seguir essa viagem maluca. Do sorriso seguro que fazemos questão de colocar nos nossos rostos quando nos encontramos, porque quando ele aparece pra nós, ele só fala de certezas. Da sensação de ter super-poderes só por constatar que, com 7 bilhões de pessoas no mundo, eu consigo te fazer feliz. Da paz que, mesmo sendo paz, surge fazendo barulho, provocando risada e dançando com a gente todos os dias pela casa. Da cosquinha que eu sinto no meu coração por te escrever tudo isso, como se fosse meu dever, minha obrigação, fazer você também perceber que somos capazes de fazer tanta coisa bonita. Porque sabemos fazer manobras. Sabemos fazer sol em dia nublado. Sabemos pegar um problema, dobrar e transformar em origami, pegar uma briga e transformar em curativo, pegar a mais tranquila das rotinas e transformar em movimento. Não importa pra onde, porque estamos juntos. Não importa o sentido, porque os meios nunca justificaram o fim. Aliás, pra quem acredita em para sempre, não faz sentido nenhum acreditar no fim. E eu acredito na frase do relógio, no amor e na corda. Acho mesmo que amor de verdade só existe pra quem acredita nele. E quando ele resolve existir, ele vem com tudo! Eu acredito em nós dois mais do que tudo no mundo. E nada tem o poder de fazer esse relógio parar… Porque por mais que isso se torne uma vontade, é inevitável… Os nossos ponteiros sempre vão se encontrar.
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Mariângela Costa

A menina e a janela - Luciana Costa


A mãe passou no quarto da filha e observou que ela estava quieta, olhando pela janela. A mãe chegou de mansinho e perguntou-lhe o que tanto chamava a sua atenção. A filha respondeu suavemente que estava observando o mundo. E a mãe indagou novamente o que tanto chamava sua atenção. A filha respondeu calmamente que observava a alegria das crianças, pareciam anjos brincando de roda e amarelinha. E a mãe continuou a indagar o que mais admirava, já que fazia um bom tempo que ela ali permanecia. A filha disse-lhe que via uns adultos estranhos, não sorriam, andavam quase correndo, mas não conseguia descobrir do que fugiam. A mãe respirou e disse-lhe que os adultos às vezes são estranhos, porque transformam coisas pequenas ou médias em gigantes. A filha ficou pensativa ...e perguntou a mãe se eles tinham sido crianças algum dia. A mãe respondeu que sim, mas que muitos esqueciam da sabedoria desse tempo. A filha ficou mais um tempo e olhou para mãe, levantou-se a abraçou. E olhando profundamente nos olhos da mãe disse-lhe que era muito feliz porque sua mãe era apenas uma criança grande, que não tinha esquecido as coisas importantes de uma criança pequena. E saíram juntas de mãos dadas para brincar no jardim. 
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Luciana Costa -

Faça o que você ama - Cyrus Benavides



Essa frase roubou a cena das ruas de Natal, nos últimos dias. Faixas espalhadas em viadutos e passarelas chamaram a atenção. A frase distraiu congestionamentos. Encantou as luzes dos semáforos. Fez a imaginação viajar nas escolhas.

O anonimato atiçou a curiosidade. Instigou os sentidos. Quem teve a ideia ? Para quem se dirige a mensagem ? Será um recado, um aviso ou uma sentença. 

Quem entrou na sala para o ENEM jurou que era um aviso para lutar por sua vocação; 

Os apaixonados dirão que foi luz no fim do túnel para não desistir daquele amor tão impossível; 

Os otimistas levantarão a bandeira de que é um conselho para enfrentar a crise financeira. 

Para mim , uma única conclusão: 

O amor é o bem maior da vida. O que se faz com amor tem a benção de Deus. 

O amor é um fusquinha velho onde cabem infinitos elefantes . FAÇA O QUE VOCÊ AMA ...

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Cyrus Benavides