Mostrando postagens com marcador LITERATURA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LITERATURA. Mostrar todas as postagens

A LISTA DOS GRANDES ESCRITORES


DO PORTUGUÊS JOSÉ SARAMAGO

Uma revista espanhola teve a ideia de pedir a uns quantos escritores que elaborassem a sua árvore genealógica literária, isto é, a que outros autores consideravam eles como avoengos seus, directos ou indirectos, excluindo-se do inventado parentesco, obviamente, qualquer presunção de relações ou equivalências de mérito que a realidade, pelo menos no meu caso, logo se encarregaria de desmentir. Também se pedia que, em brevíssimas palavras, fosse dada a justificação dessa espécie de adopção ao contrário, em que era o «descendente» a escolher o «ascendente». A cada escritor consultado foi entregue o desenho de uma árvore com onze molduras dispersas pelos diferentes ramos, onde suponho que hão-de vir a aparecer os retratos dos autores escolhidos. A minha lista, com a respectiva fundamentação, foi esta: Luís de Camões, porque, como escrevi no «Ano da Morte de Ricardo Reis», todos os caminhos portugueses a ele vão dar; Padre António Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Península Ibérica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brandão, porque demonstrou que não é preciso ser-se génio para escrever um livro genial, o «Húmus»; Fernando Pessoa, porque a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal; Kafka, porque provou que o homem é um coleóptero; Eça de Queiroz, porque ensinou a ironia aos portugueses; Jorge Luis Borges, porque inventou a literatura virtual; Gogol, porque contemplou a vida humana e achou-a triste. 

José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1996)' 

Bartolomeu Campos de Queirós:


Uma literatura de encantamento e sonho


Por José de Castro* 


Este ano, em janeiro de 2018, completaram-se seis anos do encantamento do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. Tive o grande prazer de conhecê-lo pessoalmente. Uma pessoa calma, que nos encantava também com sua fala mansa nas palestras que ministrava. Estive relendo alguns livros desse  autor premiadíssimo: Selo de Ouro da FNLIJ, Prêmio Bienal de São Paulo, Prêmio Prefeitura de Belo Horizonte, Jabuti, Diploma de Honra da IBBY de Londres e Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, dentre outros, o que é sempre motivo de novas descobertas.  

Partiu em 2012, mas nos deixou muitos títulos, mais de 64 livros escritos, dos quais podemos extrair sempre preciosas lições de vida. Mario, Pedro, Indez, Escritura, O olho de vidro do meu avô, Raul, Estória em três atos, O fio da palavra,
são alguns deles, todos com o encanto próprio de um autor que sabe lidar com as palavras. Mais que isso, tem o poder de mergulhar dentro da alma e do coração delas. Destila em cada frase uma essência singular, única, que inebria como se fosse matéria de sonho, com suavidade, leveza e profundidade. Por todas essas  peculiaridades e extremo esmero no trato da linguagem, a obra de Bartolomeu Campos de Queirós tem merecido vários estudos acadêmicos, sempre admirada e elogiada em todos os níveis.

Dentre seus livros, destaco  Diário de Classe, Ciganos, A faca afiada, Cavaleiros das Sete Luas, Coração não toma sol, Onde tem bruxa tem fada, Correspondência, Ler, escrever e fazer conta de cabeça, Para criar passarinho, Até passarinho passa, Elefante, A árvore. 

Desfrute um pouco desses encantamentos e da magia de Bartolomeu Campos de Queirós retirados dessas doze obras. 

 01. DIÁRIO DE CLASSE (SP: Moderna, 1997)
“Se olho demoradamente para uma palavra descubro, dentro dela, outras tantas palavras. Assim, cada palavra contém muitas leituras e sentidos. O meu texto surge, algumas vezes, a partir de uma palavra que, ao meu encantar, também me dirige. E vou descobrindo, desdobrando, criando relações entre as novas palavras que dela vão surgindo. Por isso digo sempre: é a palavra que me escreve.”

02. CIGANOS (BH: Miguilim, 1996)
“Foi de seu pai que ele herdou essa mania calada, esse jeito escondido e mais a saudade de coisas que ele não conhecia, mas imaginava. Sua vontade de partir veio, porém, do desamor. Tudo em casa já andava ocupado: as cadeiras, as camas, os pratos, os copos. Mesmo o carinho distribuído...”

03. A FACA AFIADA (SP: Moderna, 1997)
“Naquela noite o menino mais velho perdeu o sono. Encolheu bem o corpo para caber menos medo. Apertou as meninas dos olhos para não deixar escapar o sono. O vento gemia fino nas gretas das janelas. As tábuas do assoalho rangiam soluços. No forro de esteira caminhavam as suspeitas.”

04. CAVALEIROS DAS SETE LUAS (BH: Miguilim, 1997)
“Foram sete anéis de ouro
sete alianças de prata
sete coroas em flores
trançadas por sete amores...”

05. CORAÇÃO NÃO TOMA SOL (SP: FTD, 1998)
“Assim o coração continha intensos e diversos segredos: de alegria, de mágoa ou eram de dor e sorte ao mesmo tempo, as coisas. E o coração que não tomava sol restava sem pausa para pontuar todas as histórias.”

06. ONDE TEM BRUXA TEM FADA (SP: Moderna, 1983)
“Um dia, Maria do Céu cansou de ser ideia. Com as nuvens, costurou um vestido. Pediu emprestados os sapatos de um anjo. Arrancou sua estrela e colou na ponta de um pedaço de raio de Sol. Com retalhos de papel de seda – resto de um papagaio solto de linha – construiu seu chapéu. E Maria, ideia no céu, virou Fada!”

07. CORRESPONDÊNCIA (MG: Rhj, 2004)
“Como são fortes as palavras! Elas dizem coisas que só o coração escuta. Se escritas sobre papel claro, ficam mais iluminadas e eternas. Sei que as palavras podem abrir novo caminho.
Procurei dentro de mim alguma palavra dormindo. Só encontrei uma: Igualdade. Ela nos permite viver as diferenças.”

08. LER, ESCREVER E FAZER CONTA DE CABEÇA (SP: Global, 2004)
“Parecia muito pequeno o ideal de meu pai, naquele tempo, lá. A escola, onde me matriculou também na caixa escolar – para ter direito a uniforme e merenda -, devia me ensinar a ler, escrever e a fazer conta de cabeça. O resto, dizia ele, é só ter gratidão, e isso se aprende copiando exemplos.”

09. PARA CRIAR PASSARINHO (SP, Global, 2009)
“Para bem criar passarinho
  é bom ter asas na alma,
  imensa inveja dos voos e
  viver leve com as penas.”

10. ATÉ PASSARINHO PASSA (SP: Moderna, 2003)
“Mas havia naquele tempo, entre tantos outros, um passarinho que eu mais amava. Ele chegava transportado por um voo raso. Pousava sobre a grande varanda, olhando por todos os lados. Parecia querer estar só comigo, eu pensava com vaidade. Depois me pedia licença para entrar, como se precisasse.” 

11. ELEFANTE (SP: Cosac Naify, 2013)
“Ele entrou no meu sonho, sem licença. Chegou pequenininho como se fosse filho da insignificância. Seu andar perdido, pisando dúvidas, parecia transportar o passado em suas costas. Não se desfaz da carga do passado. Ele sabia que o futuro é só matéria de fantasia.”

12. A ÁRVORE (SP: Paulinas, 2011)
“Pelo muito que minha árvore me faz pensar, tenho por ela um respeito desmedido. Passo horas do meu relógio decorando as lições que minha árvore me ensina. Ela não sabe que é minha professora. Aliás, desconfio que minha árvore viva gratuitamente. Eu é que necessito dar sentido à sua existência.”

Aqui ficam essas doze sugestões de leitura desse mineiro que dizia:  Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar, como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar.
-------------------------------------------------------------------
*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Mestre em Tecnologia da Educação. Autor de livros infantis (A marreca de Rebeca, O mundo em minhas mãos, Poemares, Poetrix, Dicionário Engraçado, A cozinha da Maria Farinha, Poemas Brincantes, Vaca amarela pulou a janela). Contatos: josedecastro9@gmail.com.


UM POEMA DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS

O fio da palavra

A vida é um fio,
a memória é seu novelo.

Enrolo – no novelo da memória –
o vivido e o sonhado.

Se desenrolo o novelo da memória,
não sei se tudo foi real
ou não passou de fantasia.

A vida é um fio
mais fino que a linha da aranha.
Tem uma ponta no nascimento
e a outra: eu não sei, não.

(Bartolomeu Campos de Queirós, in O fio da palavra, RJ: Galera Record, 2012)




UM POUCO SOBRE RIMAS


É a consonância de palavras ou sílabas dando  ao ouvido uma impressão agradável.

"Depara-se-nos uma rima (final) quando, em duas ou mais palavras, a última vogal acentuada, com tudo o que se lhe segue, tem idêntica sonoridade"1

Em geral a rima é a identidade e/ou semelhança sonora existente entre a palavra final de um verso com a palavra final de outro verso na estrofe. Contudo pode verificar-se também o processo da rima entre o final do verso e palavras que se encontram no interior deste, (rima interna ou encadeada.)

A rima era o elemento essencial para que os Clássicos considerassem um texto como sendo "Poesia" e podem ser  classificada quanto:

Acentuação tónica (métrica):
Agudas – Terminados em palavra oxítona (em que a sílaba tónica é a última).
Exemplo: "Onde canta o sabiá" por Gonçalves Dias;
Graves – Terminados em palavra paroxítona (em que a sílaba tónica é a penúltima).
Exemplo: "Quando junto de mim Teresa dorme" por Álvares de Azevedo;
Esdrúxulas – Terminados em palavra proparoxítona (em que a sílaba tónica é a antepenúltima).
Exemplo: "Por entre anémonas, nadadeiras trémulas" por Cecília Meireles;
Fonética (coincidência sonora das palavras que rimam):
Perfeita ou Soante – Quando há analogia fonética (correspondência completa de sons): tento / vento;  vele / sele;  peso / teso;
Imperfeita ou Toante – Quando não há analogia fonética total (correspondência parcial de sons): âmbar /amar;  até /ate; estrela / vela;
Morfologia (estrutura e configuração das palavras):
Ricas – têm classes gramaticais diferentes:
Exemplo:
"Não há machado que corte
a raiz ao pensamento
não há morte para o vento
não há morte"
por Carlos de Oliveira;
Pobre – Pertencem à mesma classe gramatical:
Exemplo:
"Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia" por Ary dos Santos;
Preciosa – palavras quase sem rima:
Exemplo:
"Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde" por Ary dos Santos;
Coroadas – As que ocorrem dentro de um mesmo verso.
Exemplo: "de puros sons quebrados por sons puros" por Joaquim Manuel Magalhães;
Posição na estrofe:
Emparelhadas ou paralelas (A...A...B...B)
(A) - "Manuel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
(A) - Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
(B) - Foi Coimbra. Foi esta paisagem triste, triste,
(B) - A cuja influência a minha alma não resiste. (...)

Cruzadas ou alternadas (A...B...A...B)
(A) - "Senhora, partem tão triste
(B) - meus olhos por vós, meu bem,
(A) - que nunca tão tristes vistes
(B) - outros nenhuns por ninguém."

Opostas: intercaladas ou interpoladas (A...B...B...A)
(A) - "Busque Amor novas artes, novo engenho
(B) - para matar-me, e novas esquivanças;
(B) - que não pode tirar-me as esperanças,
(A) - que mal me tirará o que não tenho."

Continuadas: consiste na mesma rima por todo o poema.
"Já se viam chegados junto à terra
que desejada já de tantos fora,
que entre as correntes Índicas se encerra
e o Ganges, que no céu terreno mora.
Ora sus, gente forte, que na guerra
quereis levar a palma vencedora:
Já sois chegados, já tendes diante
a terra de riquezas abundante!"

Misturadas: as que não seguem uma "esquematização regular".
"Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras."


1. [Moisés, M., Dicionário de Termos Literários, São Paulo: Brasil, Editora Coltrix, 1974.]

CONTOS DE FADAS DOS IRMÃOS GRIMM ♣ POR KARIN VOLOBUEF


Os contos coletados e editados pelos Irmãos Grimm continuam vivos e atuais, mantendo como nunca seu poder de encantar crianças e adultos, mesmo tendo se passado 200 anos desde a sua primeira aparição em livro. A obra dos irmãos foi decisiva para moldar nossa concepção de Literatura Infantil e impulsionar os estudos e a coleta de folclore, tendo contribuído para diversas áreas, dentre as quais a filologia, a antropologia e a literatura comparada.

Cinderela, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e tantos outros personagens de contos de fadas nos acompanham desde as nossas primeiras impressões de infância. São parte integrante de nossa cultura e formação como leitores, fundamentais para estimular a nossa capacidade de imaginação. Os personagens dos contos dos Grimm povoam filmes, desenhos animados, brinquedos e uma infinidade de outros produtos e artefatos, de modo que podemos duvidar que hoje possa haver alguém que nunca tenha ouvido falar no sapo que virou príncipe ou na casinha de doces onde mora uma bruxa malvada.

Por volta do Natal de 1812, saiu o primeiro volume de seus Contos de Fadas para o Lar e as Crianças (em alemão: Kinder-und Hausmärchen), seguindo-se o segundo volume em 1815. Em comemoração a essa data e ao feito dos Grimm, a Editora Cosac&Naify acaba de lançar Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, que reúne os dois volumes dos textos originais traduzidos por Christine Röhrig e com ilustrações em cordel de J.Borges.

Os Irmãos Grimm

Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) nasceram na cidade de Hanau (no estado de Hessen, na região central da Alemanha), de uma família de pastores da Igreja Calvinista Reformada. Os pais, Philipp Wilhelm Grimm e Dorothea Grimm, tiveram nove filhos, dos quais apenas seis chegaram à idade adulta. A infância dos irmãos foi vivida na aldeia de Steinau, onde o pai atuava como funcionário de Justiça e Administração do Conde de Hessen.

A morte súbita do pai em 1796 lançou a família na miséria, e os dois filhos mais velhos, Jacob e Wilhelm, foram enviados em 1798 para morar com a tia, na cidade de Kassel, onde cursaram o Ensino Médio no Friedrichsgymnasium, como preparo para o estudo do Direito, que ambos iniciaram a seguir, junto à Universidade de Marburg.

Um de seus professores, Friedrich Carlvon Savigny, percebeu a disposição dos irmãos para a pesquisa de antigos manuscritos e documentos históricos e colocou à disposição sua biblioteca particular, familiarizando-os assim com as obras do Romantismo e com as cantigas de amor medievais. Nesse momento, foi decisivo para os irmãos o pensamento de Johann Gottfried Herder, que com sua antologia de Canções Populares (Volkslieder, 1878/1879) havia apontado para a importância cultural da poesia popular contemporânea e de tempos remotos.

Um evento de natureza política ainda concorreu para moldar a trajetória dos irmãos. Com o avanço do exército francês pelos territórios alemães adentro, em 1807 a cidade de Kassel passou a ser governada pelo irmão de Napoleão, Jérôme Bonaparte, que a designou capital do recém-instaurado Reino da Vestfália. Essa situação criou as condições para que os Grimm voltassem o olhar para a Idade Média de maneira muito distinta do fascínio manifestado até então pelo Romantismo. Ao contrário dos românticos, que tendiam a idealizar a Idade Média, os Grimm focalizaram o passado em busca de explicação para as condições vividas no presente pelas terras alemãs (que culturalmente se submetiam aos modelos vigentes na França e que viriam a se unificar política e economicamente como país, formando a Alemanha de hoje, apenas em 1871, muitos anos após a morte de ambos os irmãos).


O medievalismo dos Grimm tingiu-se, assim, da conotação de resistência à ocupação estrangeira e pautou-se pela tentativa de recuperação da identidade nacional por meio da busca de suas raízes culturais. Tais raízes estariam, justamente, no reservatório linguístico e no material folclórico de origem popular. Como resultado, os Grimm dedicaram suas vidas à criação de um dicionário filológico da língua alemã, à elaboração de livros sobre gramática e história da língua alemã, à reunião de mitos, lendas, baladas e, é claro, contos de fadas. Os contos foram sendo coletados, revisados e divulgados ao longo de décadas, desde 1812 até a edição definitiva, em 1857, última em vida dos irmãos.

A coleta de contos populares

Após os estudos universitários, os Grimm fixaram-se em Kassel e passaram a ganhar a vida como bibliotecários. Por intermédio de seu mentor, o professor Von Savigny, eles foram contatados pelos escritores Achim von Arnim e Clemens Brentano para que colaborassem na realização de A Cornucópia Mágica do Menino (3 vols., 1805-1808), antologia de canções populares com um anexo contendo cantigas infantis. A cooperação nesse projeto serviu-lhes de treino, e os irmãos ganharam experiência na coleta e publicação de textos antigos tanto de cunho literário quanto popular.

O contato com Brentano foi decisivo para chamar a atenção para o filão das narrativas populares registradas em livros antigos. Através de Brentano, os Grimm também tomaram conhecimento da obra Conto dos Contos, em que Giambattista Basile reuniu narrativas por ele colhidas da oralidade popular na Itália, antes da publicação dos contos de Perrault na França (1697).

Como bibliotecários, os Grimm tinham fácil acesso a textos e manuscritos raros, e dentro em pouco descobriram um volume de Johann Michael Moscherosch contendo o conto O Camundongo, o Passarinho e a Linguiça. Daí em diante os irmãos nunca abandonaram a prática de buscar narrativas em fontes impressas, passando inclusive a acolher textos publicados em sua época, como O Pescador e sua Mulher e O Pé de Zimbro, coligidos por Philipp Otto Runge e publicados em jornal em julho de 1808.

Logo, no entanto, eles passaram a buscar fontes orais e, para isso, recorreram a amigos e conhecidos. Dessa forma, além das 16 narrativas absorvidas de publicações e manuscritos, o primeiro volume de contos de fadas dos Grimm, publicado em 1812, contém contribuições de Dorothea Wild e suas quatro filhas (família do farmacêutico local; uma das filhas, também chamada Dorothea, casou-se em 1825 com Wilhelm Grimm), das irmãs Hassenpflug (descendentes de franceses huguenotes e amigas de Charlotte, a única irmã dos Grimm), de Johann Friedrich Krause (filho de sapateiro e vigia, que recebia de Wilhelm uma peça de roupa usada em troca de cada narrativa que ele lhe contava) e de Friederike Mannel (filha de pastor e professora de escola privada em Allendorf), entre outros.

A contribuição de maior envergadura, porém, veio de Katharina Dorothea Viehmann (1755-1815), apelidada de “Viehmännin”. Ela era a mulher de um alfaiate da aldeia de Niederzwehren e costumava dirigir-se a Kassel para vender frutas, indo constantemente à casa dos Grimm para abastecê-la de ovos e verduras. É dela que veio grande quantidade de contos, e muitas vezes suas versões acabaram substituindo outras que haviam sido coletadas anteriormente e até já publicadas. No total, ela forneceu 37 contos, os quais formaram o miolo do segundo volume, publicado em 1815. Ela foi a maior tributária dos Grimm, ficando conhecida como “a mulher dos contos de fadas” (Märchenfrau).

Ao contrário do que usualmente se assume, os Grimm não viajaram pelas áreas rurais da Alemanha à cata de contos, tampouco se sentaram ao pé de velhas camponesas para escutar suas narrações. Estudiosos e letrados, os Grimm procederam a um complexo trabalho de depuração dos textos, que não apenas os adequou ao público-alvo do espaço doméstico da classe média burguesa, como também lapidou seu caráter estético, potencializando assim seu efeito artístico.

As versões dos contos dos Grimm

O Romantismo alemão conferiu grande importância aos contos de fadas e ao elemento mágico em geral, ou maravilhoso, conforme atestam as obras de escritores como Ludwig Tieck (O Loiro Eckbert), Clemens Brentano (Contos de Fadas do Reno) ou Friedrich de la Motte Fouqué (Ondina). Na obra desses autores, o conto de fadas popular é tratado como uma matriz ou fonte de inspiração para a livre criação ou invenção de histórias.

Os Grimm, ao contrário, nunca alteraram enredos ou adicionaram novos personagens. Isso não significa que eles tenham tratado as narrativas recolhidas com total imparcialidade ou fidelidade científica.

Guiando-se por sua sensibilidade literária e também por um “ideal de conto”, os irmãos, em especial Wilhelm, pretendiam trazer a lume um material que mais se aproximasse da “narrativa primordial”, a partir da qual teriam sido geradas as várias versões que circulavam na oralidade. Quando começaram a se ocupar das narrativas de cunho antigo e popular, os Grimm logo perceberam as gritantes semelhanças entre certos contos distintos, a exemplo de A Gata Borralheira e Mil Peles, ou ainda entre contos e mitos, como A Bela Adormecida e o mito de Sigfried (ou Sigurd, na Saga dos Volsungos), herói que resgata uma valquíria de seu sono secular. Os Grimm consideravam que é possível depreender de tais similaridades uma origem compartilhada, ou a existência, num passado remoto, de uma narrativa primordial que teria se modificado ao longo das gerações de contadores, dando origem a um múltiplo de narrativas no presente.

Assim, quando um conto lhes chegava narrado por vários contadores, os Grimm selecionavam a versão mais próxima da forma primitiva ou original. Outras vezes mesclavam partes de uma versão com outras, a fim de alcançar o mesmo objetivo. Eles não tinham em vista a cristalização dos contos na forma exata em que os tinham ouvido, mas a conservação de um protótipo ideal, em que estaria espelhada a ascendência comum das múltiplas formas da narrativa popular oral: contos de fadas, mitos, fábulas, lendas, sagas... Os contos foram sendo revistos a cada nova edição, buscando-se destilar sua essência prototípica. Ao longo dos anos, contos recém-coletados iam sendo acrescidos à antologia, outros foram excluídos, o que, no final, levou a um gradual aumento no número de narrativas. Em 1857, a sétima e última edição preparada por Wilhelm Grimm continha 200 contos de fadas e dez legendas infantis.

Rejeitando alterações profundas e arbitrárias, os Grimm realizaram diversas mudanças: expandiram o tamanho de descrições, buscando torná-las mais vívidas e cativantes; substituíram o discurso indireto (fala do narrador) pelo direto (fala de personagens); reduziram as orações subordinadas, simplificando assim os períodos que antes estavam longos demais; subtraíram repetições inúteis e expressões desajeitadas; adaptaram a expressão em dialeto, passando-a para o alemão-padrão. Essa atuação sistemática sobre a forma dos contos resultou em uma antologia dotada de um estilo bastante uniforme e coerente que, hoje em dia, faz dos contos um verdadeiro modelo do que seria um “típico conto de fadas”.

 KARIN VOLOBUEF 


* Doutora em Literatura Alemã, professora do Departamento de Letras Modernas da Unesp (Araraquara), pesquisa conto de fadas maravilhoso e é autora, entre outros, de Mito e Magia (2011)

PALAVRATRIX:

reinventando os caminhos do poetrix - Por JOSÉ DE CASTRO

Creio que a maioria das pessoas concordará com quem afirma que o brasileiro é criativo. Afinal de contas, ele consegue sobreviver num país de altos contrastes, com uma pirâmide social excludente, altas taxas de desemprego, salários degradados. Mas não é objetivo deste artigo tratar desse tema. Mas evidenciar que essa mesma criatividade demonstrada na lida da vida também se expressa muito bem na literatura quando, então, dá show de bola, aliás, de palavra. Como Machado de Assis, Osman Lins,  Euclides da Cunha, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e, mais modernamente, Bartolomeu Campos de Queirós, Mário Quintana e João Ubaldo Ribeiro,  dentre tantos e tantas. Temos o privilégio de ler obras como “Grande Sertão: veredas” de Guimarães Rosa, que nos leva a percorrer os caminhos das Gerais num caudal narrativo que abre trilhas para tantos outros que também vieram a ser criadores da boa literatura brasileira.   Na poesia, podemos citar Bandeira, Drummond, Quintana, Bilac, Castro Alves, Cecília Meireles, Vinicius de Morais, Ferreira Gullar. Sem nos esquecer da genialidade de um Leminski e dos versos pantaneiros do menino passarinho e árvore Manoel de Barros. E lembrar autores como Jorge Fernandes, José Bezerra Gomes, Auta de Souza, Zila Mamede, Luís Carlos Guimarães, dessas terras de Poti, entre outros.  Todos esses já se foram, mas deixaram um legado significativo que sempre nos encantará.
E assim o brasileiro prossegue criando. Tivemos a genialidade de um Millôr Fernandes que revolucionou o haicai com o seu humor irreverente, bem como o citado Leminski que fez muitas experimentações com os poemas minimalistas. Aqui no RN temos alguns poetas que praticam bem o haicai, como Lívio Oliveira (Pena mínima; ‘Cais natalenses – 101 haicais) e Jarbas Martins (44 haicais). Destaco o gosto deste último para a derivação do haicai batizada de “haicai guilhermino”, em coerência com um novo cânone  estabelecido pelo também sensível e criativo poeta paulista Guilherme de Almeida (1890 – 1969) dentro desse gênero oriental milenar.  Outro poeta que escreveu haicais (e até poetrix, veja em O fruto maduro) foi o já mencionado Luís Carlos Guimarães (1934 – 2011).
No ano de 1999 (há dezoito anos), na Bahia, o poeta Goulart Gomes publicou o livro  “Trix – poemetos tropi-kais”, a partir do qual teve a ideia e a iniciativa de criar o cânone, os princípios que regeriam esse tipo de terceto, batizado como “poetrix”. Pode-se dizer que ali nascia um novo gênero poético minimalista, uma alternativa ao haicai, ainda que outros poetas já o tivessem produzido de forma espontânea e intuitiva, sem atentar para o fato de que poderia ser caracterizado como um gênero específico, pois que, até ali, tal produção era despida dessa intencionalidade. A título de exemplo, observei a partir do livro “A arte poética de Diógenes da Cunha Lima”, organizado pelo escritor e pesquisador Thiago Gonzaga,  que esse poeta havia escrito dois tercetos, nos seus livros Instrumento Dúctil (1975) e Corpo breve (1980), que podem, a partir do cânone estabelecido por Goulart Gomes, ser considerados como poetrix. São, respectivamente, os poemas “Ouvindo a Nona” (Música/Sorriso/De Deus) e “Cama” (A cama pura/antecipação/da sepultura).
Vale destacar também que um ano depois da caracterização do gênero poetrix, ou seja, no ano 2000, em Mariana/MG, surgia o gênero “aldravia”, criado pelos poetas Gabriel Bicalho, Donadon-Leal e Andreia D. Leal. Uma modalidade que vem sendo abraçada por muitos poetas, com várias antologias já dedicadas a ela. Ambos, poetrix e aldravia, estão, portanto, inseridos no que se pode chamar de “poesia minimalista”.
Para o fulcro desse artigo, importa rememorar um pouco acerca do poetrix, caracterizado como um terceto, com título. O poema pode ter até, no máximo, 30 sílabas métricas.  Diferentemente do haicai, que trata de elementos da natureza, do tempo, das estações do ano, o poetrix admite qualquer tema, em qualquer tempo verbal. Permite metáforas e outras figuras de linguagem. Enfim, um gênero versátil que sai da camisa de força, tanto da temática quanto da estrutura silábica 5-7-5 do haicai.
Importa dizer também que existe um Movimento Internacional Poetrix – MIP, o que leva o gênero a contar com inúmeros criadores mundo afora. O poetrix teve desdobramentos, como o duplix (dois poetrix de autores diferentes, a dialogar e a se complementar), o triplix (três poetrix conjugados) e o multiplix (quando quatro autores diferentes se irmanam em versos complementares ou suplementares). Essas variações do poetrix são uma excelente forma de se produzir poesia colaborativa minimalista.
Acontece que um outro poeta, Pedro Cardoso DF (que pertence ao Grupo Poetrix), certo dia, ao ver a palavra “Sertãozinho” (nome de uma cidade do interior de SP), teve a ideia de quebrá-la em três outras palavras: “ser – tão – zinho” e atribuir-lhe um título que lhe daria um novo significado. Ficou assim:
POLÍTICO
ser
tão
zinho
(Pedro Cardoso)

Ou seja, o que era o nome de uma cidade, agora, nessa derivação do poetrix chamada de “palavratrix” por Pedro Cardoso, passa a criticar um tipo de “ser” que se jacta de ser “político” o que, infelizmente, em muitos casos o levam a ser “tão” insignificante, a ser um “zinho”, que não dignifica o nome que leva.
Outros exemplos de palavratrix do próprio Pedro Cardoso:
ANDARILHO
tatu
a
(Pedro Cardoso)

Todos nós sabemos que “Tatuapé” é o nome de um dos bairros da cidade de São Paulo. E o título empresta um novo significado ao andarilho, transformando-o num bicho, o tatu que anda a pé. Aliás, no geral, esse palavratrix faz uma analogia com uma cidade de milhares de carros, a poluir e a entravar o trânsito. Para se andar em São Paulo, só mesmo um andarilho que vira tatu e cava túneis, como os famosos metrôs. O palavratrix, portanto, pode levar o leitor a uma infinidade de interpretações, tudo a partir de apenas uma palavra quebrada e com um título que a direciona a outros campos semânticos.
Outro palavratrix, que considero criativo, é:
PINTANDO A VIDA
a
cor
dar
(Pedro Cardoso)

Numa variação desse mesmo verbo, na sua flexão “acordava”, Andra Valadares, poetrixta mineira elaborou o seguinte palavratrix:
DEUS NA CRIAÇÃO DO MUNDO
a
cor
dava
(Andra Valadares)

Vale ressaltar que o título de qualquer poetrix não entra na contagem de sílabas (reforço aqui: um poetrix pode ter ATÉ, no máximo, trinta sílabas métricas). Quanto ao título, pode ter qualquer extensão, diz o cânone.
A partir desses quatro exemplos, pode-se perceber a importância do título para ressignificar uma palavra repartida em três outras. O título é essencial, pois é ele que dá o “norte”, o novo rumo que a palavra seguirá, agora em três versos oriundos de sua quebra, a gerar um significado diferente, o que significa redimensionar o sentido original da palavra. Como se o poeta quisesse penetrar a entranha da palavra e submetê-la a um ato cirúrgico que a magnifica para além de si mesma, tripartida. Como se vislumbrasse dela a cabeça, o tronco e os membros que lhe atribuem uma nova forma de se movimentar no campo poético minimalista.  
Como não existem tantas palavras que podem ser quebradas em três outras, imagina-se que poderá haver repetições de palavras em diferentes palavratrix. Seria isso cópia, plágio? Essa mesma dúvida tinha a poeta e poetrixta Kathleen Lessa (criadora do blog Kaleidoscópio Literário, e que publicava também no Recanto das Letras), ela que já se foi para as estrelas no ano passado (2016). Então, a poeta quis tirar essa dúvida com o criador do gênero, Pedro Cardoso, que lhe respondeu, num e-mail datado de 20/10/2008, conforme consta no blog da poeta:
No palavratrix o que importa é o título... Com certeza teremos muitas e muitas palavras iguais, mas o sentido certamente bem diferente. Este é o meu encanto com o palavratrix.”
Confesso que já passei por esta experiência. Criei um palavratrix com a palavra “amortecedor”. Com essa mesma palavra a poeta Tânia Souza, de Campo Grande/MS, também fizera um palavratrix. Em épocas e geografias diferentes, um sem tomar conhecimento do outro. Só depois é que, ao receber o seu livro “De(s)amores e outras ternurinhas”, fiz essa constatação. Vejam os dois exemplos:
ÀS VEZES
amor
tece
dor
(José de Castro)

TRAIÇÃO
amor
tece
dor?
(Tânia Souza)

Como bem observou Pedro Cardoso, criador do gênero, a palavra é a mesma, usada em contexto caracterizado de forma diversa, com sentidos diferentes conferidos pelo título atribuído pelos respectivos autores.

Aconteceu um incidente parecido, de ideias que tiveram a raiz na mesma palavra, quando escrevi uma aldravia e um palavratix  com a palavra “amarela” e percebi que o poeta Marcelo de Cristo (ou decristo, como assina) tem um livro com o título “Tons de amar-ela”. Esse título pode ser considerado um  palavratrix se fizermos a sua diagramação assim:

TONS DE
a
mar
ela
(decristo)
 
A minha aldravia (que está no livro Quando chover estrelas) é assim:

tão
azul
como
pude
amar
ela?
(José de Castro)

Para o palavratrix usei a mesma ideia, mudando a cor. Veja:

TÃO VERDE, COMO PUDE
a
mar
ela?
(José de Castro)

Aqui no Rio Grande do Norte venho divulgando tanto o poetrix quanto suas variações, principalmente o palavratrix. Temos vários poetrixtas no estado,  como Fátima Mota, Clécia Santos, Paulo Caldas Neto,  Eliete Marry, Edilberto C. Santos, Nilda Pessoa, Vera Azevedo, Marcelo de Cristo (Tons de Amar-ela), Kiko Alves (Ancoradouros), Maria Maria Gomes (Algodão e Sal), entre os demais. Existem outros como Gilvânia Machado que organizou duas coletâneas de poetrix (Fagulhas Poéticas  e Fagulhas Poéticas - Volume II) além de ter publicado o seu livro solo neste gênero, o Rendas & Fendas. E também o criativo poeta Marcos Campos com o seu livro Um bêbado sonhador, que passeia com desenvoltura pelo gênero poetrix, dentre outras modalidades. Encontramos também esse gênero no trabalho da poeta Leocy Saraiva (um poetrix – Grave -  em homenagem a Leminski) no seu livro Versos Temporais. Há bons exemplos de poesia mínima (poetrix) num livro de Ruy Rocha (Poesia alguma) e também nos poemas criativos de Carito Cavalcanti (Atestado de órbita). Imagino que existam, aqui no RN, outros autores que escrevem poetrix, até mesmo sem o saber. Contudo,  este artigo, pelo seu fôlego curto, não tem a pretensão de esgotar o tema, mas de lançar algumas luzes sobre a poesia minimalista.
Gosto de citar o palavratrix, produzido por Paulo Caldas Neto, publicado na Coletânea de Poemas – UBE/RN, 2015.  Vejam:
PAIXÃO DO MESTRE DE OBRAS
ama
dure
cimento
(Paulo Caldas Neto).

Confesso-me um minimalista apaixonado. Tanto pelos haicais, pelas aldravias quanto pelos poetrix. E o palavratrix me desafia a cavar palavras que sirvam para expressar estranhamento, sarcasmo, crítica social e, noutros casos, provocar risadas. Vejam algumas das minhas criações, que sairão em breve num livro ainda em fase de organização.
DE 8 EM 8 ANOS, VOTA-
se
na
dor

EM TEU PESCOÇO, BEIJOS
de
co
lar

TAÇA DE TRAIÇÃO
gole
a
dor

SE “BEBES” PELO NARIZ
és
co-
bar

O AMOR ENTERROU COM
de
cimento

EM BELEZA TRISTE
a
dor
nado


REMAR CONTIGO  
a
mar
ia
(José de Castro)

Deixo aqui um desafio a você, leitor. Venha brincar de descobrir palavras que possam ser quebradas em três outras, que se constituirão nos versos do poema minimalista. Depois, escolha um título interessante que expresse a sua engenhosidade no trato com a ressignificação do vocábulo.  Observe bem o cânone aqui apresentado, pois não basta quebrar a palavra em três sílabas quaisquer. Cada sílaba (ou seja, cada verso), tem que se configurar como uma palavra existente, de vida própria, nem que seja apenas um conectivo ou uma letra isolada.

Então, que tal experimentar essa

FERRAMENTA POÉTICA
lavra
trix?

Está feito o convite. Caso o aceite, seja bem-vindo ao universo da poesia minimalista. Aquela que, segundo Ezra Pound, precisa ser capaz de expressar o máximo com um mínimo de palavras. Boa sorte nas suas criações.

*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Autor de livros infantojuvenis (A marreca de Rebeca; A cozinha da Maria Farinha; Poemares; Poemas Brincantes; Poetrix e Vaca amarela pulou a janela, dentre outros). Membro correspondente da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil – ALACIB/Mariana-MG. Participa da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN – SPVA/RN e da União Brasileira de Escritores – UBE/RN. Cônsul Poeta del Mundo de Parnamirim/RN. Patrono de uma biblioteca na Escola Municipal Jacira Medeiros (Parnamirim/RN). Autor dos livros “Apenas palavras” e “Quando chover estrelas”. Contato: josedecastro9@gmail.com

Notas:
1.       Haicai – gênero poético milenar oriental, terceto de 17 versos, na estrutura 5-7-5, dedicados à temática ligada à natureza. Poetas consagrados no gênero: Matsuo Bashô (1644 – 1694) e Kobayashi Issa (1763 – 1827);
2.       Haicai Guilhermino – criação do poeta Guilherme de Almeida (1890 – 1969), que estabeleceu o cânone que permite ao haicai ter título, uma rima do primeiro com o terceiro verso, além de uma rima interna no segundo verso (rima-se a segunda sílaba métrica com a sétima). O cânone manteve a temática específica ligada à natureza e também a estrutura métrica 5-7-5;
3.       Aldravia – gênero minimalista criado em Mariana/MG pelos poetas Gabriel Bicalho, Donadon-Leal e Andreia D. Leal. Um poema de estrofe única de seis versos. Cada verso deve ser univocabular;
4.       Poetrix – terceto com título, que pode ter até, no máximo, trinta sílabas métricas. O cânone estabelecido permite ampla liberdade de criação temática, bem como todo o tipo de experimentação com a palavra que pode navegar em qualquer tempo verbal, seja passado, presente ou futuro. Além disso, figuras de linguagem são permitidas, sendo que o título do poema pode ter a extensão que o autor decidir, sem interferir na contagem de sílabas métricas;
5.       Palavratrix – uma derivação do poetrix. Segue o cânone estabelecido, com a particularidade de ser fruto da quebra de uma palavra em três outras, com um título que lhe dá um nexo.

LEITURAS RECOMENDADAS:

ALVES, Kiko. Ancoradouros. Mossoró: Sarau das Letras, 2016. 

CAMPOS, Marcos Antonio. Um bêbado sonhador. Natal: Caravela Selo Cultural, 2016.

CASTRO, José de. Quando chover estrelas. Natal(RN): Jovens Escribas, 2015.

______________. Poetrix. BH(MG): Dimensão, 2013.

______________. (org.) Coletânea de Poemas – UBE/RN 2015. Natal(RN): UBE/RN. Offset Editora, 2015.

CAVALCANTI, Carito. Atestado de órbita. Natal(RN): Jovens Escribas, 2012.

DE CRISTO, Marcelo. Tons de amar-ela. Natal(RN): Jovens Escribas, 2016.

FABRE, Mardilê Friedrich. Entardecer com aldravias. São Leopoldo: Oikos, 2015.

GOMES, Goulart. Trix – poemetos tropi-kais. Salvador: Pórtico, 1999.

_____________.(org.) Antologia poetrix 3 – Comemorando 10 anos de criação do Poetrix. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2009.

_____________.(org.). 501 poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2011.

GOMES, Maria Maria; FRANCISCO, Antônio. Algodão e sal. Mossoró: Sarau das Letras, 2012.

GONZAGA, Thiago. (org.) A arte poética de Diógenes da Cunha Lima. Natal/RN: CJA Edições, 2015.

GUIMARÃES, Luís Carlos. O fruto maduro. Natal: Fundação José Augusto, 1996.

LEAL, Andreia Donadon; BICALHO, Gabriel; DONADON-LEAL, J.B. O livro das aldravias. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2011.

_____________. O livro II das Aldravias. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2013.

_____________. O livro III das Aldravias. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2015.

LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

MACHADO, Gilvânia. Rendas & Fendas. Praia Grande, SP: Editora Literata, 2014.

________________.(org.) Fagulhas Poéticas (antologia de poetrix). Praia Grande, SP: Editora Literata, 2011.
________________.(org.) Fagulhas Poéticas – Vol. II – Poetrix. Praia Grande, SP: Editora Literata, 2013.

MARTINS, Jarbas. 44 haicais. Natal(RN) : 8 Editora, 2014.

OLIVEIRA, Lívio. Pena mínima. Natal(RN): Sebo Vermelho, 2007.

___________. ‘Cais natalenses. 101 haicais de Livio Oliveira. Natal(RN): 8 Editora, 2014.

ROCHA, Ruy.  Poesia alguma. Natal(RN): Jovens Escribas, 2012.

SARAIVA, Leocy. Versos temporais. Natal(RN): CJA Edições, 2016.


SOUZA, Tânia. De(s)amores e outras ternurinhas. São José dos Pinhais, PR: Editora Estronho, 2016.