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ZILA MAMEDE


DA SÉRIE POESIA POTIGUARAs letras da paraibana mais norte-riograndense que por aqui passou.
BILHAR 
       a Ludi e Oswaldo Lamartine

Na medida exata
em que a noite corre
não fico: me ausento
como quem morre

Entre lousa e livro
- único disfarce
que concedo ao tempo =
mudo-me a face

que, no entanto, vária,
inábil, reprimida,
perde-se no encontro
tátil da vida

Bola sete em rude
pano de bilhar
marco meu sem rumo
jogo-de-amar.

  
PROCISSÃO  

Quando vem a procissão
no seu passo de perdão,

Alcaide, comendador
dominam povo e andor

Cada grupo de irmandade
empunhando uma verdade:

A das Filhas-de-Maria
virgindade em romaria

Do SSmo Sacramento
vermelha de emproamento

Do Senhor Jesus dos Passos
roxo em santos e devassos

Irmãs da Ordem Terceira
terço em mãos de camareiras

Os meninos da Cruzada
fome na barriga inchada

A Banda da Prefeitura
solo e soldo de amargura

Estandartes, confrarias
escondem velhacarias

O Santo vai carregado
pelos donos do mercado

E o povo segue inocente
descalço, nu, paciente:

- A compacta multidão
carente de Deus e pão.


 
A PONTE

Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
em chão
de pedra e de aço
onde não
permaneço
                   - passo.

MAMEDE, Zila.  O arado.  Poesia.  Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959;  37 p. 
13x18,5 cm. 


ARADO

Arado cultivadeira
rompe veios, morde chão
Ai uns olhos afiados
rasgando meu coração.

Arado dentes enxadas
Lavancando capoeiras
Mil prometimentos, juras
Faladas, reverdadeiras?

Arado ara picoteira
sega relha amanhamento,
me desata desse amor
ternura torturamento.



Contemporâneos - Conheça alguns Poetas da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte


ÓXIDO DE PRATA

Era vidro...
e o vidraceiro pintou,
ficou bonito,
virou espelho, e
repelia luzes coloridas,
transformando incidência
em reflexo,
sem reflexão prévia,
quando passava
no seu foco.
Era vidro pintado
transformava seres vivos,
seres reais,
em imagens virtuais
acendendo fogueiras,
na virtuosidade
da alto estima,
da uma virtuosa aparência.
Era um espelho
que olhava nos olhos,
tirando  as vestes,
mostrando um corpo,
Solitário, no foco!

Zé Martins

 •

MONÓLOGO DO DESESPERO

Em um imenso e árido vale de solidão
Um desesperado ser grita freneticamente
Porém nem o eco da sua melancólica agonia
Retorna para seus esperançosos tímpanos!

Assim passa todos os dias e noites
De sua perturbada e fugaz existência
Rogando a supostas divindades
Por algo que completaria o enorme vazio!

Estupidamente prossegue em seu ritual ilusório
Alimentando-se romanticamente de uma falsa esperança
De que tudo será como intensamente deseja
Já que pensa que o destino é algo bom e real!

Apegando-se a um falso bem, continua a viver
Retardando o triunfo do sofrimento sobre a esperança
E ignorando que não adiantará mais percebê-lo
Quando aproximar-se o momento da grande letargia!

Roberto Noir


METAPOEMA

O verso é pedra
Música, flecha.
É mel, é veneno.
Lança atirada,
Bala perdida.
É cura para enfermos,
Mas causa ferida.
Mal colocada
Destrói uma alma,
Bem colocada
Salva uma vida.
Mantendo-a presa
Por se, se destrói...
Posta em liberdade
Glorifica heróis.
O verso é o ouro
Que o poeta lapidou
Usando a palavra
Emoldando-a com amor.
A palavra aprisiona os fracos,
Liberta os fortes.
Para ser representada
Requer holofotes.
Acaba uma guerra
Como a faz começar.
Para os mortais
A palavra tem significado.
Para os poetas
A palavra tem sentidos,
Cor, som e voz...
Apalpa o coração dos homens.
Tem gosto de solidão e de alegria.
Quando sai do poeta em forma de versos,
Acalanta as almas vazias.

Sandemberg Oliveira



DE CÓCORAS


de cócoras ancoro no subsolo os sonhos enterrados pela cobiça e vaidades alheias
de cócoras desenho o sol no chão úmido de chuvas e lágrimas
de cócoras tento montar parte das asas que um dia foi voo
de cócoras acalanto o espelho quebrado

de cócoras rasgo ainda mais as mortalhas prontas de mosaicos traçados sem voltas
de cócoras tanjo as cinzas e ponho lenhas mesmo que úmidas fumaçando no desejo de um novo fogo
de cócoras volto a revelar os retratos em preto e branco cansado da multicolor idade
de cócoras novamente as vértebras estralam pedindo óleo ressecadas pela curvatura do tempo

de cócoras cavo as covas às bilocas dos meus netos que rastejam pedindo companhia aos seus jogos
de cócoras os passarinhos pousam e fazem ninhos achando telhados e paredes semimortas
de cócoras escorrego nos limos e lodos dos perímetros não medidos
de cócoras emerjo os poemas outrora submersos


Oreny Júnior


É LINDO, JULIÃO

- Tudo é lindo nessa festa!
O forró comendo solto
Relabucho, arrasta pé
Fole puxando fogo
Levantando a poeira
O cantor tá cá mulesta
E ali ele dizia:
- Tudo é lindo nessa festa!
A fogueira, o xote, o povo
A praça, a comida, a Maria
Tudo presta!
- Tudo é lindo nessa festa!
Avistou uma fulô
No meio do pé de serra
O coração já desimbesta
Um pedaço de morena!
Um cofrinho de amor!
- Venha cá minha fulô!
Arribou em seu jumento
Pra sombra do juazeiro
E num fogo abrasador
Fez ali sua seresta
Foi ali o casamento
- Tudo é lindo nessa festa!
Terminou agradecido
pela chave do cofrinho:
- Obrigado meu São Pedro!
  Agradeço com carinho
- Abençoe Santo Antônio
  Esse nosso matrimônio
  Nesse São João divino
- Esses "mês" é tudo lindo!
É lindo junhão, é lindo julião
É linda nossa festa de São João
Para um cantador poeta
Uma frase nunca cansa
Traz consigo uma lembrança
Uma frase que é certa
- Tudo Elino nessa festa!

Daniel Campos

  
CANTIGA DO TEMPO
     
Fui um menino
que brincava e bagunçava,
nesse tempo eu nem pensava
que o tempo era meu juiz.
Meu pai me disse:
─ Estude, trabalhe e cresça,
meu filho, mas não esqueça
de brincar de ser feliz.

Passou o tempo,
virei um adolescente,
danado de inteligente
e com preguiça de estudar.
Aí mãe disse:
─ Meu filho, aprenda comigo,
pra não sofrer o castigo
que o tempo vai lhe cobrar.

Eu fui crescendo,
virei um rapaz solteiro,
querendo ganhar dinheiro
só pensava em trabalhar.
Num certo dia,
já me sentindo cansado,
resolvi ter mais cuidado
pro tempo não me pegar.

Eu me casei
e dei um duro danado
pra deixar o meu legado
de bom pai e bom marido.
Eu dava duro
e acordava muito cedo,
nesse tempo eu tinha medo
de ter meu tempo perdido.

Lembrei do tempo
que corri atrás de bola
e brinquei lá na escola
que a vida me ofereceu.
Corri do tempo
como quem desce ladeira,
mas no final da carreira
o tempo chegou mais eu.

Não sei se tenho
muito tempo pela frente,
mas estou bem consciente
pra cantar e pedir bis.
E não esqueço
do meu pai  me aconselhar:
─ Não deixe o tempo chegar
Pra brincar de ser feliz!
     
José Acaci 


JAZZ X BLUES


Quero Dinah Washington cantando.
Escutar qualquer coisa com George Benson.
Quero a voz rouca de Louis Armstrong em meus ouvidos, como uma língua suave e quente.

Quero dormir com Ella Fitzgerald, todas as minhas solitárias noites.
Quero rolar na cama com Duke Elligton, sem o menor preconceito.
Que Ray Charles cante pra mim, antes de eu dormir. Quero Count Basie a qualquer hora do dia.
Quero John Lee Hooker nas minhas horas de folga.
E Charlie Parker nos intervalos.

Quero Little Richard sempre que possível.
Na banheira, quero o som de Elmore James.
E no quintal, quero Diana Krall.
Quero Billie Holiday na cozinha, preparando meu almoço.

Preciso me alimentar de música.

Uly Riber                       


UM DIA SEREI POETA


Um dia fui professor.
Qualquer dia serei poeta.
E, quanto mais poeta, mais aprendiz serei.
E sendo aprendiz, voltarei a ser professor.
Pois o professor,
quanto mais pensa que ensina,
mais se percebe ignorante de tudo.
E o poeta,
não sabendo de nada, desconfia de tudo.
Ignorância é coisa boa,
que nos faz ir em frente, duvidar e perguntar.
Poeta é ser das incertezas.
Quando o poeta não sabe a resposta, ousa inventar.
Tudo o que o poeta desconhece ele faz de conta. 
Alimenta-se de sonhos e mistério, o poeta.
Um dia não serei mais poeta.
Mas a poesia há de continuar sendo.
Porque poesia é tudo aquilo que tem a beleza de
permanecer.
Eu poeta, efêmero me confesso.
Risco o céu sem deixar traço.
O infinito é ave sem ninho.
Feito andorinha, passo.

José de Castro 

• 


MEU GRITO

Meu grito é dedicado aos mudos,
aos inválidos, aos imundos,
aos parcos, aos poucos,
aos que não sabem quem são.

Meu verso é dedicado aos que pastam,
aos que empestam os esgotos,
aos esgotados que seguem
sem saber para onde vão.

Meu canto é dedicado aos párias,
aos filhosdaputa paridos pelo desprezo,
aos filhos do pesadelo,
aos que vivem no medo,
aos que são não.

Meu canto fétido, pútrido,
supurando carmim,
é dedicado a mim.

João Andrade

  

SONETO DE AMOR E CORAÇÃO

 Meu pulsante coração se arde festa,
Quando cruza o seu sorriso de amor
Refletindo a alma de magia e sabor,
Tal qual luz e halo solar na floresta.

Lua e amor na noite acende a seresta,
Quando o meu coração ama a sua voz.
Da festa, a ousadia são claves de nós,
Na alegria do sol que não deixa aresta.

Somos a unção da vida, amor e beijo
no afã do alento que gera a paz pura.
Mas, que se agita na ação do desejo.

Se amo feliz você, flor do meu amar
Em nós descubro a poesia e a ternura
Unindo a mina lavra – luz, verso e ar.

 José Ivam Pinheiro



O PARTO

A mulher tem uma arma de forte convicção
Quando a danada usa golpeia o coração
O poder de fogo é alto não há quem resista não!
Vaqueiro dormindo fora com medo da castração
Ouvia de onde estava  os soluços da mulher
Que toda noite chorava, batia e fincava o pé
Dizendo que bago cozido toda gestante quer.

Quando o dia raiou na manhã de sexta-feira
Há muito que seu marido já estava no curral
Pensativo,  com um plano, infalível, sem igual.
Capou o novilho branco e gritou descomunal
Fingindo ter sido o seu extraído do local.
Entregou o sacrifício falando à mulher:
-Por você corro este risco, dou beijo em jacaré,
Me agarro com tacaca, guaxinim e Lampião.
Se Deus me deu dois,  um é seu, meu coração!

A mulher acreditou na farsa que foi montada,
Pois o vaqueiro esperto, todo dia de madrugada,
Antes de ir pro curral, assim ele se tratava:
Jogava cinzas na trouxa,  lavava  com  infusão
De cajueiro bravo e raspas de limão
Prometia ficar bom  pra próxima  vadiação.

E  agulha do tempo cozia o grande evento
Usava linha tão fina, de fibra resistente,
Feita do algodão mocó, que tem o suor da gente.
A mulher pressentia  que açude também seria
Fazendo jorrar a vida em momentos de agonia
Dando a luz à criança, motivo de alegria.
Parteira foi avisada e ficou de prontidão,
De apetrechos lavados esperava  a ocasião
Daquelas mãos tão benditas  colherem
Com mansidão mais uma alma pro sertão.

Naqueles dias finais do ciclo da gestação
Precavido o vaqueiro   foi  buscar  no Alazão
Sua mãe  tão bondosa que  cuidaria da nora
Nas dores de contração.
Ela seria então, ajudante da parteira,
Cozinheira e lavadeira no resguardo  que viria.
Família que é unida é igualzim mercearia
De tudo nela se tem, pra na hora da precisão
Tá ao alcance da mão, servindo de coração.

A criança resolveu que ao mundo viria
Naquele mês de dezembro, ninguém a empataria.
A  aparadeira  chegou,  foi precisa e pontual
Pediu ajuda aos santos e se deu o ritual:
Água fervia na panela de barro
Vaqueiro suava lá fora
A mulher sentia dores, reclamava toda hora
Prometeu pegar Vaqueiro, sementeiro  do amor.
Disse ser aquilo errado, no plano do Criador,
O cabra joga  semente e ela quem sente a dor?

Parteira trocava os panos naquela arrumação.
Mulher empurrava a cama e gritava: amolem o facão,
Pois se eu dessa eu escapar, Vaqueiro será capão!
Respirava agoniada, sentia as contrações.
Quebrou dois caibros do quarto, tamanha sua aflição.
Todo seu corpo era dor,  açude em transbordamento,
No meio das suas pernas  já havia sangramento.

Parteira deu-lhe garrafa  e disse: pode assoprar
Isso não é besteira, a dor vai aliviar.
Mulher agüenta dor,  é costela modelada
Pelas mãos do Maioral, é miolo de aroeira,
Tronco de carnaubeira, natureza sem igual.
Duas horas se passaram naquele clima infernal
Deitada em cama de couro, chorava  e esperneava.
No terreiro,  o Vaqueiro, também já se desmanchava
Pedindo  em sua fé, providência  imediata.
Caningou tudo que é santo pra dor dela então passar.

Parteira viu que deitada a criança não viria
Trouxe o tronco  de Ipê para mulher se sentar
Somente daquela forma  o parto ia acabar.
Mãe de imbigu orientou: - Neste tronco sua dor logo irá passar
 Sente-se  com o mucubu, nada de bunda ajeitar
Garanto que rapidinho a criança vai chegar.
Alfazema foi queimada, para o quarto incensar.
A catinga da placenta ela iria ocultar
Coroou para a vida a criança afinal.
E foi assim que nasceu,   a menina do Vaqueiro,
Beleza  regional,  moreninha,  bem gordinha
E o parto foi normal.


Mané Beradeiro 


FILHOS DO SERTÃO

Das coisas boas desta vida
Ainda trago na lembrança
Momentos de muita alegria
Dos tempos que era criança
Das brincadeiras inocentes
Que nos faziam contentes
Trazendo muita esperança.
                                                               Das paisagens do sertão
                                                               Temos muitas saudades
                                                               Do Pôr do Sol lá na serra
                                                               Trazendo boas novidades
                                                               Nestes tempos tão rudes
                                                               As pescarias nos açudes
                                                               Com as nossas amizades.
                                                                                                                              Parece estou vendo papai
                                                                                                                             De manhã indo pro roçado
                                                                                                                             Pra sustentar a sua família
                                                                                                                             Eita cabra mais esforçado,         
                                                                                                                             Prantava feijão, prantava mio,
                                                                                                                             E com a ajuda dos seus fio,
                                                                                                                             Sempre tinha bom resurtado.

Todo dia pela manhã
Vovó varria o terreiro
Jogava mio pras galinha
Que saiam dos puleiro
O cheiro de café no ar
E a mamãe a preparar
Um banquete verdadeiro.
                                                               Tinha cuscuz, queijo manteiga,
                                                               Coalhada, mel de rapadura,
                                                               Milho verde, batata assada,
                                                               Dava gosto de ver a fartura
                                                               Os ovos de galinha capoeira
                                                               Não se compravam na feira
                                                               Elas é que faziam a postura.
                                                                                                                             Era tudo assim tão bão
                                                                                                                             Dá até gosto relembrá
                                                                                                                             As festas de São João
                                                                                                                             Nossos famoso arraiá
                                                                                                                             Tinha cantô, sanfoneiro,
                                                                                                                             Trianguero e zabumbeiro,
                                                                                                                             Que vinha pra nos alegrá.
Pois somos Filhos do Sertão
Um povo valente e guerreiro
Que não nega a sua tradição
Tem sentimento verdadeiro
O nosso orgulho é genuíno
Adoramos ser Nordestinos
Nesse rico chão brasileiro.
              

                       Matias Verzutti