ÓXIDO DE PRATA
Era
vidro...
e
o vidraceiro pintou,
ficou
bonito,
virou
espelho, e
repelia
luzes coloridas,
transformando
incidência
em
reflexo,
sem
reflexão prévia,
quando
passava
no
seu foco.
Era
vidro pintado
transformava
seres vivos,
seres
reais,
em
imagens virtuais
acendendo
fogueiras,
na
virtuosidade
da
alto estima,
da
uma virtuosa aparência.
Era
um espelho
que
olhava nos olhos,
tirando as vestes,
mostrando
um corpo,
Solitário,
no foco!
Zé Martins
•
MONÓLOGO DO DESESPERO
Em
um imenso e árido vale de solidão
Um
desesperado ser grita freneticamente
Porém
nem o eco da sua melancólica agonia
Retorna
para seus esperançosos tímpanos!
Assim
passa todos os dias e noites
De
sua perturbada e fugaz existência
Rogando
a supostas divindades
Por
algo que completaria o enorme vazio!
Estupidamente
prossegue em seu ritual ilusório
Alimentando-se
romanticamente de uma falsa esperança
De
que tudo será como intensamente deseja
Já
que pensa que o destino é algo bom e real!
Apegando-se
a um falso bem, continua a viver
Retardando
o triunfo do sofrimento sobre a esperança
E
ignorando que não adiantará mais percebê-lo
Quando
aproximar-se o momento da grande letargia!
Roberto
Noir
•
METAPOEMA
O
verso é pedra
Música,
flecha.
É
mel, é veneno.
Lança
atirada,
Bala
perdida.
É
cura para enfermos,
Mas
causa ferida.
Mal
colocada
Destrói
uma alma,
Bem
colocada
Salva
uma vida.
Mantendo-a
presa
Por
se, se destrói...
Posta
em liberdade
Glorifica
heróis.
O
verso é o ouro
Que
o poeta lapidou
Usando
a palavra
Emoldando-a
com amor.
A
palavra aprisiona os fracos,
Liberta
os fortes.
Para
ser representada
Requer
holofotes.
Acaba
uma guerra
Como
a faz começar.
Para
os mortais
A
palavra tem significado.
Para
os poetas
A
palavra tem sentidos,
Cor,
som e voz...
Apalpa
o coração dos homens.
Tem
gosto de solidão e de alegria.
Quando
sai do poeta em forma de versos,
Acalanta
as almas vazias.
Sandemberg Oliveira
•
DE CÓCORAS
de
cócoras ancoro no subsolo os sonhos enterrados pela cobiça e vaidades alheias
de
cócoras desenho o sol no chão úmido de chuvas e lágrimas
de
cócoras tento montar parte das asas que um dia foi voo
de
cócoras acalanto o espelho quebrado
de
cócoras rasgo ainda mais as mortalhas prontas de mosaicos traçados sem voltas
de
cócoras tanjo as cinzas e ponho lenhas mesmo que úmidas fumaçando no desejo de
um novo fogo
de
cócoras volto a revelar os retratos em preto e branco cansado da multicolor idade
de
cócoras novamente as vértebras estralam pedindo óleo ressecadas pela curvatura
do tempo
de
cócoras cavo as covas às bilocas dos meus netos que rastejam pedindo companhia
aos seus jogos
de
cócoras os passarinhos pousam e fazem ninhos achando telhados e paredes
semimortas
de
cócoras escorrego nos limos e lodos dos perímetros não medidos
de
cócoras emerjo os poemas outrora submersos
Oreny
Júnior
•
É LINDO, JULIÃO
- Tudo é lindo nessa
festa!
O
forró comendo solto
Relabucho,
arrasta pé
Fole
puxando fogo
Levantando
a poeira
O
cantor tá cá mulesta
E
ali ele dizia:
- Tudo é lindo nessa
festa!
A
fogueira, o xote, o povo
A
praça, a comida, a Maria
Tudo
presta!
- Tudo é lindo nessa
festa!
Avistou
uma fulô
No
meio do pé de serra
O
coração já desimbesta
Um
pedaço de morena!
Um
cofrinho de amor!
- Venha cá minha
fulô!
Arribou
em seu jumento
Pra
sombra do juazeiro
E
num fogo abrasador
Fez
ali sua seresta
Foi
ali o casamento
- Tudo é lindo nessa
festa!
Terminou
agradecido
pela
chave do cofrinho:
-
Obrigado meu São Pedro!
Agradeço com carinho
- Abençoe Santo
Antônio
Esse nosso matrimônio
Nesse São João divino
- Esses
"mês" é tudo lindo!
É
lindo junhão, é lindo julião
É
linda nossa festa de São João
Para
um cantador poeta
Uma
frase nunca cansa
Traz
consigo uma lembrança
Uma
frase que é certa
- Tudo Elino nessa
festa!
Daniel Campos
•
CANTIGA DO TEMPO
Fui um menino
que brincava e bagunçava,
nesse tempo eu nem pensava
que o tempo era meu juiz.
Meu pai me disse:
─ Estude, trabalhe e cresça,
meu filho, mas não esqueça
de brincar de ser feliz.
Passou o tempo,
virei um adolescente,
danado de inteligente
e com preguiça de estudar.
Aí mãe disse:
─ Meu filho, aprenda comigo,
pra não sofrer o castigo
que o tempo vai lhe cobrar.
Eu fui crescendo,
virei um rapaz solteiro,
querendo ganhar dinheiro
só pensava em trabalhar.
Num certo dia,
já me sentindo cansado,
resolvi ter mais cuidado
pro tempo não me pegar.
Eu me casei
e dei um duro danado
pra deixar o meu legado
de bom pai e bom marido.
Eu dava duro
e acordava muito cedo,
nesse tempo eu tinha medo
de ter meu tempo perdido.
Lembrei do tempo
que corri atrás de bola
e brinquei lá na escola
que a vida me ofereceu.
Corri do tempo
como quem desce ladeira,
mas no final da carreira
o tempo chegou mais eu.
Não sei se tenho
muito tempo pela frente,
mas estou bem consciente
pra cantar e pedir bis.
E não esqueço
do meu pai me aconselhar:
─ Não deixe o tempo chegar
Pra brincar de ser feliz!
José Acaci
•
JAZZ X BLUES
Quero
Dinah Washington cantando.
Escutar
qualquer coisa com George Benson.
Quero
a voz rouca de Louis Armstrong em meus ouvidos, como uma língua suave e quente.
Quero
dormir com Ella Fitzgerald, todas as minhas solitárias noites.
Quero
rolar na cama com Duke Elligton, sem o menor preconceito.
Que
Ray Charles cante pra mim, antes de eu dormir. Quero Count Basie a qualquer
hora do dia.
Quero
John Lee Hooker nas minhas horas de folga.
E
Charlie Parker nos intervalos.
Quero
Little Richard sempre que possível.
Na
banheira, quero o som de Elmore James.
E
no quintal, quero Diana Krall.
Quero
Billie Holiday na cozinha, preparando meu almoço.
Preciso
me alimentar de música.
Uly Riber
•
UM DIA SEREI POETA
Um
dia fui professor.
Qualquer
dia serei poeta.
E,
quanto mais poeta, mais aprendiz serei.
E
sendo aprendiz, voltarei a ser professor.
Pois
o professor,
quanto
mais pensa que ensina,
mais
se percebe ignorante de tudo.
E
o poeta,
não
sabendo de nada, desconfia de tudo.
Ignorância
é coisa boa,
que
nos faz ir em frente, duvidar e perguntar.
Poeta
é ser das incertezas.
Quando
o poeta não sabe a resposta, ousa inventar.
Tudo
o que o poeta desconhece ele faz de conta.
Alimenta-se
de sonhos e mistério, o poeta.
Um
dia não serei mais poeta.
Mas
a poesia há de continuar sendo.
Porque
poesia é tudo aquilo que tem a beleza de
permanecer.
Eu
poeta, efêmero me confesso.
Risco
o céu sem deixar traço.
O
infinito é ave sem ninho.
Feito
andorinha, passo.
José de Castro
•
MEU GRITO
Meu
grito é dedicado aos mudos,
aos
inválidos, aos imundos,
aos
parcos, aos poucos,
aos
que não sabem quem são.
Meu
verso é dedicado aos que pastam,
aos
que empestam os esgotos,
aos
esgotados que seguem
sem
saber para onde vão.
Meu
canto é dedicado aos párias,
aos
filhosdaputa paridos pelo desprezo,
aos
filhos do pesadelo,
aos
que vivem no medo,
aos
que são não.
Meu
canto fétido, pútrido,
supurando
carmim,
é
dedicado a mim.
João Andrade
•
SONETO DE AMOR E CORAÇÃO
Meu pulsante
coração se arde festa,
Quando cruza o seu sorriso de amor
Refletindo a alma de magia e sabor,
Tal qual luz e halo solar na floresta.
Lua e amor na noite acende a seresta,
Quando o meu coração ama a sua voz.
Da festa, a ousadia são claves de nós,
Na alegria do sol que não deixa aresta.
Somos a unção da vida, amor e beijo
no afã do alento que gera a paz pura.
Mas, que se agita na ação do desejo.
Se amo feliz você, flor do meu amar
Em nós descubro a poesia e a ternura
Unindo a mina lavra – luz, verso e ar.
José Ivam Pinheiro
•
O PARTO
A mulher
tem uma arma de forte convicção
Quando a
danada usa golpeia o coração
O poder
de fogo é alto não há quem resista não!
Vaqueiro
dormindo fora com medo da castração
Ouvia de
onde estava os soluços da mulher
Que toda
noite chorava, batia e fincava o pé
Dizendo que
bago cozido toda gestante quer.
Quando o
dia raiou na manhã de sexta-feira
Há muito
que seu marido já estava no curral
Pensativo, com um plano, infalível, sem igual.
Capou o
novilho branco e gritou descomunal
Fingindo
ter sido o seu extraído do local.
Entregou
o sacrifício falando à mulher:
-Por você
corro este risco, dou beijo em jacaré,
Me agarro
com tacaca, guaxinim e Lampião.
Se Deus
me deu dois, um é seu, meu coração!
A mulher
acreditou na farsa que foi montada,
Pois o
vaqueiro esperto, todo dia de madrugada,
Antes de
ir pro curral, assim ele se tratava:
Jogava
cinzas na trouxa, lavava
com infusão
De
cajueiro bravo e raspas de limão
Prometia
ficar bom pra próxima vadiação.
E agulha do tempo cozia o grande evento
Usava
linha tão fina, de fibra resistente,
Feita do
algodão mocó, que tem o suor da gente.
A mulher
pressentia que açude também seria
Fazendo
jorrar a vida em momentos de agonia
Dando a
luz à criança, motivo de alegria.
Parteira
foi avisada e ficou de prontidão,
De
apetrechos lavados esperava a ocasião
Daquelas
mãos tão benditas colherem
Com
mansidão mais uma alma pro sertão.
Naqueles
dias finais do ciclo da gestação
Precavido
o vaqueiro foi buscar
no Alazão
Sua
mãe tão bondosa que cuidaria da nora
Nas dores
de contração.
Ela seria
então, ajudante da parteira,
Cozinheira
e lavadeira no resguardo que viria.
Família
que é unida é igualzim mercearia
De tudo
nela se tem, pra na hora da precisão
Tá ao
alcance da mão, servindo de coração.
A criança
resolveu que ao mundo viria
Naquele
mês de dezembro, ninguém a empataria.
A aparadeira
chegou, foi precisa e pontual
Pediu
ajuda aos santos e se deu o ritual:
Água
fervia na panela de barro
Vaqueiro
suava lá fora
A mulher
sentia dores, reclamava toda hora
Prometeu
pegar Vaqueiro, sementeiro do amor.
Disse ser
aquilo errado, no plano do Criador,
O cabra
joga semente e ela quem sente a dor?
Parteira
trocava os panos naquela arrumação.
Mulher
empurrava a cama e gritava: amolem o facão,
Pois se
eu dessa eu escapar, Vaqueiro será capão!
Respirava
agoniada, sentia as contrações.
Quebrou
dois caibros do quarto, tamanha sua aflição.
Todo seu
corpo era dor, açude em transbordamento,
No meio
das suas pernas já havia sangramento.
Parteira
deu-lhe garrafa e disse: pode assoprar
Isso não
é besteira, a dor vai aliviar.
Mulher
agüenta dor, é costela modelada
Pelas
mãos do Maioral, é miolo de aroeira,
Tronco de
carnaubeira, natureza sem igual.
Duas
horas se passaram naquele clima infernal
Deitada
em cama de couro, chorava e esperneava.
No
terreiro, o Vaqueiro, também já se
desmanchava
Pedindo em sua fé, providência imediata.
Caningou
tudo que é santo pra dor dela então passar.
Parteira
viu que deitada a criança não viria
Trouxe o
tronco de Ipê para mulher se sentar
Somente
daquela forma o parto ia acabar.
Mãe de
imbigu orientou: - Neste tronco sua dor logo irá passar
Sente-se
com o mucubu, nada de bunda ajeitar
Garanto
que rapidinho a criança vai chegar.
Alfazema
foi queimada, para o quarto incensar.
A catinga
da placenta ela iria ocultar
Coroou
para a vida a criança afinal.
E foi
assim que nasceu, a menina do Vaqueiro,
Beleza regional,
moreninha, bem gordinha
E o parto
foi normal.
•
Mané
Beradeiro
FILHOS DO SERTÃO
Das coisas boas desta vida
Ainda trago na lembrança
Momentos de muita alegria
Dos tempos que era criança
Das brincadeiras inocentes
Que nos faziam contentes
Trazendo muita esperança.
Das
paisagens do sertão
Temos
muitas saudades
Do
Pôr do Sol lá na serra
Trazendo
boas novidades
Nestes
tempos tão rudes
As
pescarias nos açudes
Com
as nossas amizades.
Parece
estou vendo papai
De
manhã indo pro roçado
Pra
sustentar a sua família
Eita
cabra mais esforçado,
Prantava
feijão, prantava mio,
E
com a ajuda dos seus fio,
Sempre
tinha bom resurtado.
Todo dia pela manhã
Vovó varria o terreiro
Jogava mio pras galinha
Que saiam dos puleiro
O cheiro de café no ar
E a mamãe a preparar
Um banquete verdadeiro.
Tinha
cuscuz, queijo manteiga,
Coalhada,
mel de rapadura,
Milho
verde, batata assada,
Dava
gosto de ver a fartura
Os
ovos de galinha capoeira
Não
se compravam na feira
Elas
é que faziam a postura.
Era
tudo assim tão bão
Dá
até gosto relembrá
As
festas de São João
Nossos
famoso arraiá
Tinha
cantô, sanfoneiro,
Trianguero
e zabumbeiro,
Que
vinha pra nos alegrá.
Pois somos Filhos do Sertão
Um povo valente e guerreiro
Que não nega a sua tradição
Tem sentimento verdadeiro
O nosso orgulho é genuíno
Adoramos ser Nordestinos
Nesse rico chão brasileiro.
Matias Verzutti