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HOMENAGEM A SANCHO PANÇA ►

Um texto da escritora TEREZA CUSTÓDIO

Quando manuseei, pela primeira vez, o livro O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha – clássico da literatura universal do autor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) – devo confessar que não estava com tanta disponibilidade para ler todas aquelas páginas pitorescas sobre o nobre e valente cavaleiro andante dos romances de cavalaria. Porém, aos poucos, fui me entusiasmando pelo fidalgo de porte alto e delgado que saía cavalgando em terras espanholas em seu cavalo Rocinante revestido de uma antiga armadura, um elmo, um escudo e uma lança em punho, dedicando suas aventuras e façanhas heroicas à amada Dulcinéia de Toboso. Como não se encantar por esse homem fantasioso e idealista que lutou contra a opressão com bravura e coragem em prol da justiça e da integridade do ser humano? Sem sombra de dúvida, Dom Quixote de La Mancha é um personagem loucamente apaixonante. Contudo, sem a pretensão de tirar um milésimo do mérito da grandeza do honrado e notável herói, longe de mim, simples mortal, insinuar tal disparate, tal despautério; deixo-o intocável com todas suas honras, suas glórias e seus feitos que o imortalizaram nesses quatro séculos. Mas, apaixonei-me pelo outro. Por Sancho Pança – o fiel escudeiro de Dom Quixote. Apaixonei-me por aquele homem de singular sabedoria que ajuda seu amo em suas empreitadas tresloucadas a deslumbrar o mundo de uma forma mais realista e o faz repleto do sentimento de compaixão pelo Cavaleiro da Triste Figura. Apaixonei-me por aquele gorducho baixinho, prosaico e ingênuo que deixa o posto de governador de uma ilha e, montado numa mula capenga, volta a seguir, fielmente, seu velho amo de cinquenta anos pela região seca de Castilla, consolidados em laços afetivos indissolúveis. Apaixonei-me por aquela figura solidária e generosa que providencia o alimento, cuida dos ferimentos com unguentos e alentos, zelando pelo bem-estar físico e emocional do velho Dom Quixote de La Mancha.
Quero, portanto, homenagear e enaltecer Sancho Pança e todos os que fazem do ato de cuidar um verdadeiro ato de amor. Que aprendamos com Sancho Pança a ser benevolente e tolerante com nossos irmãos.
Tereza Custódio
Romancista, cordelista e trovadora.
Dezembro, 2018

Uma crônica de Fernando Sabino


Deixa o Alfredo falar! 
A ARTE brasileira da conversa não é de fácil aprendizado. Como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação. E essa vocação se aprimora ao longo do caminho que vai da inocência à experiência. Como em toda arte.
Para princípio de conversa, distinga-se: quando falo em conversa, não estou me referindo à lábia, à astúcia, à solércia do brasileiro no passar a bicaria e vender o seu peixe. Falo precisamente no bate-papo, erigido numa das mais requintadas instituições nacionais.
Mas por que arte brasileira? Os outros povos acaso não batem papo? A própria expressão, brasileiríssima, corresponde em inglês exatamente ao verbo “to chat”, na acepção que lhe dá o dicionário: “to converse in an easy or gossipy manner; talk familiarly.” Até os ingleses, meu Deus, os ingleses têm também o seu papo: um deles, na mesa do bar, olha para fora e diz que vai chover; meia hora depois outro diz que não vai chover; meia hora depois o terceiro se retira dizendo que não gosta de discussão. A falta de graça desta velha anedota não está em ser velha, mas na finalidade útil que fez michar o papo. Este não deve ter finalidade alguma, senão a de matar o tempo da melhor maneira possível. É coisa de latino em geral e de brasileiro em particular: fazer da conversa não um meio, mas um fim em si mesmo. Se não me engano, essa é a distância que separa a ciência da arte.
No papo bem batido, a discussão não passa de uma motivação, sem intuito de convencer ninguém, nem de provar que se tem razão. Os que nela se envolvem devem estar sempre prontos a reconhecer, no íntimo, que poderiam muito bem passar a defender o ponto-de-vista oposto, desde que os que o defendem fizessem o mesmo. Os temas devem ser de uma apaixonante gratuidade, a ponto de permitir que, no desenrolar da conversa, de súbito ninguém mais saiba o que se está discutindo. Mesmo nas eternas discussões sobre mulher, religião ou futebol, para que se constituam em bate-papo, longas digressões hão de ser admitidas, desde que pertinentes.
Esta última observação, aliás, é pertinente ela própria, já que falei em futebol, quando se trata de papo acalorado como o que batiam aqueles dois amigos, parados numa esquina, violando o silêncio da rua adormecida:
— Se o último jogo do Campeonato fosse do Botafogo contra o Fluminense…
— Ora, Alfredo, pra cima de mim! Ia ser de goleada.
— Você não me deixou terminar, Dagoberto. Eu queria dizer que o Botafogo…
— Que Botafogo que nada! Com o Vasco diziam a mesma coisa…
— Dagoberto, você não me deixa falar!
— … e no entanto ele acabou entrando bem. Essa não, Alfredo.
— Não estou falando no Vasco. Eu disse que o Botafogo…
— E no ano passado, que foi que o Botafogo fez? Me diga só o que ele fez.
— Você não me deixa falar, Dagoberto.
— Desde o princípio todo mundo sabia que o Fluminense…
— Você não me deixa falar!
A essa altura abriu-se uma janela no edifício da esquina e surgiu um indivíduo estremunhado:
— Ô Dagoberto! Deixa o Alfredo falar!
A boa conversa implica sempre em deixar o Alfredo falar. Além disso a discussão, ainda que gratuita, pode exaurir o papo diante de uma impossível opção, como a de saber qual é o melhor, Tolstoi ou Dostoievski, Corcel ou Opala, Caetano ou Chico. A menos que ocorra ao discutidor o recurso daquele outro, hábil em conduzir o papo, que teve de se calar quando, no melhor de sua argumentação sobre energia atômica, soube que estava discutindo com um professor de física nuclear:
— Você é presidencialista ou parlamentarista? — perguntou então.
— Presidencialista.
— Pois eu sou parlamentarista.
E recomeçaram a discutir.
Mais ardente praticante do que estes, só mesmo o que um dia se intrometeu na nossa roda, interrompendo animadíssima conversa:
— Posso dar minha opinião?
Todos se calaram para ouvi-lo. E ele, muito sério:
— Qual é o assunto?
Mas percebo que me perdi em discussões, polêmicas, argumentos e desaguisados, afastando-me do verdadeiro espírito que deve presidir o culto dessa arte. De preferência, que ela seja praticada apenas a dois — como diz o mineiro, mais de dois é comício. E entre estes dois, bom será que reine amável concordância, para que, alternada-mente ouvindo e falando, possam ambos conjugar o delicioso verbo discretear.
De minha parte, possa eu encerrar a conversa rendendo minha homenagem a um amigo: àquele que, no consenso geral dos que com ele privam, veio dar a esta arte o melhor do seu talento criador.
Ao longo de minha vida tive a ventura de conviver com excelentes papos, de Jayme Ovalle a Sérgio Porto, de Milton Campos a Mário de Andrade, para só falar nos mortos mais queridos. Não sendo privilégio de gente ilustre, tenho encontrado grandes praticantes entre marceneiros, pescadores, garçons e choferes de táxi.
Mas nenhum como este, cuja despedida à porta de sua casa se prolonga de meianoite às quatro, deixando-nos a impressão de haver decorrido apenas meia hora; capaz de reter-nos a noite inteira num café em pé, conversando sobre o que seja, do último boato político à imortalidade da alma. Jânio Quadros, quando Presidente, chegou a mandar chamá-lo a Brasília — queria-o como seu assessor:
— Soube que você gosta de bater papo. Venha fazê-lo aqui.
— Fá-lo-ia, Presidente — que língua, a nossa! — se tivesse competência. Mas não passo de um especialista em idéias gerais.
— Eu também! — exclamou o Presidente, batendo no peito. Depois, olhos brilhantes, apontou um mapa na parede: — E este Brasil inteiro entregue a nós dois! Já pensou?
Tinha razão, o Presidente. E tê-lo-ia (!) levado na conversa, se as intenções presidenciais fossem apenas as de conversar. Porque se trata do rei da conversa, o Pelé do bate-papo, reconhecidamente o mais primoroso cultor desta arte sutil. Já tive mesmo a cautela, apontando-o desde já à posteridade, de compor para ele um epitáfio:
“Aqui jaz Otto Lara Resende,
Mineiro vivo, mancebo guapo.
Deixa saudades, isso se entende:
Passou cem anos batendo papo.”


Os dois bonitos e os dois feios ► Rachel de Queiroz


Nunca se sabe direito a razão de um amor. Contudo, a mais frequente é a beleza. Quero dizer, o costume é os feios amarem os belos e os belos se deixarem amar. Mas acontece que às vezes o bonito ama o bonito e o feio o feio, e tudo parece estar certo e segundo a vontade de Deus, mas é um engano. Pois o que se faz num caso é apurar a feiúra e no outro apurar a boniteza, o que não está certo, porque Deus Nosso Senhor não gosta de exageros; se Ele fez tanta variedade de homens e mulheres neste mundo é justamente para haver mistura e dosagem e não se abusar demais em sentido nenhum. Por isso também é pecado apurar muito a raça, branco só querendo branco e gente de cor só querendo os da sua igualha — pois para que Deus os teria feito tão diferentes, se não fora para possibilitar as infinitas variedades das suas combinações?

O caso que vou contar é um exemplo: trata de dois feios e dois bonitos que se amavam cada um com o seu igual. E, se os dois bonitos se estimavam, os feios se amavam muito, quero dizer, o feio adorava a feira, como se ela é que fosse a linda. A feia, embalada com tanto amor, ficava numa ilusão de beleza e quase bela se sentia, porque na verdade a única coisa que nos torna bonitos aos nossos olhos é nos espelharmos nos olhos de quem nos ame.

Vocês já viram um vaqueiro encourado? É um traje extraordinariamente romântico e que, no corpo de um homem e delgado, faz milagres. É a espécie de réplica em couro de uma armadura de cavaleiro.

Dos pés à cabeça protege quem a veste, desde as chinelas de rosto fechado, e as perneiras muito justas ao relevo das pernas e das coxas, o guarda-peito colado ao torso, o gibão amplo que mais acentua a esbelteza do homem e por fim o chapéu que é quase a cópia exata do elmo de Mambrino. Aliás, falei que só assenta roupa de couro em homem magro e disse uma redundância, porque nunca vi vaqueiro gordo. Seria mesmo que um toureiro gordo, o que é impossível. Se o homem não for leve e enxuto de carnes, nunca poderá cortar caatinga atrás de boi, nem haverá cavalo daqui que o carregue.

Os dois heróis da minha história, tanto o feio como o bonito, eram vaqueiros do seu ofício. E as duas moças que eles amavam eram primas uma da outra — e apesar da diferença no grau de beleza, pareciam-se. Sendo que uma não digo que fosse a caricatura da outra, mas era, pelo menos, a sua edição mais grosseira. O rosto de índia, os olhos amendoados, a cor de azeitona rosada da bonita, repetidos na feia, lhe davam uma cara fugidia de bugra; tudo que na primeira era graça arisca na segunda se tornava feiúra sonsa.

De repente, não se sabe como, houve uma alteração. O bonito, inexplicavelmente, mudou. Deixou de procurar a sua bonita. Deu para rondar a casa da outra, a princípio fingindo um recado, depois nem mais esse cuidado ele tinha. Sabe-se lá o que vira. No fundo, talvez obedecesse àquela abençoada tendência que leva os homens bonitos em procura das suas contrárias; benza-os Deus por isso, senão o que seria de nós, as feiosas? Ou talvez fosse porque a bonita, conhecendo que o era, não fizesse força por sustentar o amor de ninguém. Enquanto a pobre da feia  todos sabem como é — aquele costume do agrado e, com o uso da simpatia, descontar a ingratidão da natureza. E embora o seu feio fosse amante dedicado, quanto não invejaria a feia a beleza do outro, que a sua prima recebia como coisa tão natural, como o dia ser dia e a noite ser noite. Já a feia queria fazer o dia escuro e a noite clara — e o engraçado é que o conseguiu. Muito pode quem se esforça.

O feio logo sentiu a mudança e entendeu tudo. Passou a vigiar os dois. Se esta história fosse inventada poderia dizer que ele, se vendo traído, virou-se para a bonita e tudo se consertou. Mas na vida mesmo as pessoas não gostam de colaborar com a sorte. Fazem tudo para dificultar a solução dos problemas, que, às vezes, está na cara e elas não querem enxergar. Assim sendo, o feio ficou danado da vida, e nem se lembrou de procurar consolo junto da bonita desprezada; e esta, se sentindo de lado, interessou-se por um rapaz bodegueiro que não era bonito como o vaqueiro enganoso, mas tinha muito de seu e podia casar sem demora e sem condições.

Assim, ficaram em jogo só os três. O feio cada dia mais desesperado. A feia, essa andava nas nuvens, e toda vez que o "primo" (pois se tratavam de primos) lhe botava aqueles olhos verdes — eu falei que além de tudo ele ainda tinha os olhos verdes? — ela pensava que ia entrar de chão adentro, de tanta felicidade.

Mas o pior é que os dois vaqueiros ainda saíam todo o dia juntos para o campo, pois eram campeiros da mesma fazenda e se haviam habituado a trabalhar de parelha, como Cosme e Damião. Seria impossível se separarem sem que um dos dois partisse para longe, e, é claro, nenhum deles pretendia deixar o lugar vago ao outro.

Assim estava a intriga armada, quando a feia, certa noite, ao conversar na janela com o seu bonito que lá viera furtivo, colheu um cravo desabrochadono craveiro plantado numa panela de barro e posto numa forquilha bem encostada à janela (era uma das partes dela, ter todos esses dengues de mulher bonita) e enquanto o moço cheirava o cravo, ela entrefechou os olhos e lhe disse baixinho:

— Você sabe que o outro já lhe jurou de morte?
(Vejo que esta história está ficando muito comprida — só deixando o resto para a semana que vem.)



Falei que o desprezado jurara de matar o traidor. Seria verdade? Quem sabe as coisas que é capaz de inventar uma mulher feia improvisada em bonita pelo amor de dois homens, querendo que o seu amor renda os juros mais altos de paixão?

O belo moço assustou. Gente bonita está habituada a receber da vida tudo a bem dizer de graça, sem luta nem inimizade, como seu direito natural, que os demais devem graciosamente reconhecer. As mulheres o queriam, os homens lhe abriam caminho. E não é só em coisas de amor: de pequenino, o menino bonito se habitua a encontrar facilidades, basta fazer um beiço de choro ou baixar um olho penoso, todo o mundo se comove, pede uni beijo, dá o que ele quer. Já o feio chora sem graça, a gente acha que é manha, mais fácil dar-lhe uns cascudos do que lhe fazer o gosto. Assim é o mundo, e se está errado, quem o fez foi outro que não nos dá satisfações.

Pois o bonito assustou. Deu para olhar o outro de revés, ele que antes vivia tão confiado, como se adiasse que a obrigação do coitado era lhe ceder a menina e ainda tirar o chapéu. Passou a ver mal em tudo. De manhã, ao montar a cavalo, examinava a cilha e os loros, os quatro cascos do animal. Ele, que só usava um canivete quando ia assinar criação, comprou ostensivamente uma faca, afiou-a na beira do açude, e só a tirava do cós para dormir. E quando saía a campo com o companheiro, em vez de irem os dois lado a lado, segundo o costume, marchava atrás, dez braças aquém do cavalo do outro.

O feio não falava nada. Fazia que não enxergava as novidades do colega. Como sempre andara armado, não careceu comprar faca para fazer par com a peixeira nova do rival. E, sendo do seu natural taciturno, continuou calado e fechado consigo.

E o outro — nós mulheres estamos habituadas a pensar que todo homem valente é bonito, mas a recíproca raramente é verdade, e nem todo bonito é valente. Este nosso era medroso. Era medroso mas amava, o que o punha numa situação penosa. Não amasse, ia embora, o mundo é grande, os caminhos correm para lá e para cá. Agora, porém, só lhe restava amar e ter medo. Ou defender-se. Mas como? O rival não fazia nada, ficava só naquela ameaça silenciosa; as juras de morte que fizera — se as fizera — de juras não tinham passado ainda. Meu Deus, e ele não era homem de briga, já não disse? Tinha a certeza de que se provocasse aquele alma fechada, morria.

Bem, as juras eram verdadeiras. O feio jurara de morte o bonito e não só de boca para fora, na presença da amada, mas nas noites de insônia, no escuro do quarto, sozinho no ódio do seu coração. Levava horas pensando em como o mataria — picado de faca, furado de tiro, moído de cacete. Só conseguia dormir quando já estava com o cadáver defronte dos olhos, bonito e branco, ah, bonito não, pois, quando o matava em sonhos, a primeira coisa que fazia era estragar aquela cara de calunga de loiça, pondo-a de tal modo feia que até os bichos da cova tivessem nojo dela. Mas como fazer? Não poderia começar a brigar, matá-lo, sem quê nem mais. Hoje em dia justiça piorou muito, não há patrão que proteja cabra que faz uma morte, nem a fuga é fácil, com tanto telégrafo, avião, automóvel. E de que servia matar, tendo depois que penar na prisão? Assim, quem acabaria pagando o malfeito haveria de ser ele mesmo. O outro talvez fosse para o purgatório, morrendo sem confissão, mas era ele que ficava no inferno, na cadeia. Aí então teve a idéia de uma armadilha. Botar uma espingarda com um cordão no gatilho... quando ele fosse abrindo a porta. Não dava certo, todo o mundo descobriria o autor da espera. Atacá-lo no mato e contar que fora uma onça... Qual, cadê onça que atacasse vaqueiro em pleno dia? E a chifrada de um touro? Difícil, porque teria que apresentar o touro, na hora e no lugar... Lembrou-se então de um caso acontecido muitos anos atrás, quase no pátio da fazenda. O velho Miranda corria atrás de uma novilha, a bicha se meteu por sob um galho baixo de mulungu, o cavalo acompanhou a novilha, e em cima do cavalo ia o vaqueiro: o pau o apanhou bem no meio
da testa, lá nele, e quando o cavalo saiu da sombra do mulungu, o velho já era morto... Poderia preparar uma armadilha semelhante? Como induzir o rival?... Levou quatro dias de pesquisa disfarçada para descobrir um pau a jeito. Afinal achou um cumaru à beira de uma vereda, onde o gado passava para ir beber na lagoa. O cumaru estirava horizontalmente um braço a dois metros do chão, cobrindo a vereda logo depois que ela dava uma curva. A qualquer hora passariam de novo os dois por ali. E como só um passava pela vereda estreita, bastaria ele ficar atrás, apertar de repente o passo, meter o chicote no cavalo da frente; o outro, assustado com o disparo do cavalo, se descuidava do pau — e era um homem morto.


Mas não deu certo. Isto é, deu certo do começo ao fim — só faltou o fim do fim. Pois logo no dia seguinte se encaminharam pela vereda, perseguindo um novilhote. O bonito na frente, o feio atrás, como previsto. Quando chegaram à curva que virava em procura do cumaru, o de trás ergueu o relho, bateu uma tacada terrível na garupa do cavalo da frente, que já era espantado do seu natural, e o animal desembestou. Mas o instinto do vaqueiro salvou-o no último instante. Sentiu um aviso, ergueu os olhos, viu o pau, deitou-se em cima da sela e deixou o cumaru para trás. Logo adiante acabava a caatinga e começava o aceiro da lagoa. O bonito sofreou afinal o cavalo. Podia ser medroso, mas não era burro, e uma raiva tão grande tomou conta dele, que até lhe destruiu o medo no coração. Sem dizer palavra, tirou a corda do laço debaixo da capa da sela, e ficou a girar na mão o relho torcido, como se quisesse laçar o novilho que também parará várias braças além, e ficara a enfrentá-los de longe. O companheiro espantou-se: será que aquele idiota esperava laçar o boi, a tal distância? Claro que não entendera como andara perto da morte... Mas o laço, riscando o ar, cortou-lhe o pensamento: em vez de se dirigir à cabeça do novilho, vinha na sua direção, cobriu-o, apertou-se em redor dele, prendeu-lhe os braços ao corpo e, se retesando num arranco, atirou-o de cavalo abaixo. Num instante o outro já estava por cima dele, com um riso de fera na cara bonita.

— Pensou que me matava, seu cachorro... Açoitou o cavalo de propósito, crente que eu rebentava a cabeça no pau... Um ele nós dois linha de morrer, não era? Pois á assim mesmo... um de nós dois vai morrer. Enquanto falava, arquejando do esforço e da raiva, ia inquirindo na corda o homem aturdido da queda, fazendo dele um novelo de relho. Dai saiu para o mato, demorou-se um instante perdido entre as aves e voltou com o que queria — um galho de imburana da grossura do braço de um homem. Duas vezes malhou com o pau na testa do inimigo. Esperou um pouco para ver se o matara. E como lhe pareceu que o homem ainda tinha um resto de sopro, novamente bateu, sempre no mesmo lugar.

Chegou à fazenda, com o companheiro morto à sela do seu próprio cavalo, ele à garupa, segurando-o com o braço direito, abraçado como um irmão; com a mão esquerda puxava o cavalo sem cavaleiro.

Ninguém duvidou do acidente. Foi gente ao local, examinaram o galho assassino, estirado sobre a vereda como um pau de forca. Fincaram uma cruz no lugar.

E o bonito e a feia acabaram casando, pois o amor deles era sincero. Foram felizes. Ela nunca entendeu o que houvera, e remorso ele nunca teve, pois, como disse ap padre em confissão, matou para não morrer.

E a moral da história? A moral pode ser o velho ditado: faz o feio para o bonito comer. Ou então compõe-se um ditado novo: entre o feio e o bonito, agarre-se ao bonito. Deus traz os bonitos de baixo da Sua Mão.

O texto acima foi publicado no livro “Um alpendre, uma rede, um açude”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, e extraída de "As cem melhores crônicas brasileiras", Ed. Objetiva - Rio de Janeiro, 2007, pág. 120. Organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos.

Com ele homenageamos a querida escritora 
Rachel de Queiroz, pelos 100 anos de seu nascimento.

Rachel de Queirozsua vida e sua obra estão em "Biografias".


Enquanto Espero Gabriel • Zulmar Lopes


São onze horas e ao sabor da corrida do tempo os carros silenciam noite afora. Os ouvidos já captam o tique-taque uniforme e monótono do relógio na parede da cozinha. É impressionante como os mecanismos dos relógios se tornam tão presentes, batucando em nossas cabeças quando estamos aflitas. Aflição: teu nome é Gabriel. Por onde andará aquele maldito que não volta para casa? Ora, Yolanda, na safadeza, onde mais? Você já está careca de saber que Gabriel é um ser da rua, com caráter forjado na bandalheira, nas noites furtivas de prazeres. Quem mandou abrigar-lhe em sua própria casa? Lembra-se que logo na primeira semana ele botou as manguinhas de fora e sumiu por quase dois dias? Que idiota eu fui, meu Deus! Vontade de me esbofetear por minha cretinice! Deveria ter ouvido mamãe, mas qual? Foi amor à primeira vista, mãe...
O tempo avança relógio adentro e nada do Gabriel. Meu coração descompassa em angústias. Cidade perigosa a que vivemos, sobretudo à noite. Aboleto-me na janela mirando o ponto da rua de onde ele costuma aparecer. Já perdi a conta das vezes em que o peguei subindo a ladeira com o seu gingado despreocupado, livre de culpas, tendo apenas como testemunha as bruxuleantes luzes da iluminação pública e a minha vigilância indignada. Ele passa por mim como uma nada houvesse ocorrido e se aloja em sua poltrona predileta. A seguir me encara com seus olhos dardejantes e parece sorrir por debaixo daquele bigode. Brigo, xingo, esperneio e ele ali, impassível na poltrona feito um rei em seu trono. Quisera eu que o cínico, o desalmado, estivesse agora a repetir este roteiro e eu pudesse dormir com ele aqui, na segurança de nosso lar.
Abandono a janela e sento em sua poltrona favorita. Quantas vezes nos divertimos aqui, juntos. Gabriel adora minhas carícias, sobretudo em suas costas. É capaz de ficar minutos, impassível, se deixando dominar por minhas mãos em seu dorso esquálido. Quase consigo contar suas vértebras quando desses contatos. Preocupo-me com a sua magreza mas Gabriel faz sempre cara de nem estou aí. Biqueiro, vive de beliscar. Refeições de verdade? Ele foge delas. Acaba anoréxico, o coitado.
Coitado nada, Yolanda. Coitada é você, se consumindo a cada noite que ele resolve desaparecer em busca de diversão. Olhe só o seu estado, mulher. Tenha dignidade. Encare o espelho e veja você mesma: ainda és jovem, atraente. Um pouco maltratada, desleixada até, mas ainda conservando certos atributos. Doutor Orlando bem que vem me olhando de um modo esquisito ultimamente. Cara de tô querendo. Amanhã é o Dia da Secretária. Se ele me convidar para almoçar, aceito sem pestanejar. Quem sabe depois um motelzinho? Gabriel que se dane!
Mais de meia-noite. Será que algo de ruim aconteceu a Gabriel? Será que o pobre está morto, esquecido em algum canto? É um mundo doente, meu Deus! Doente e mau. Se eu não me controlar até a alvorada serão dois cadáveres necessitando de exéquias: eu e Gabriel. Deixo sua poltrona a caça de um cigarro. Não! Fumar só vai me deixar mais apreensiva. Gabriel não gosta de cigarro, sempre procura outro cômodo do apartamento quando eu estou fumando. Eu respeito sua atitude. Cada um na sua, desde que ele aceite os meus pequenos vícios, insignificantes manias. Rolo o cigarro entre os dedos e desisto de acendê-lo. Um comprimido até que me faria bem. Apagaria feito uma pedra mas amanhã eu acabo perdendo a hora e se chegar atrasada talvez o Doutor Orlando se aborreça e desista do nosso jantarzinho. Você deve estar pirando, Yolanda! Que jantar? Isso só existe na sua imaginação. Droga, Gabriel! Por que tu não apareces e acaba de uma vez com este tormento a corroer minha alma, desafiando minha sanidade?
Uma consulta a geladeira e volto com uma taça de sorvete. Gabriel adora sorvete. Se lambuza todo. Enquanto me afugento em duas porções de napolitano, pego o jornal já envelhecido pela velocidade dos fatos e procuro esquecer o desgraçado buscando concentrar-me na leitura. Mas qual? O ínfimo barulho que a rua varre para dentro de casa me sobressalta na esperança de que está de volta. Melhor dormir. O cansaço me vencerá e amanhã será um lindo da mais louca alegria que se possa imaginar. Guilherme Arantes, por onde andará Gabriel?
Gabriel, nome de anjo, encarnação do demônio materializado em vadiação. Vagabundo! Imprestável! Traste! Controle-se, mulher! Amanhã, que já é hoje, é o dia da secretária. Doutor Orlando, motelzinho, lembra?
Venço a teimosia e vou para a cama. Deitada, agora são os números luminosos do relógio digital que me impedem de esquecer a ausência de Gabriel. Não consigo cerrar os olhos e fico espionando a mudança dos minutos no mostrador que brilha rubro dentro da madrugada. 1:38, 1:39, 1:40, 1:41! Ele só pode ter morrido! Certamente atropelado! Sempre foi descuidado, o Gabriel! E se eu nunca mais tiver notícias dele? Deus meu! Não vou aguentar este tormento!
Salto bruscamente do leito e desligo o relógio na tomada, crendo que desconhecendo o avançar das horas a tranquilidade chegue e o sono me surpreenda. Ondas de frio varrem meu corpo e mal me cubro começo a sentir um calor pegajoso a ponto de ensopar em suores a camisola.  Gasto bom tempo neste jogo de trocas térmicas abruptas. São os nervos a brincar comigo. Pela primeira vez na noite, choro. De início, breve lamento acompanhado de um fungar que em segundos metamorfoseia-se em um pranto sentido e incontido. Desisto! Sem um calmante não conseguirei dormir. Que se dane, o dia da secretária, o doutor Orlando e o ingrato do Gabriel! Que vão todos para o inferno! Engulo o choro, assoo o nariz e sirvo-me de um comprimido inteiro de potente tranquilizante guardado na mesinha de cabeceira para estas ocasiões. Em questão de minutos leve sensação de bem-estar toma o meu corpo, sinto os ombros relaxarem, a cabeça se esvazia e perco os sentidos. A indústria farmacêutica decide a meu favor a contenda com Gabriel.
Depois de algumas horas mergulhada em um sono ausente de sonhos e pesadelos, acordo em sobressaltos e a primeira ideia a assombrar-me a mente é o desaparecimento de Gabriel. Corro para a sala aos tropeções e meu coração se alivia: lá estava ele, dormitando em sua poltrona, iluminado pelos primeiros raios solares que a manhã anunciava. Grito seu nome numa explosão de euforia. Ele desperta assustado. Fita-me com o seu olhar despido de qualquer culpa espreguiçando-se com despeito. Um egoísta. Desisto. O canalha nunca mudará.
É Dia da Secretária. Doutor Orlando me espera.  Tenho que tomar um banho e me aprontar para mais um dia de trabalho. Quem sabe um motelzinho depois do expediente? Dentro do banheiro resmungo: “Gato maldito!”
Da sala, chega o miado de Gabriel em resposta.


Américo Lima / Harry em “A vida é uma fome”



Ele guardara aquela face triste do velho Biu Fumeiro desde o início dos anos 80


- Fala Biu Fumeiro, o bar ainda está funcionando e cadê às raparigas?

- Estava fechando, Harry, a polícia esteve aqui, enquadrou os clientes, o Zé Bagunça falou alto e levou umas borrachadas, bateram muito nos rins dele, mas não o levaram, não havia motivos pra leva-lo, até a peixeira que ele sempre costuma usar havia me entregado pra guardar

- Sim..E aí! O policial que bateu nele é um desses que ficam no posto da praça e recebe a cota que você paga?

- Pior que era, o que mais me pede propina e bebe aqui em serviço.

- Sabia, logo que você me falou me veio na mente aquele FDP, Zé não deveria ter falado nada, nunca vai ser um bom malandro, malandro é superior a policias xibungos tipo aquele.

- Pois é Harry, você saberia tirar o farda otário de letra.

- Biu..faz o seguinte, acorda Nadia, bota uma cerveja bem gelada aqui. Pode fechar a porta, está quase amanhecendo. Estava nos puteiros da praça Monte Pio, mas com saudades de foder com Nadinha.

- Harry...você é conhecido no meio de gente boa, tinha jeito de tirar esse farda FDP daqui do posto da praça.

- Não, deixe esse cabra aí mesmo, ele está muito falado lá no vale do Reginaldo, os malandros de lá estão falando nele por uma boca só...Biu, talvez você não entenda …Se não pipocarem ele na ativa...suponho que os caras aguardam ele na reforma...Nessa hora chega Nadinha
– Fala vagabundo FDP!(Estava com o semblante cansada, mas trazia um sorriso engraçado meio de lado que Harry adorava)

- Biu já ia te acordar, já havia pedido, mas ficamos jogando conversas fora.

- Aposto que estava no puteiro do bar bem-te-vi, né?

- Estava sim, sai do serviço e fiquei papeando com amigos olhando se havia alguma puta nova no cardume.

- Vai dormir na casa da mamãe protetora ou aqui (zombando de minha mãe querida que uma vez passando lá por erro de percurso, perguntou a uma das putas de plantão na praça se Harry andava sempre por lá)

- Se não quiser que durma no seu quarto vou pra casa de minha mamãe protetora (falando sarcasticamente e sorrindo pra safada mais gostosa do cabaré do Biu Fumeiro)

Olha seu Biu..olha só pra cara do maloqueiro, ele sabe que deixo sempre e fica de resenha.

- Ah! Outra coisa, tenho quantas fodas que lhe devo?

- Sei lá, já perdi as contas, mas bora logo pro quarto, leva essa cerveja pra lá, preciso falar com você.

- É? Hehehe E eu preciso foder com você, saudades da porra dessa sua tabaca apertando, mordendo com jeito meu cacete.




FRAGMENTOS DO ROMANCE " O BÁLSAMO "

De TEREZA CUSTÓDIO

PRIMEIRA AVENTURA DE ALEXANDRE

Um texto de GRACILIANO RAMOS 

Naquela noite de lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala pequena de Alexandre: seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto Firmino e Mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordedura de cobras. Das Dores benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachava-se na esteira cochichando com Cesária.

— Vou contar aos senhores... principiou Alexandre amarrando o cigarro de palha.

Os amigos abriram os ouvidos e Das Dores interrompeu o cochicho:

— Conte, meu padrinho.

Alexandre acendeu o cigarro ao candeeiro de folha, escanchou-se .na rede e perguntou:

— Os senhores já sabem porque é que eu tenho um olho torto?

Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que servia de cadeira.

— Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo hoje, porque essa história nasce de outra, e é preciso encaixar as coisas direito. Querem ouvir? Se não querem, sejam francos: não gosto de cacetear ninguém.

Seu Libório cantador e o cego preto Firmino juraram que estavam atentos. E Alexandre abriu a torneira:

— Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa, como não ignoram. A nossa fazenda ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá em casa era cama de gato. Não era, Cesária?

— Era, Alexandre, concordou Cesária. Quando os escravos se forraram, foi um desmantelo, mas ainda sobraram alguns baús com moedas de ouro. Sumiu-se tudo.

Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde seu Libório se sentava:

— Hoje é isto. Você se lembra do nosso casamento, Alexandre?

— Sem dúvida, gritou o marido. Uma festa que durou sete dias. Agora não se faz festa como aquela. Mas o casamento foi depois. É bom não atrapalhar.

— Está certo, resmungou mestre Gaudêncio curandeiro. É bom não atrapalhar.

— Então escutem, prosseguiu Alexandre. Um domingo eu estava no copiar, esgaravatando unhas com a faca de ponta, quando meu pai chegou e disse:

— "Xandu, você nos seus passeios não achou roteiro da égua pampa?" E eu respondi: — "Não achei, nhor não." — "Pois dê umas voltas por aí, tornou meu pai Veja se encontra a égua." — "Nhor sim." Peguei um cabresto e saí de casa antes do almoço, andei, virei, mexi, procurando rastos nos caminhos e nas veredas. A égua pampa era um animal que não tinha agüentado ferro no quarto nem sela no lombo. Devia estar braba, metida nas brenhas, com medo de gente. Difícil topar na catinga um bicho assim". Entretido, esqueci o almoço e à tardinha descansei no bebedouro, vendo o gado enterrar os pés na lama. Apareceram bois, cavalos e miunça, mas da égua pampa nem sinal. Anoiteceu, um pedaço de lua branqueou os xiquexiques e os mandacarus, e eu. me estirei na ribanceira do rio, de papo para. o ar, olhando o céu, fui-me amadornando devagarinho, peguei no sono, com o pensamento em Cesária. Não sei quanto tempo dormi, sonhando com Cesária. Acordei numa escuridão medonha. Nem pedaço de lua nem estrelas, só se via o carreiro de Sant'lago. E tudo calado, tão calado que se ouvia perfeitamente uma formiga mexer nos garranchos e uma folha cair. Bacuraus doidos faziam às vezes um barulho grande, e os olhos deles brilhavam como brasas. Vinha de novo a escuridão, os talos secos buliam,as folhinhas das catingueiras voavam. Tive desejo de. voltar para casa, mas o corpo morrinhento não me ajudou. Continuei deitado, de barriga para cima, espiando o carreiro de Sant'lago. e prestando atenção ao trabalho das formigas. De repente. conheci que bebiam água ali perto. Virei-me, estirei o pescoço e avistei lá embaixo dois vultos malhados, um grande e um pequeno, junto da cerca do bebedouro. A princípio não pude vê-los direito, mas firmando a vista consegui distingui-las por causa das malhas brancas. — "Vão ver que é a égua pampa, foi o que eu disse. Não é senão ela. Deu cria no mato e só vem ao bebedouro de noite." Muito ruim o animal aparecer .àquela hora. Se fosse de dia e eu tivesse uma corda, podia laçá-lo num instante. Mas desprevenido, no escuro, levantei-me azuretado, com o cabresto na mão, procurando meio de sair daquela dificuldade. A égua ia escapar, na certa. Foi aí que a idéia me chegou.

— Que foi que o senhor fez? perguntou Das Dores curiosa.

Alexandre chupou o cigarro, o olho torto arregalado, fixo na parede. Voltou para Das Dores o olho bom e explicou-se:

— Fiz tenção de saltar no lombo do bicho e largar-me com ele na catinga. Era o jeito. Se não saltasse, adeus égua pampa. E que história ia contar a meu pai? Hem? Que história ia contar a meu pai, Das Dores?

A benzedeira de quebranto não deu palpite, e Alexandre mentalmente pulou nas costas do animal:

— Foi o que eu fiz. Ainda bem não me tinha resolvido, já estava escanchado. Um desespero, seu Libório, carreira como aquela só se vendo. Nunca houve outra igual. O vento zumbia nas minhas orelhas, zumbia como corda de viola. E eu então... Eu então pensava, na tropelia desembestada: — "A cria, miúda, naturalmente ficou atrás e se perde, que não pode acompanhar a mãe, mas esta amanhã está ferrada e arreada." Passei o cabresto no focinho da bicha e, os calcanhares presos nos vazios, deitei-me, grudei-me com ela, mas antes levei muita pancada de galho e muito arranhão de espinho rasga-beiço. Fui cair numa touceira cheia de espetos, um deles esfolou-me a cara, e nem senti a ferida: num aperto tão grande não ia ocupar-me com semelhante ninharia. Botei-me para fora dali, a custo, bem maltratado. Não sabia a natureza do estrago, mas pareceu-me que devia estar com a roupa em tiras e o rosto lanhado. Foi o que me pareceu. Escapulindo-se do espinheiro, a diaba ganhou de novo a catinga, saltando bancos de macambira e derrubando paus, como se tivesse azougue nas veias. Fazia um barulhão com as ventas, eu estava espantado, porque nunca tinha ouvido égua soprar daquele jeito. Afinal subjuguei-a, quebrei-lhe as forças e, com puxavantes de cabresto, murros na cabeça e pancadas nos queixos, levei-a. para a estrada. Ai ela compreendeu que não valia a pena teimar e entregou os pontos. Acreditam vossemecês que era um vivente de bom coração? Pois era. Com tão pouco ensino, deu para esquipar. E eu, notando que a infeliz estava disposta a aprender, puxei por ela, que acabou na pisada baixa e num galopezinho macio em cima da mão. Saibam os amigos que .nunca me desoriento. Depois de termos comido um bando de léguas naquele pretume de meter o dedo no olho, andando para aqui e para acolá, num rolo do inferno, percebi que estávamos perto do bebedouro. Sim senhores. Zoada tão grande, um despotismo de quem quer derrubar o mundo — e agora a pobre se arrastava quase no lugar da saída, num chouto cansado. Tomei o caminho de casa. O céu se desenferrujou, o sol estava com vontade de aparecer. Um galo cantou, houve nos ramos um rebuliço de penas. Quando entrei no pátio .da fazenda, meu pai e os negros iam começando o ofício de Nossa Senhora. Apeei-me, fui ao curral, amarrei o animal no mourão, cheguei-me à casa, sentei-me no copiar. A reza acabou lá dentro, e ouvi a fala de meu pai: — "Vocês não viram por aí o Xandu?" — "Estou aqui, nhor sim, respondi cá de fora" — "Homem, você me dá cabelos brancos, disse meu pai abrindo a porta. Desde ontem sumido!" — "Vossemecê não me mandou procurar a égua pampa?" —"Mandei, tornou o velho. Mas não mandei que você dormisse no mato, criatura dos meus pecados. E achou roteiro dela?" — "Roteiro não achei, mas vim montado num bicho. Talvez seja a égua pampa., porque tem malhas. Não sei, nhor não, só se vendo. O que sei é que é bom de verdade: com umas voltas que deu ficou pisando baixo, meio a galope. E parece que deu cria: estava com outro pequeno." Aí a barra apareceu, o dia clareou. Meu pai, minha mãe, os escravos e meu irmão mais novo, que depois vestiu farda e chegou a tenente de polícia, foram ver a égua pampa. Foram, mas não entraram no curral: ficaram na porteira, olhando uns para os outros, lesos, de boca aberta. E eu também me admirei, pois não.

Alexandre levantou-se, deu uns passos e esfregou as mãos, parou em frente de mestre Gaudêncio, falando alto, gesticulando:

— Tive medo, vi que tinha feito uma doidice. Vossemecês adivinham o que estava amarrado no mourão? Uma onça-pintada, enorme, da altura de um cavalo. Foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela desgraçada pela égua pampa.

Texto extraído do livro “Alexandre e outros heróis”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1981, pág. 11.

TÃO FRIA, TÃO CALMA, TÃO DISTANTE

Um texto de OZEIAS ALVES

Catarina se perguntava por que diabos se repreendia por estar fumando aquele cigarro, se no fim das contas aquela seria a sua última noite. Havia largado o vício, mês que vem completaria quatro anos, mas naquela tarde, pouco depois de decidir não comparecer a audiência, desviando-se do trajeto do Fórum, passou em frente a uma banquinha de jornal. Primeiro, quis comprar Trident de canela, sentia-se nervosa, a boca amarga; depois, olhando para as fileiras de jornais, todos eles trazendo praticamente a mesma notícia, as manchetes quase tão idênticas quanto sensacionalistas demais: o ataque a Torre Eiffel, a morte de dezenas de franceses, a possibilidade de estarem a um passo da terceira guerra mundial.
- É o final dos tempos, minha filha. Você acredita?
Disse o jornaleiro sentado num tamborete, a camisa azul desabotoada e empapada de suor, a barriga enorme, o umbigo estufado- que sujeito horrível, que mundo filho da puta!
Lembrou-se de Cristóvão, um dos antigos namorados de sua mãe, homem porco, sujeito imundo, as coisas que dizia e fazia... Que se fodesse o Trident de canela, o gosto amargo em sua boca, os jornais que anunciavam as mesmas tragédias, a iminente terceira guerra, Catarina precisava de um cigarro.
Precisava de um cigarro, e ignorando a pergunta do jornaleiro que lembrava Cristóvão, sujeito horrível, mundo filho da puta!, pediu um Hollywood Vermelho e um isqueiro; acendeu o cigarro ali mesmo, sentindo a mesma tonteira do primeiro trago na adolescência, caramba, como era possível que uma coisinha daquelas podia dar tanto prazer e fazer tanto mal? Dava longos tragos saboreando o cigarro, fechando os olhos por alguns momentos e pensando que a vida nada mais era do que uma coisinha à toa que podia dar muitos prazeres e fazer muito mal ao mesmo tempo.
Retomou a caminhada sem saber ao certo aonde ia, mas convicta de que qualquer lugar que fosse seria melhor que o Fórum, aquela maldita reunião com o ex marido e o juíz a respeito da guarda de Ana Clara; porque independente do que dissesse a seu favor, do quanto rebatesse as acusações de Luís sobre a sua incapacidade de cuidar de si mesma, quem dirá de uma filha de quatro anos, as negligências, os problemas no passado com as drogas, a internação numa clínica psiquiatra, as tentativas de suicídio, não importava, sabia que era uma causa perdida, que o Juíz concederia a guarda ao pai, estando ela presente ou não.
Melhor assim, quando engravidou teve um pressentimento de que aquilo seria um grande erro, apesar da felicidade que sentia ao lado do marido quando o exame confirmou a suspeita de gravidez. Sabia não haver vocação, apenas vontade de ser mãe. Ana Clara não estava nos planos, mas aconteceu, quase sempre é assim, e o que resta é aceitar, acolher, ser mãe, embora houvesse aquele pressentimento profundo e incômodo de que tudo era um grande erro que quase anulava a felicidade que sentia. Até mesmo o casamento, já no sétimo mês de gestação, pareceu um grande erro, uma autosabotagem; muitas vezes, deitada ao lado de Luís, sentia-se como que dentro de um carro a duzentos por hora prestes a colidir com um caminhão. As coisas já não eram como antes e muitas vezes Catarina se imaginava sofrendo um aborto espontâneo, e depois se repreendia envergonhada por tal pensamento. E isso se repetia várias e várias vezes até que Ana Clara nasceu, e junto à felicidade de ser mãe veio à certeza de que tanto o casamento quanto a gravidez não haviam sido dádiva ou milagre, mas sim um erro, uma autosabotagem.
Sentiu o celular vibrando dentro da bolsa, era a quarta ou quinta vez que Catarina ignorava as ligações, porque sabia, sem precisar identificar as chamadas, que se tratava de Luís, provavelmente irado por até agora ela não ter aparecido, se perder a guarda de Ana Clara era exatamente o que ela queria; ou sua mãe, apavorada com as ligações de Luís, o seu não comparecimento, o risco de a filha perder a guarda da neta, etc. Catarina deixou que o celular vibrasse uma última vez, e assim que o celular parou de chamar, abriu a bolsa e, aproximando-se da lixeira, deixou que o celular escorregasse de sua mão para dentro dela; o prazer que sentiu ao ouvir o aparelho se chocando no fundo da lixeira, a sensação de liberdade que experimentou eram quase indescritíveis, algo que ela não sentia há muito tempo e que comparou ao que sentiu em sua primeira noite na capital, tão distante de casa quanto dos olhos vigilantes da mãe e de todas as pessoas daquela cidade do interior.
Estava quase anoitecendo quando Catarina resolveu voltar para casa; havia andado pela cidade o dia inteiro, era a sua despedida de São Paulo, do caos, das maravilhas, das coisas que havia descoberto e que um dia haveria de descobrir, se houvesse tempo. Sentia-se exausta, não havia mais nada para ver naquele dia, mais nada do que se despedir nem que pensar: por horas tentou fazer mentalmente uma lista das coisas que sentiria falta, mas acabou desistindo quando sentiu uma angústia inédita, algo doloroso que ela até então nunca havia experimentado quando, por mais que quisesse se convencer do contrário, constatou nem mesmo sua filha estava naquela lista- então pegou o caminho do ponto de ônibus pensando que aquela lista era uma grande bobagem, já que são os vivos, não os mortos que sentem falta.
Nem mesmo em sua última noite conseguia se livrar da culpa. Sentia-se constantemente culpada, ás vezes sem nem ao menos ter feito nada. Esse sentimento de culpa a acompanhava desde a infância desde quando Cristóvão fez o que fez; apesar de odiá-lo, sentia-se culpada pelas coisas que ele dizia ou fazia, talvez por nunca ter nada à mãe ou a ninguém mais além da psiquiatra, talvez pelo fato de ser tão impotente diante daquela situação e várias outras pelas quais passaria ao longo da vida. Repreendendo-se naquele momento por estar fumando depois de quase quatro anos sem fumar, sentiu-se estúpida. Nada mais faria diferença, a culpa naquele momento era um sentimento desnecessário, embora tão presente quanto várias outras coisas que ela julgava desnecessárias em sua vida. Quando encontrava outros homens, mesmo já separada de Luís, sentia-se uma cadela imunda, uma verdadeira vagaba quando eles iam embora- gozar para ela muitas vezes havia sido uma coisa repreensível, imoral.
O ônibus chegou, e enquanto as pessoas que esperavam no ponto iam subindo, ela foi terminando o cigarro. Naquele momento não tinha pressa de sentar na poltrona e voltar para o apartamento , apesar de estar cansada, e foi fumando lentamente até que o último passageiro subiu; o motorista ficou parado com a mão na marcha olhando para ela esperando que ela subisse, e Catarina então jogou o cigarro fora e pisou no primeiro degrau. Deteve-se por um momento olhando para os postes acesos, os faróis dos carros e motos, as luzes das vitrines, dos bares e restaurantes ao longo da avenida. Ficou ali parada por um momento até que então deu meia volta deixando que o motorista fechasse a porta e seguisse com o ônibus.
Se aquele seria mesmo o seu último dia, que terminasse o seu maço de cigarros, que bebesse uma última vez, que aproveitasse então sem o menor sentimento de culpa a sua última noite com suas luzes e bêbados. Entraria no primeiro bar que parecesse bacana, pediria uma cerveja, responderia a um estranho se acaso ele fizesse alguma pergunta e não recusaria uma dança, caso alguém a convidasse para dançar.
Sacou num caixa 24 horas o dinheiro com que teria que se virar o resto do mês, o que não era muita coisa, mas que para aquela noite, a última de sua vida, seria mais do que suficiente. Caminhou pela avenida passando por tadas aquelas vitrines com seus manequins bem vestidos e sapatos caros, nunca mais teria que olhar para aqueles preços absurdos, se virar para pagar a fatura do cartão com todos aqueles gastos desnecessários, aquelas coisas que se acumulavam em seu apartamento e que no fim das contas nunca lhe serviram pra nada; até que finalmente encontrou El Mariachi, um Pub do qual ela se recordava ter ouvido falar muito bem.
Enquanto bebia sua segunda Heineken, Catarina olhava ao seu redor pensando que para um lugar com aquele nome, aquele Pub deixava muito a desejar. Ao invés de cores fortes, cactos pelos cantos, sombreiros pendurados e música latina, o que ela via eram tons pasteis nas paredes e algumas luzes com cores da bandeira mexicana, além de um som eletrônico que lembrava Kreftwerk.
- É, eu também esperava outra coisa quando entrei aqui.
Catarina, que olhava para a sua Heineken enquanto tentava não prestar atenção em nada além daquela música eletrônica, olhou para o sujeito que havia se sentado ao seu lado no balcão sem que ela se desse conta da sua presença até então.
- E como é que você sabe que eu esperava outra coisa?
O sujeito sorriu, ela só havia visto um sorriso como aquele nos comerciais de pasta de dente na tv. Sem exagero, era o sorriso mais lindo que ela havia visto na vida.
- Porque eu vi a sua cara quando entrou, e depois ficou aí sentada olhando pra lá e pra cá com a testa enrugada como se estivesse se perguntando: não era pra ser um Pub com temática mexicana?
Catarina estranhou que ele já estivesse ali quando ela chegou, porque assim que entrou passou os olhos pelo ambiente, algumas pessoas conversando tão empolgadas entre si que ignoraram a sua chegada, outras com seus olhos fixos na tela do celular enquanto digitavam alguma mensagem. Um cara bonito como aquele não passa despercebido assim, mas de alguma forma ele havia passado.
- Juro que não te vi quando entrei.
Ele sorriu outra vez, então Catarina baixou os olhos temendo que de alguma forma ele pudesse ler o que se passava em sua cabeça naquele momento. O que pensaria aquele sujeito charmoso com aquele terno que devia custar duas vezes o aluguel do seu apartamento se pudesse ler a sua mente? Que ela era uma puta, com toda certeza, dessas tão fáceis que nem seria necessário gastar tempo com conversas moles, drinques, todo aquele rodeio antes do objetivo final. Talvez ela não o tivesse visto quando entrou porque ele era um desses caras bem discretos, que não gostavam de chamar atenção ou coisa do tipo.
- Eu particularmente prefiro ser invisível. Quer dizer, gosto de ser como aqueles fantasmas dos filmes que só se mostram quando querem.
Foi então que Catarina percebeu que havia um sotaque, embora não soubesse identificar a origem. Americano, talvez, ou quem sabe Britânico.
- Você não é brasileiro, é?
- Não.
Catarina assentiu com a cabeça, bebericando a sua Heineken. Pensou em perguntar a sua nacionalidade, mas na real tanto fazia se ele era russo, tcheco, americano ou britânico. Se ela pudesse pular toda aquela parte da conversa, sair dali e foder com aquele cara e acabar com tudo de vez, uma última foda, uma bela gozada sem culpa... Poderia se insinuar como já havia feito algumas vezes, mas aquele cara não parecia ser do tipo que gostava de mulheres fáceis, tinha medo de que se fizesse ou dissesse algo que indicasse a sua verdadeira intenção, ele caísse fora. Então preferiu deixar que a coisa fluísse, porque que o que tivesse que ser seria, afinal, se ele havia ido falar com ela, ele que demonstrasse interesse em algo mais. Sem pressa, Catarina, não estrague a sua última noite.
Conversaram por cerca de uma hora enquanto bebiam; Catarina descobriu que o sujeito se chamava Peter, dizia ser de Londres e estava em São Paulo a negócios. Quando ela quis saber sobre os tais negócios, Peter desconversou, disse que não valia a pena falar sobre aquilo, que apostava que ela tinha a dizer sobre si e o que fazia era mil vezes menos entediante. Ela quis dizer o quanto Peter estava enganado, que sua vida era uma merda e que nos últimos tempos não havia feito nada além de foder com a própria vida, que passava horas na redação de um jornalzinho medíocre escrevendo coisas que sabia ser mentira, ou que mesmo achando a terapeuta uma grandessíssima filha da puta ia às suas consultas para ouvir coisas óbvias que de jeito nenhum surtiam efeito positivo.
Então Catarina inventou uma versão menos sombria de si. Ás vezes, enquanto falava coisas das quais nem ela mesma se convencia a respeito de si ou do mundo, reparava que Peter cerrava um pouco os olhos como se analisasse cada palavra, identificando cada mentira que saía de sua boca. Percebeu que havia falado bem mais do que Peter, que havia em torno dele uma aura misteriosa que a deixava ainda mais excitada. Quis saber mais a respeito dele, insistiu que ele falasse sobre os negócios que o levaram até a cidade, e só depois de muito insitir é que Peter respondeu:
- Digamos que são negócios sujos, e que se eu tiver que te dizer sobre o que eu faço...
- Você vai ter que me matar.
Concluiu Catarina já formando um sorriso nos lábios sem se dar conta de que aquela havia sido a primeira vez em que sorria durante dias. No fim das contas Peter tinha senso de humor e sabia se esquivar de um assunto sem parecer rude ou desconfortável. Então emendou:
- Mas então aqui vai um segredo: sou uma garota suicida, e de qualquer maneira, você me matando ou não, seu segredinho vai estar morto comigo pela manhã.
E por um momento se encararam em silêncio. Catarina temeu que Peter tivesse achado a piada de muito mau gosto, embora no fundo ela estivesse falando a verdade; sentiu-se tensa, que havia estragado tudo, que Peter devia estar pensando que ela era louca ou coisa do tipo, mas então, para o seu alívio, ele começou a gargalhar. Aliviada, gargalhou também, e ficaram assim achando graça da situação até que Peter assumiu um ar sério e disse:
- Catarina, o hotel onde estou hospedado é aqui perto, amanhã à tarde já terei encerrado os meus negócios e não estarei mais na cidade; eu gostaria muito que você me acompanhasse até o meu quarto e passasse essa noite comigo.
Ainda no táxi ao lado de Peter, Catarina pensou estar sonhando. Imaginou-se entrando naquele ônibus, indo para casa e tomando todos aqueles comprimidos, depois cortando os pulsos na vertical deitada em sua cama ao lado do breve bilhete de despedida que havia deixado escrito. Estremeceu de pensar na possibilidade de se matar sem ter conhecido Peter, se embrigado e gozado uma última vez. Já no hotel, ao adentrar a suíte, Catarina pensou que seja lá qual fosse a natureza dos negócios de Peter, era algo que lhe rendia bons lucros. Não teve tempo para pensar em mais nada, porque assim que a porta se fechou atrás dela, sentiu as mãos de Peter tocando o seu corpo, e todo o resto foi como se estivesse delirando.
Sentia-se tão bem ali deitada ao lado de Peter que chegou a cogitar seguir a vida. Se uma daquelas tentativas de suicídio tivesse dado certo, ela jamais teria a oportunidade de estar ali ao lado daquele homem que a fizera sentir vontade de arrancar pedaços com os dentes durante os orgasmos. Não havia culpa, não haviam mágoas, não havia mundo: Peter de repente lhe pareceu a cura. Mas sabia que tudo não passava de um momento, que logo teria que se vestir, pegar a sua bolsa, chamar um táxi e ir embora; e que aquele momento, por mais maravilhoso que lhe parecesse, se deu justamente por decidir não mais viver: não deveria se enganar nem pensar que se desse uma segunda chance a si mesma as coisas poderiam ser melhores. Porque não seriam, ela sabia.
Catarina sabia que não poderia mais adiar, que era preciso se levantar e ir embora, e por mais que desejasse ficar ali ao lado dele, de conversarem até amanhecer, não poderia mais adiar e deixar que ideias fantasiosas a persuadissem a viver. Mesmo que por mágica Peter e ela se reencontrassem, mesmo que em um universo paralelo os dois ficassem juntos, Catarina sabia que mais cedo ou mais tarde as coisas não seriam como antes, assim seriam sempre seus relacionamentos, assim fora com Luís.
- Preciso ir.
- Fica mais um pouco, depois de hoje a gente provavelmente nunca mais vai se ver. Eu peço um vinho, enquanto isso você toma um banho; depois eu chamo um táxi e você vai embora.
Disse para si mesma que de repente mais uns goles a encorajariam a sair dali de vez e voltar para casa, embora no fundo desconfiasse de que se sentia enfeitiçada, incapaz de levantar daquela cama e ir embora. Peter não precisou insistir:
- Eu fico, mas com uma condição: você vai me dizer com o que você trabalha, independente de ser sujo ou não.
Peter ficou em silêncio, encarando-a por um momento, os olhos semicerrados, então quis saber:
- Você tem certeza?
Catarina assentiu.
- Tudo bem, você é quem sabe.
- Sem julgamentos, a gente nunca mais vai se ver de qualquer maneira.
No chuveiro, como se de repente a realidade caísse sobre ela como um teto de gesso sobre a cabeça de alguém, Catarina começou a chorar. Abafou a boca com as mãos, porque não queria que Peter a ouvisse. Sentia-se infeliz ao mesmo tempo que, de alguma forma, maravilhada com a sensação da água quente sobre o seu corpo, o perfume do sabonete que deslizava por cada centímetro de sua pele. Era como se tivesse começado a viver outra vez no momento em que havia entrado naquele Pub e conhecido Peter; não sabia muito bem explicar o que estava sentindo, só sabia que em meio a tudo aquilo havia a certeza de que mesmo que tivesse decidido entrar naquele ônibus e voltado para casa, não teria coragem de fazer o que planejava. Ou não tomaria a quantidade de comprimidos suficiente, ou acabaria não cortando os pulsos na vertical, ou acabaria não fazendo ambas as coisas. Era covarde demais para abandonar aquela vida, por mais miserável que lhe parecesse, e todo aquele papo de uma última noite era apenas um pretexto para adiar a certeza de que ela seria incapaz.
Recompos-se como pode, deixando o banheiro já vestida como se nada tivesse acontecido. Peter a esperava com o vinho já servido numa taça. Catarina não entendia de vinhos, mas a julgar pela garrafa aquele não devia ser barato.
- Posso fumar aqui?
- Sem problemas.
Enquanto fumava, ficou em silêncio. Evitou ao máximo olhar para Peter temendo que ele visse seus olhos vermelhos e inchados, embora já tivesse ensaiado uma resposta caso ele perguntasse o que havia acontecido: sempre que tomo banho quente os meus olhos ficam vermelhos e inchados. Acontece.
- Então, vai me dizer com o que você trabalha?
- Você tem certeza que quer saber? Se sim, dê pelo menos um gole nesse vinho, você vai precisar.
Catarina se sentia impaciente e nervosa ao mesmo tempo. Devia ser uma coisa realmente ilícita, se ele relutava tanto em dizer. Mas como provavelmente nunca mais se veriam, não haveria problema algum em dizer. Imaginou que de repente Peter era um estelionatário, talvez contrabandista de obras de arte ou traficante de armas ou drogas. Mil coisas se passaram por sua cabeça enquanto ela esperava por uma resposta, todas elas tão absurdas quanto impossíveis. Catarina então deu um longo gole, quase acabando com o conteúdo da taça; e assim que ela parou de beber limpando o queixo onde uma gota escorria, Peter falou:
-Muito bem, eu sou assassino de aluguel, do tipo que mata e faz parecer que foi morte acidental ou natural. Já matei muita gente importante ao redor do mundo, você não faz ideia.
A essa altura Catarina já dava outro gole na taça, mas assim que ouviu o que Peter havia dito devolveu tudo numa cusparada vermelha. Começou a gargalhar como havia gargalhado no Pub, quando ela pensou ter feito uma piada de mau gosto e que Peter cairia fora. Mas enquanto tentava se desculpar pelo gesto involuntário, ainda tentando recuperar o fôlego, viu que Peter permanecia sério olhando para ela, a taça de vinho intacta em uma das mãos. Então Catarina sentiu o corpo tremer, primeiro um calafrio, depois os braços e pernas, e de repente era como se uma mão estivesse em volta do seu pescoço apertando cada vez mais e mais e mais.
As pernas fraquejaram, as mãos já não tinham forças, então a taça escorregou de sua mão, e como se estivesse em câmera lenta, caiu de lado sobre o carpete produzindo um baque surdo. Ouviu uma última vez a voz de Peter:
- Eu avisei, Catarina.
Tão fria, tão calma, tão distante. Depois Catarina não viu nem ouviu nem sentiu mais nada.

Finalmente.

FRAGMENTOS DO ROMANCE BÁLSAMO

De TEREZA CUSTÓDIO

ABSTRATO III • COTIDIANO

                                           De LILI RIBEIRO      

         O dia prometia muita tranquilidade. No comecinho dele uma preguiça gostosa embalada por um papo bem tranquilo no whatsApp. Mas tinha agenda marcada e não dava para continuar.
         Sem carro e sem grana para o Uber, a alternativa era o ônibus. Legal! Ando depressa. Achei que seria rápido. Ledo engano. Mudaram o transito por conta das obras e tive que caminhar por quase um quilometro. Não contava com o engarrafamento e sem alternativas não havia outro jeito a não ser, relaxar. Sentada no banco do cantinho, abracei minha bolsa e fiquei a olhar pela janela. Embarquei numa máquina do tempo e fui de volta para o passado. Estranho rever aquela moça bonita de cabelos castanho médio e ondulados na altura dos ombros sorrindo tanto. Um metro e sessenta e cinco, sessenta e três de cintura, noventa e oito de busto e quadril. Trajava calça jeans índigo, uma camisa branca e scarpin preto. Voltava feliz depois de almoçar com duas amigas em um dos restaurante próximo ao seu trabalho, na época, edifício Mayapan, o famoso “bolo de noiva” na Av Graça Aranha.  Pararam na faixa de pedestre. O sinal abriu. Despreocupada e sorridente atravessava a av com as amigas. De onde estavam dava pra ver um restaurante que ficava bem em frente ao sinal, com a maioria das mesas ocupadas, como era de costume, naquele horário. Um homem ainda bem jovem que ali almoçava levantou se e foi ao seu encontro. Ao ficar frente a moça, com um gesto de cavalheiro dos antigos saraus, ajoelhou-se diante dela como se a convidasse a dançar. Surpresa, olhou espantada. Mas ele não recuou. Levantou a mão direita em direção ao seu rosto e cantou alto e bom som, uma música que dizia assim; O teu corpo é luz, sedução, poema divino cheio de esplendor. Teu sorriso prende, inebria e entontece. És fascinação, amor. 
         O sinal abrira e apressados, os carros buzinavam todos de uma só vez enquanto as pessoas que passavam, aplaudiam e riam daquela cena de cinema no mínimo, inesperada. Com as bochechas vermelhas feito um caqui, seguiu meio sem jeito, Enquanto o rapaz voltava para o restaurante. Desde então...Um solavanco do ônibus e maluco cantando a música do seu Jorge; “a doida vazou, a doida vazou. Uau, que decepção o tempo passou de pressa demais. Já era hora de descer, havia chegando ao meu primeiro destino. O que aconteceu com os dois? Hahahah! Fica por conta da sua imaginação. 

Rio de Janeiro 10/10/2017