Um texto de OZEIAS ALVES
Catarina se perguntava por que diabos se repreendia por estar fumando
aquele cigarro, se no fim das contas aquela seria a sua última noite. Havia
largado o vício, mês que vem completaria quatro anos, mas naquela tarde, pouco
depois de decidir não comparecer a audiência, desviando-se do trajeto do Fórum,
passou em frente a uma banquinha de jornal. Primeiro, quis comprar Trident de
canela, sentia-se nervosa, a boca amarga; depois, olhando para as fileiras de
jornais, todos eles trazendo praticamente a mesma notícia, as manchetes quase
tão idênticas quanto sensacionalistas demais: o ataque a Torre Eiffel, a morte
de dezenas de franceses, a possibilidade de estarem a um passo da terceira
guerra mundial.
- É o final dos tempos, minha filha. Você acredita?
Disse o jornaleiro sentado num tamborete, a camisa azul desabotoada e
empapada de suor, a barriga enorme, o umbigo estufado- que sujeito horrível,
que mundo filho da puta!
Lembrou-se de Cristóvão, um dos antigos namorados de sua mãe, homem porco,
sujeito imundo, as coisas que dizia e fazia... Que se fodesse o Trident de
canela, o gosto amargo em sua boca, os jornais que anunciavam as mesmas
tragédias, a iminente terceira guerra, Catarina precisava de um cigarro.
Precisava de um cigarro, e ignorando a pergunta do jornaleiro que lembrava
Cristóvão, sujeito horrível, mundo filho da puta!, pediu um Hollywood Vermelho
e um isqueiro; acendeu o cigarro ali mesmo, sentindo a mesma tonteira do
primeiro trago na adolescência, caramba, como era possível que uma coisinha
daquelas podia dar tanto prazer e fazer tanto mal? Dava longos tragos
saboreando o cigarro, fechando os olhos por alguns momentos e pensando que a
vida nada mais era do que uma coisinha à toa que podia dar muitos prazeres e
fazer muito mal ao mesmo tempo.
Retomou a caminhada sem saber ao certo aonde ia, mas convicta de que
qualquer lugar que fosse seria melhor que o Fórum, aquela maldita reunião com o
ex marido e o juíz a respeito da guarda de Ana Clara; porque independente do
que dissesse a seu favor, do quanto rebatesse as acusações de Luís sobre a sua
incapacidade de cuidar de si mesma, quem dirá de uma filha de quatro anos, as
negligências, os problemas no passado com as drogas, a internação numa clínica
psiquiatra, as tentativas de suicídio, não importava, sabia que era uma causa
perdida, que o Juíz concederia a guarda ao pai, estando ela presente ou não.
Melhor assim, quando engravidou teve um pressentimento de que aquilo seria
um grande erro, apesar da felicidade que sentia ao lado do marido quando o
exame confirmou a suspeita de gravidez. Sabia não haver vocação, apenas vontade
de ser mãe. Ana Clara não estava nos planos, mas aconteceu, quase sempre é
assim, e o que resta é aceitar, acolher, ser mãe, embora houvesse aquele
pressentimento profundo e incômodo de que tudo era um grande erro que quase
anulava a felicidade que sentia. Até mesmo o casamento, já no sétimo mês de
gestação, pareceu um grande erro, uma autosabotagem; muitas vezes, deitada ao
lado de Luís, sentia-se como que dentro de um carro a duzentos por hora prestes
a colidir com um caminhão. As coisas já não eram como antes e muitas vezes
Catarina se imaginava sofrendo um aborto espontâneo, e depois se repreendia
envergonhada por tal pensamento. E isso se repetia várias e várias vezes até
que Ana Clara nasceu, e junto à felicidade de ser mãe veio à certeza de que
tanto o casamento quanto a gravidez não haviam sido dádiva ou milagre, mas sim
um erro, uma autosabotagem.
Sentiu o celular vibrando dentro da bolsa, era a quarta ou quinta vez que
Catarina ignorava as ligações, porque sabia, sem precisar identificar as
chamadas, que se tratava de Luís, provavelmente irado por até agora ela não ter
aparecido, se perder a guarda de Ana Clara era exatamente o que ela queria; ou
sua mãe, apavorada com as ligações de Luís, o seu não comparecimento, o risco
de a filha perder a guarda da neta, etc. Catarina deixou que o celular vibrasse
uma última vez, e assim que o celular parou de chamar, abriu a bolsa e,
aproximando-se da lixeira, deixou que o celular escorregasse de sua mão para dentro
dela; o prazer que sentiu ao ouvir o aparelho se chocando no fundo da lixeira,
a sensação de liberdade que experimentou eram quase indescritíveis, algo que
ela não sentia há muito tempo e que comparou ao que sentiu em sua primeira
noite na capital, tão distante de casa quanto dos olhos vigilantes da mãe e de
todas as pessoas daquela cidade do interior.
Estava quase anoitecendo quando Catarina resolveu voltar para casa; havia
andado pela cidade o dia inteiro, era a sua despedida de São Paulo, do caos, das
maravilhas, das coisas que havia descoberto e que um dia haveria de descobrir,
se houvesse tempo. Sentia-se exausta, não havia mais nada para ver naquele dia,
mais nada do que se despedir nem que pensar: por horas tentou fazer mentalmente
uma lista das coisas que sentiria falta, mas acabou desistindo quando sentiu
uma angústia inédita, algo doloroso que ela até então nunca havia experimentado
quando, por mais que quisesse se convencer do contrário, constatou nem mesmo
sua filha estava naquela lista- então pegou o caminho do ponto de ônibus
pensando que aquela lista era uma grande bobagem, já que são os vivos, não os
mortos que sentem falta.
Nem mesmo em sua última noite conseguia se livrar da culpa. Sentia-se
constantemente culpada, ás vezes sem nem ao menos ter feito nada. Esse
sentimento de culpa a acompanhava desde a infância desde quando Cristóvão fez o
que fez; apesar de odiá-lo, sentia-se culpada pelas coisas que ele dizia ou
fazia, talvez por nunca ter nada à mãe ou a ninguém mais além da psiquiatra,
talvez pelo fato de ser tão impotente diante daquela situação e várias outras
pelas quais passaria ao longo da vida. Repreendendo-se naquele momento por
estar fumando depois de quase quatro anos sem fumar, sentiu-se estúpida. Nada
mais faria diferença, a culpa naquele momento era um sentimento desnecessário,
embora tão presente quanto várias outras coisas que ela julgava desnecessárias
em sua vida. Quando encontrava outros homens, mesmo já separada de Luís,
sentia-se uma cadela imunda, uma verdadeira vagaba quando eles iam embora-
gozar para ela muitas vezes havia sido uma coisa repreensível, imoral.
O ônibus chegou, e enquanto as pessoas que esperavam no ponto iam subindo,
ela foi terminando o cigarro. Naquele momento não tinha pressa de sentar na
poltrona e voltar para o apartamento , apesar de estar cansada, e foi fumando
lentamente até que o último passageiro subiu; o motorista ficou parado com a
mão na marcha olhando para ela esperando que ela subisse, e Catarina então
jogou o cigarro fora e pisou no primeiro degrau. Deteve-se por um momento
olhando para os postes acesos, os faróis dos carros e motos, as luzes das
vitrines, dos bares e restaurantes ao longo da avenida. Ficou ali parada por um
momento até que então deu meia volta deixando que o motorista fechasse a porta
e seguisse com o ônibus.
Se aquele seria mesmo o seu último dia, que terminasse o seu maço de
cigarros, que bebesse uma última vez, que aproveitasse então sem o menor
sentimento de culpa a sua última noite com suas luzes e bêbados. Entraria no
primeiro bar que parecesse bacana, pediria uma cerveja, responderia a um
estranho se acaso ele fizesse alguma pergunta e não recusaria uma dança, caso
alguém a convidasse para dançar.
Sacou num caixa 24 horas o dinheiro com que teria que se virar o resto do
mês, o que não era muita coisa, mas que para aquela noite, a última de sua
vida, seria mais do que suficiente. Caminhou pela avenida passando por tadas
aquelas vitrines com seus manequins bem vestidos e sapatos caros, nunca mais
teria que olhar para aqueles preços absurdos, se virar para pagar a fatura do
cartão com todos aqueles gastos desnecessários, aquelas coisas que se
acumulavam em seu apartamento e que no fim das contas nunca lhe serviram pra
nada; até que finalmente encontrou El Mariachi, um Pub do qual ela se recordava
ter ouvido falar muito bem.
Enquanto bebia sua segunda Heineken, Catarina olhava ao seu redor pensando
que para um lugar com aquele nome, aquele Pub deixava muito a desejar. Ao invés
de cores fortes, cactos pelos cantos, sombreiros pendurados e música latina, o
que ela via eram tons pasteis nas paredes e algumas luzes com cores da bandeira
mexicana, além de um som eletrônico que lembrava Kreftwerk.
- É, eu também esperava outra coisa quando entrei aqui.
Catarina, que olhava para a sua Heineken enquanto tentava não prestar
atenção em nada além daquela música eletrônica, olhou para o sujeito que havia
se sentado ao seu lado no balcão sem que ela se desse conta da sua presença até
então.
- E como é que você sabe que eu esperava outra coisa?
O sujeito sorriu, ela só havia visto um sorriso como aquele nos comerciais
de pasta de dente na tv. Sem exagero, era o sorriso mais lindo que ela havia
visto na vida.
- Porque eu vi a sua cara quando entrou, e depois ficou aí sentada olhando
pra lá e pra cá com a testa enrugada como se estivesse se perguntando: não era
pra ser um Pub com temática mexicana?
Catarina estranhou que ele já estivesse ali quando ela chegou, porque assim
que entrou passou os olhos pelo ambiente, algumas pessoas conversando tão
empolgadas entre si que ignoraram a sua chegada, outras com seus olhos fixos na
tela do celular enquanto digitavam alguma mensagem. Um cara bonito como aquele
não passa despercebido assim, mas de alguma forma ele havia passado.
- Juro que não te vi quando entrei.
Ele sorriu outra vez, então Catarina baixou os olhos temendo que de alguma
forma ele pudesse ler o que se passava em sua cabeça naquele momento. O que
pensaria aquele sujeito charmoso com aquele terno que devia custar duas vezes o
aluguel do seu apartamento se pudesse ler a sua mente? Que ela era uma puta,
com toda certeza, dessas tão fáceis que nem seria necessário gastar tempo com
conversas moles, drinques, todo aquele rodeio antes do objetivo final. Talvez
ela não o tivesse visto quando entrou porque ele era um desses caras bem
discretos, que não gostavam de chamar atenção ou coisa do tipo.
- Eu particularmente prefiro ser invisível. Quer dizer, gosto de ser como
aqueles fantasmas dos filmes que só se mostram quando querem.
Foi então que Catarina percebeu que havia um sotaque, embora não soubesse
identificar a origem. Americano, talvez, ou quem sabe Britânico.
- Você não é brasileiro, é?
- Não.
Catarina assentiu com a cabeça, bebericando a sua Heineken. Pensou em
perguntar a sua nacionalidade, mas na real tanto fazia se ele era russo,
tcheco, americano ou britânico. Se ela pudesse pular toda aquela parte da
conversa, sair dali e foder com aquele cara e acabar com tudo de vez, uma
última foda, uma bela gozada sem culpa... Poderia se insinuar como já havia
feito algumas vezes, mas aquele cara não parecia ser do tipo que gostava de
mulheres fáceis, tinha medo de que se fizesse ou dissesse algo que indicasse a
sua verdadeira intenção, ele caísse fora. Então preferiu deixar que a coisa
fluísse, porque que o que tivesse que ser seria, afinal, se ele havia ido falar
com ela, ele que demonstrasse interesse em algo mais. Sem pressa, Catarina, não
estrague a sua última noite.
Conversaram por cerca de uma hora enquanto bebiam; Catarina descobriu que o
sujeito se chamava Peter, dizia ser de Londres e estava em São Paulo a
negócios. Quando ela quis saber sobre os tais negócios, Peter desconversou,
disse que não valia a pena falar sobre aquilo, que apostava que ela tinha a
dizer sobre si e o que fazia era mil vezes menos entediante. Ela quis dizer o
quanto Peter estava enganado, que sua vida era uma merda e que nos últimos
tempos não havia feito nada além de foder com a própria vida, que passava horas
na redação de um jornalzinho medíocre escrevendo coisas que sabia ser mentira,
ou que mesmo achando a terapeuta uma grandessíssima filha da puta ia às suas
consultas para ouvir coisas óbvias que de jeito nenhum surtiam efeito positivo.
Então Catarina inventou uma versão menos sombria de si. Ás vezes, enquanto
falava coisas das quais nem ela mesma se convencia a respeito de si ou do
mundo, reparava que Peter cerrava um pouco os olhos como se analisasse cada
palavra, identificando cada mentira que saía de sua boca. Percebeu que havia
falado bem mais do que Peter, que havia em torno dele uma aura misteriosa que a
deixava ainda mais excitada. Quis saber mais a respeito dele, insistiu que ele
falasse sobre os negócios que o levaram até a cidade, e só depois de muito
insitir é que Peter respondeu:
- Digamos que são negócios sujos, e que se eu tiver que te dizer sobre o que
eu faço...
- Você vai ter que me matar.
Concluiu Catarina já formando um sorriso nos lábios sem se dar conta de que
aquela havia sido a primeira vez em que sorria durante dias. No fim das contas
Peter tinha senso de humor e sabia se esquivar de um assunto sem parecer rude
ou desconfortável. Então emendou:
- Mas então aqui vai um segredo: sou uma garota suicida, e de qualquer
maneira, você me matando ou não, seu segredinho vai estar morto comigo pela
manhã.
E por um momento se encararam em silêncio. Catarina temeu que Peter tivesse
achado a piada de muito mau gosto, embora no fundo ela estivesse falando a
verdade; sentiu-se tensa, que havia estragado tudo, que Peter devia estar
pensando que ela era louca ou coisa do tipo, mas então, para o seu alívio, ele
começou a gargalhar. Aliviada, gargalhou também, e ficaram assim achando graça
da situação até que Peter assumiu um ar sério e disse:
- Catarina, o hotel onde estou hospedado é aqui perto, amanhã à tarde já
terei encerrado os meus negócios e não estarei mais na cidade; eu gostaria
muito que você me acompanhasse até o meu quarto e passasse essa noite comigo.
Ainda no táxi ao lado de Peter, Catarina pensou estar sonhando. Imaginou-se
entrando naquele ônibus, indo para casa e tomando todos aqueles comprimidos,
depois cortando os pulsos na vertical deitada em sua cama ao lado do breve
bilhete de despedida que havia deixado escrito. Estremeceu de pensar na
possibilidade de se matar sem ter conhecido Peter, se embrigado e gozado uma
última vez. Já no hotel, ao adentrar a suíte, Catarina pensou que seja lá qual
fosse a natureza dos negócios de Peter, era algo que lhe rendia bons lucros.
Não teve tempo para pensar em mais nada, porque assim que a porta se fechou
atrás dela, sentiu as mãos de Peter tocando o seu corpo, e todo o resto foi
como se estivesse delirando.
Sentia-se tão bem ali deitada ao lado de Peter que chegou a cogitar seguir
a vida. Se uma daquelas tentativas de suicídio tivesse dado certo, ela jamais
teria a oportunidade de estar ali ao lado daquele homem que a fizera sentir
vontade de arrancar pedaços com os dentes durante os orgasmos. Não havia culpa,
não haviam mágoas, não havia mundo: Peter de repente lhe pareceu a cura. Mas
sabia que tudo não passava de um momento, que logo teria que se vestir, pegar a
sua bolsa, chamar um táxi e ir embora; e que aquele momento, por mais
maravilhoso que lhe parecesse, se deu justamente por decidir não mais viver:
não deveria se enganar nem pensar que se desse uma segunda chance a si mesma as
coisas poderiam ser melhores. Porque não seriam, ela sabia.
Catarina sabia que não poderia mais adiar, que era preciso se levantar e ir
embora, e por mais que desejasse ficar ali ao lado dele, de conversarem até
amanhecer, não poderia mais adiar e deixar que ideias fantasiosas a
persuadissem a viver. Mesmo que por mágica Peter e ela se reencontrassem, mesmo
que em um universo paralelo os dois ficassem juntos, Catarina sabia que mais
cedo ou mais tarde as coisas não seriam como antes, assim seriam sempre seus
relacionamentos, assim fora com Luís.
- Preciso ir.
- Fica mais um pouco, depois de hoje a gente provavelmente nunca mais vai se
ver. Eu peço um vinho, enquanto isso você toma um banho; depois eu chamo um
táxi e você vai embora.
Disse para si mesma que de repente mais uns goles a encorajariam a sair
dali de vez e voltar para casa, embora no fundo desconfiasse de que se sentia
enfeitiçada, incapaz de levantar daquela cama e ir embora. Peter não precisou
insistir:
- Eu fico, mas com uma condição: você vai me dizer com o que você trabalha,
independente de ser sujo ou não.
Peter ficou em silêncio, encarando-a por um momento, os olhos semicerrados,
então quis saber:
- Você tem certeza?
Catarina assentiu.
- Tudo bem, você é quem sabe.
- Sem julgamentos, a gente nunca mais vai se ver de qualquer maneira.
No chuveiro, como se de repente a realidade caísse sobre ela como um teto
de gesso sobre a cabeça de alguém, Catarina começou a chorar. Abafou a boca com
as mãos, porque não queria que Peter a ouvisse. Sentia-se infeliz ao mesmo
tempo que, de alguma forma, maravilhada com a sensação da água quente sobre o
seu corpo, o perfume do sabonete que deslizava por cada centímetro de sua pele.
Era como se tivesse começado a viver outra vez no momento em que havia entrado
naquele Pub e conhecido Peter; não sabia muito bem explicar o que estava
sentindo, só sabia que em meio a tudo aquilo havia a certeza de que mesmo que
tivesse decidido entrar naquele ônibus e voltado para casa, não teria coragem
de fazer o que planejava. Ou não tomaria a quantidade de comprimidos
suficiente, ou acabaria não cortando os pulsos na vertical, ou acabaria não
fazendo ambas as coisas. Era covarde demais para abandonar aquela vida, por
mais miserável que lhe parecesse, e todo aquele papo de uma última noite era
apenas um pretexto para adiar a certeza de que ela seria incapaz.
Recompos-se como pode, deixando o banheiro já vestida como se nada tivesse
acontecido. Peter a esperava com o vinho já servido numa taça. Catarina não
entendia de vinhos, mas a julgar pela garrafa aquele não devia ser barato.
- Posso fumar aqui?
- Sem problemas.
Enquanto fumava, ficou em silêncio. Evitou ao máximo olhar para Peter
temendo que ele visse seus olhos vermelhos e inchados, embora já tivesse
ensaiado uma resposta caso ele perguntasse o que havia acontecido: sempre que
tomo banho quente os meus olhos ficam vermelhos e inchados. Acontece.
- Então, vai me dizer com o que você trabalha?
- Você tem certeza que quer saber? Se sim, dê pelo menos um gole nesse
vinho, você vai precisar.
Catarina se sentia impaciente e nervosa ao mesmo tempo. Devia ser uma coisa
realmente ilícita, se ele relutava tanto em dizer. Mas como provavelmente nunca
mais se veriam, não haveria problema algum em dizer. Imaginou que de repente
Peter era um estelionatário, talvez contrabandista de obras de arte ou
traficante de armas ou drogas. Mil coisas se passaram por sua cabeça enquanto
ela esperava por uma resposta, todas elas tão absurdas quanto impossíveis.
Catarina então deu um longo gole, quase acabando com o conteúdo da taça; e
assim que ela parou de beber limpando o queixo onde uma gota escorria, Peter
falou:
-Muito bem, eu sou assassino de aluguel, do tipo que mata e faz parecer que
foi morte acidental ou natural. Já matei muita gente importante ao redor do
mundo, você não faz ideia.
A essa altura Catarina já dava outro gole na taça, mas assim que ouviu o
que Peter havia dito devolveu tudo numa cusparada vermelha. Começou a gargalhar
como havia gargalhado no Pub, quando ela pensou ter feito uma piada de mau
gosto e que Peter cairia fora. Mas enquanto tentava se desculpar pelo gesto
involuntário, ainda tentando recuperar o fôlego, viu que Peter permanecia sério
olhando para ela, a taça de vinho intacta em uma das mãos. Então Catarina
sentiu o corpo tremer, primeiro um calafrio, depois os braços e pernas, e de
repente era como se uma mão estivesse em volta do seu pescoço apertando cada
vez mais e mais e mais.
As pernas fraquejaram, as mãos já não tinham forças, então a taça
escorregou de sua mão, e como se estivesse em câmera lenta, caiu de lado sobre
o carpete produzindo um baque surdo. Ouviu uma última vez a voz de Peter:
- Eu avisei, Catarina.
Tão fria, tão calma, tão distante. Depois Catarina não viu nem ouviu nem
sentiu mais nada.
Finalmente.