SETE POEMAS DE FERNANDO TANAJURA


Sete poemas em homenagem ao poeta baiano, Fernando Tanajura, falecido no último 25 de dezembro de 2019
A LÁGRIMA

Eu choro à toa, poeta:
de alegria,
de tristeza,
de felicidade,
de melancolia
Eu choro sem ter motivo,
por um motivo qualquer
Eu choro por uma criança
Eu choro por uma mulher
A lágrima já tem sentido
quando se pensa e se fala
mesmo que tenha omitido
a verdade que se cala
Eu choro sempre, poeta:
Seja noite seja dia
seja funeral ou festa
seja canto de alegria
ou da saudade que me resta
A lágrima vive comigo
e é uma coisa sadia
Para mim ela é abrigo,
abrigo da minha poesia


SETE

O gato tem sete vidas
A cova tem sete palmos
Segredo de sete chaves
Semana de sete dias
São sete os sete pecados
A bota de sete léguas
Setembro é nove, não é sete
Na sala tem sete chamas
A igreja de sete colunas
abriga os sete arcanjos
sagrados pintando o sete
gastando os sete centavos
A deusa de sete braços
e sete pernas douradas
domina os sete dragões
de sete patas sagradas
A dança dos sete véus
e os sete beijos do amado
moveram os sete sentidos
e sete sinos dobraram
São tantas coisa com sete
que sete me traz a sorte
Sete vezes tive vida
Sete vezes vi a morte


ORGASMO

Nas nossas vozes
sufocamos
gritos noturnos
proclamando amores

Cercado de flores


FINADOS

Já comprei um caixão preto
com um enfeite azul-lilás
tem um friso prateado
pro meu enterro fugaz
Quero um enterro sem choro
— enterro só de uma vela —
sem carpideiras gritando
e só uma rosa amarela
Que descanse o corpo meu
entre corpos maltratados
que viveu pra ser lembrado
só no Dia de Finados


O BARCO DAS ILUSÕES

Fito o barco a desprender-se do cais
levando todos meus sonhos,
a buscar farrapos de ilusões
Com a alma tecida de espanto
dispo a minha realidade
em um cantochão
Faço das docas meu templo
— banho-me em bacias de bronze
em danças de querubins
Siga, barco,
a procura de adamastores
com seus místicos astrolábios
Desvenda ilhas de jade e
encontra teu destino torto!
Assanha insetos e leões
em tuas derrocadas!
Deixa-me largado na areia
cercado de pedras, a traduzir
as bifurcações dos meus sentimentos!
Quero gemer os partos indivisos,
lavando e esfregando o fero fogo
em pétalas incandescentes
No torvelinho desse braseiro
e nas ossadas expostas de razões,
procuro as meretrizes doutros sonhos
Em vão!
Digladio entre touças do jardim
ferindo o braço,
desencavando máscaras sotopostas,
incensando o porão e o sótão,
mordendo lábios que gotejam ais,
me dando sem medidas com plenitude e abundância,
bebendo um copo do amargo mar
De mãos dadas com a aurora e a tempestade,
palmeio leques de céu laminado de chumbo
Na boca, o gosto de cravo,
saliva grossa de outras águas
em cataratas a escrutinar o sabor das harpas
Que se desgrenhe e desalinhe
em formas abstratas!
Siga, barco,
teu caminho incerto por desconhecidos mares!
Carrega no teu bordo minha viola muda!
Evapora em placas disformes nas curvas do horizonte!
Deixa que o braço, o cais, o jardim, as touças
me devolvam o cristalino e doce ouro!
Deixa-me só
com as mãos envernizadas
a despertar segredos!


AMOR EM OUTRAS ÁGUAS

Sou poesia — tudo sou:
pedaço de cimento,
batom cor de carmim
Tudo sinto em mim —
— amor em outras águas,
tristezas d’outras mágoas
— corro que nem jaguar
Evito o curare
Sou voo tanajura,
cio de barata
cascuda de outras rimas
Canto com o acauã,
recuo da cotia
sendo somente poesia
Cala caju do mato
que estou pra refletir,
correndo como jibóia
Piando qual coruja,
lavo piranhas loucas,
contemplo juruás
e chupo maracujás
Regendo jararacas,
reflito sururús
Maduro açaís,
nasço viúva negra,
transporto tartaruga e
carrego calundú
em forma de calunga
Se isso muito me aperta,
não é que tudo dói?
Jazo caranguejeira,
levanto outra saúva
Machuco o curanchim,
fisgando pirarucu,
comendo meia jaca
Sou chifre de veado
bebendo jurubeba,
piando jurupocas
Faço amor na piroga
por cima da pororoca
e flutuo em nuvem branca,
alva que nem pipoca


FAÇO VERSOS

Faço versos
tal qual quem se desnuda
em público
Livre das minhas
rotas vergonhas,
busco o infinito
Como quem olha do poço,
fitando o céu,
procuro tecer
no papel da alma
meadas de desencontrados sonhos
Sonhos quiçá dilatados,
cinéreos,
aéreos,
de cálculos em oráculos
Firo o papel
com madonas,
gatos selvagens - azuis
- ou mosca tonta,
acabrunhada perante o candeeiro
Tateio o pão
de amianto e
encontro o vento
Longe do vozerio,
coloco na minha canastra
mais um verso

•••

MAIS SOBRE FERNANDO TANAJURA


Nasci no Recôncavo Baiano, mais precisamente, em Nazaré das Farinhas.

Salvador, Rio de Janeiro, Washington, D.C. foram minhas moradas antes de me enraizar em Nova York como planta de asfalto. Tenho os números por formação - Contador & Administrador de Empresas - e as letras por devoção diária: escrevo!

Coloco as mil e uma máscaras quando crio alguma coisa: desdobro-me em personas como num palco - sou muitos em um só, como os fachos da mesma luz.


Foto by Jasper Luth - Sunset in California-USA, 1999.

Prêmios:

- Prêmio Montagem pela Fundação Cultural do Estado da Bahia - A Vaca – 1982

- 3º lugar no I Concurso de Poesias da Revista Alternativa - Boston-MA/EUA - poema “Metade” – 1997

- 2º lugar no I Concurso de Poesias Interfriends - poema “Nem te olho” – 1999

- 2º lugar no I Concurso de Contos Eróticos de Poetas. Mortos - conto “Anna Louca” - 1999


Livros de poesias publicados:


* RETRATOS - Editora João Scortecci - São Paulo/SP - 1a. e 2a. Edições em 1990 e 1991

* COISAS DO CORAÇÃO - Editora João Scortecci - São
Paulo/SP - 1a. e 2a. Edições em 1993 e 1994 (Edições esgotadas)

* RETRATOS e COISAS DO CORAÇÃO (Edição conjunta
dos dois livros & Críticas) - Editora João Scortecci - São Paulo/SP - 1995 (Edição esgotada)

* CÂNTICO DAS ROSAS - Editora João Scortecci - São
Paulo/SP - 1997 (Edição esgotada)

* DOS BEIJOS - Editora Blocos - Maricá/RJ - 1999 (Edição egotada)

* MUITA POESIA BRASILEIRA - Cadernos das Poesias que estão on-line em Blocos - Editora Blocos - Maricá/RJ - 1999 (Edição limitada e esgotada)

* 2a. ANTOLOGIA DOS POETAS INTERNAUTAS - Editora Blocos - Maricá/RJ - 1999 (Edição limitada e esgotada)

* e-book FERNANDO TANAJURA - poesias escolhidas por Angela Lara - 2006  http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/ebooks/index.php

* LIVRO DAS TROVAS - Editora Scortecci - São Paulo-SP - 2016

* ANTOLOGIA ENCONTRO DI-VERSOS - Editora U.S.C.A. - 2017


Teatro:

* A VACA - Encenada na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, Salvador/BA - 1982

* O MACACO ASTRONAUTA (El Mono Astronauta) -
Encenada em espanhol no Consulado de Venezuela e no Auditório de la Federación de Entidades Equatorianas - New York/USA - 1998







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