POEMAS DE DESPEDIDA


Com Marina Tzvietáieva • Manuel Bandeira • Radyr Gonçalves • Edy Gonçalves • Débora Mitrano • Érica Cristiane • Auta de Souza • Nassary Lee Bahar • João Cabral de Melo Neto • Carlos Drummond de Andrade • Cecília Meireles • Mia Couto • Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)



Poema do fim
Marina Tzvietáieva
Como a pedra afia a faca,
Como ele desliza a serragem ao varrer,
Assim, a pele aveludada
De súbito, entre os dedos. Úmida.

Oh dupla coragem, sequidão -
Dos homens, onde está você,
Se em minhas mão há lágrimas
E não chuva?

A água é da fortuna
O que mais poderia querer?
Se teus olhos são diamantes
Que se vertem em minhas palmas,

Já não perco
Nada. Fim do fim.
Carícias, abraços
- Eu acariciava tua face.

Assim somos, orgulhosos
E polacas – Marina -,
Quando chove em minhas mãos
Olhos de águia:

Você chora? Meu amor,
Meu tudo: me perdoe.
Pedras de sal
Caem em minhas mãos.

Planto de homem, veia,
Na cabeça recostada.
Gritos. Outra te devolverá
A vergonha que te fiz deixar.

Somos dois peixes
Dos meus – meu – seu – meu mar
Duas conchas mortas
Lábio contra lábio.

Todas as lágrimas.
sabor
Um oráculo
- O que acontecerá
quando
Despertares?


O Último Poema
Manuel Bandeira
Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Canção de adeus
Radyr Gonçalves
Um último fio de luz engolfa meus olhos
Atravesso em silêncio o túnel temido
Nunca tive tanta coragem na vida
Tanta pressa para que um verso termine

Há um barbante que vai demarcando o caminho
Um grande espelho – um anjo vestido de linho
Mas eu não o vejo – eu apenas sei, eu apenas sinto

Não faço uma última prece para nenhum santo
Deixo fragmentos de mim por todos os cantos
Porém, nenhuma carta, bilhete ou coisa que o valha

Deixo uma pipa amarrada na calha – (eu adoro as pipas)...
Tantos avisos deixei – hoje eu sei quando ouço minha própria voz
Sou meu poeta preferido, meu destempero, meu algoz

Aquele que no último adeus ainda escreve
Verso pouco, pequeno, verso breve
Verso pálido, embranquecido, versos tolos, versos meus

Cantilena floreada no coro uníssono de um adeus!

... Um último fio de luz engolfa meus olhos.


Nunca Mais
Edy Gonçalves
Nunca mais dos teus olhos os astros,
Nunca mais dos teus poros delícias,
Nunca mais dos teus dedos carícias,
Mais brilhantes, porém, nossos rastros.

Nunca mais o voejar contigo,
Nunca mais um amor verdadeiro,
Nunca mais viração do teu cheiro.
Tudo morto... Mas vive comigo.

Ao pensar no que sou, reconheço:
Não sou mais que lembranças fatais.
Se a beleza perdeu-se, esmoreço

Nesta vida e caminho pra trás.
Ouço o corvo de Poe e enlouqueço:
Nunca mais... Nunca mais... Nunca mais...


Sobre Cheiros e Despedidas
Débora Mitrano
Há um cheiro de doença e despedida,
no fio dos meus cabelos.

Eles caem no ralo em fios grandes,
unidos uns aos outros
Há um cheiro de perfume velho no meu peito
e minhas terminações nervosas sofrem.

A floresta de uma só árvore significa minha solidão.
Os frutos caindo no chão é a dificuldade em chegar até mim.
A doença não me define.

As clínicas psiquiátricas servem para transformar pessoas em ratos de laboratório.

Meus cabelos não param de cair.
As despedidas nunca são anunciadas,
mas algumas são sentidas secretamente
no momento em que se são despedidas.
Gosto de escutar American Football
antes de dormir.
Never Meant.

4:28 de nostalgia.
Os remédios as vezes ajudam,
mas os pensamentos psicóticos continuam.
Bebo cerveja sem álcool para entrar na realidade.
O que é poesia?.
Senão a arte de esquecer.
Há um cheiro de despedida na minha casa,
ela fede a desilusão.

Um cheiro de despedida nos meus cabelos,
em que tua mão afagou.
Um cheiro de enfermidade nos meus vestidos.
Doença e despedida:
dois segmentos da mesma medida.

Poeminha final
Érica Cristiane
gente nova não deveria morrer
de nenhuma morte.
ainda mais tão nova
ainda mais tão gente.
com a morte na velhice, a alma se consola
quase que silenciosamente
como se aceitasse uma lei
que o coração já prevê.
mas com gente nova, não.
gente que mal começou a ver e ouvir a vida
e que nem conheceu todos os passos
de todas as danças
não deveria dar de cara com o fim
deveria ficar mais e passar por tudo que é da vida
obrigatoriamente.
e embriagar-se de loucuras secretas
e gozar de flores e estrelas no meio da madrugada.
gente nova deveria viver
em vez de ir descansar em paz.

(em homenagem a Rafaella Leoa, borderline #RIP2016)


Never More
Auta de Souza
                                                 A uma falsa amiga

I

Não te perdôo, não, meu tristes olhos
Não mais hei de fitar nos teus, sorrindo:
Jamais minh’alma sobre um mar de escolhos
Há de chamar por ti no anseio infindo.

Jamais, jamais, nos delicados folhos
Do coração como n’um ramo lindo,
Há de cantar teu nome entre os abrolhos
A ária gentil de meu sonhar já findo.

Não te perdôo, não! E em tardes claras,
Cheias de sonhos e delícias raras,
Quando eu passar à hora do Sol posto:

Não rias para mim que sofro e penso,
Deixa-me só neste deserto imenso...
Ah! se eu pudesse nunca ver teu rosto!

II

Ah! se eu pudesse nunca ver teu rosto!
E nem sequer o som de tua fala
Ouvir de manso à hora do Sol posto
Quando a Tristeza já do Céu resvala!

Talvez assim o fúnebre desgosto
Que eternamente a alma me avassala
Se transformasse n’um luar de Agosto,
Sonho perene que a Ventura embala.

Talvez o riso me voltasse à boca
E se extinguisse essa amargura louca
De tanta dor que a minha vida junca...

E, então, os dias de prazer voltassem
E nunca mais os olhos meus chorassem...
Ah! se eu pudesse nunca ver-te, nunca!


Não por mim
Nassary Lee Bahar
Há em ti um muro,
não pulo!
Há em ti um medo,
és inseguro em segredo
Há na carne e no pensamento
requerer e recusa a um só tempo
Há recesso, reticência e redoma
Mas não queres ser assim: bolha
Era tua: escolha
Era tarde para ti
Tarde e pouco
És louco... Não por mim.


O fim do mundo
João Cabral de Melo Neto
No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais. Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã
para lembrar a morte.
Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene.
O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final
ninguém escreverá
desse mundo particular
de doze horas.
Em vez de juízo final
a mim me preocupa
o sonho final.


Não quero ser o último a comer-te
Carlos Drummond de Andrade
Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.


Despedida
Cecília Meireles
Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.


Poema da Despedida
Mia Couto

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.



É Talvez o Último Dia da Minha Vida
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.


Canção Final
Carlos Drummond de Andrade
Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.

Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.

É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.

Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.

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