NOS OLHOS AS BRASAS

Um poema de José de Castro

Ser poeta é essa dor que não sara
Ferida aberta que não cicatriza
Oculto mistério, arcano, cabala
Roda que gira sem eixo, sem prumo
Nau a vagar pelos mares da vida
Sem destino, sem bússola, sem rumo
Feito argonauta das velas sem cais
Onde vais senão em busca da estrela
De brilho tosco, de rosto que chora
Lágrima de luz que reluz no horizonte
Ao longe, chama e queima o peito
De um jeito que não se pode explicar
Tristeza não é escolha, é destino
Poeta é menino sem mãe e sem pai
Sem teta, sem leite, nem berço tem
Órfão de tudo, sonho que se esvai
Borrão no espaço, traço sem traço
Aquarela sem tela, sem moldura
Fria escultura de pedra sabão
E no coração o sangue gelado
Das noites vazias em solidão
Ah, poeta, onde está o teu pouso
Na vala dos versos em que cavas
No desvão das palavras silentes
Ou nas tristes rimas que sempre calas?
Nem vento, nem eco respondem
Poeta é um tudo, o nada habitando
Nadando no surfe, esse louco turfe
Retinem os cascos, dura ferradura
Cavalgada de inferno onde as brasas
Ardem nos olhos e tisnam o céu.
(José de Castro, autor de “Apenas Palavras”).


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