PARA REFLETIR NO NATAL


TRÊS POEMAS DE NASSARY LEE BAHAR

Metáforas

É frágil como um enfeite natalino
É frágil como uma coluna comprometida
Como um ser que ainda não tem vida
É frágil, mas não como destino
É frágil como uma fada
cujas asas-manteiga pesam mais
muito mais do que os pensamentos seus
feito papelão ou castiçal de vidro

É frágil, é dolorido
feito nuvens no céu que se dissipam
feito as letras que se apagam
É frágil, muito frágil
e não sabe como ser cuidada
sem que se quebre, se desmonte, se desfaça

É frágil, enfadada e complicada
como tudo o que é belo e não se alcança
Nunca se alcança por completo
Nunca é teto
É simplesmente desintegração
Parte a parte do corpo
Uma atrás da outra
Vez por vez
Até que se torne vento

É frágil como crepe, algodão
Inexistente, delicada
Irreconhecível, nada humano
Plenitude sem matéria
desintegrando-se, enfeitada


Jantar de finados

Vi outra vez uma dor que conheço bem
Tão intensa
Tão estranha
Tão tamanha
Afundava igualmente em mim
Quantas vezes eu também já me maldisse?
Quantas vezes eu também quis não existisse?
E senti arranhar-lhe sem fim
E vi mesmo só uma dor que neguei
Naquele triste olhar: o meu maior conforto
Naquele peito vazio: o meu eterno alimento
Quis compartilhar nossas revoltas!
Vi-lhe lavando os pratos com suas lágrimas
Antes de vê-los limpos, secos, raspados (como nós)
Quis tomar um copo, pouco que fosse, de sua angústia
Esmurrar e não "bater" (como talheres)
Quis entender tanta coisa...
Por que ele sentou - comeu - e saiu?
Por que ela chorou - parou - e sorriu?
Para que vomitar nossas mágoas?
Se os restos nem mendigos querem?
São restos humanos
Recolhe-se a mesa
Recolhe-se a insignificância de sempre
Estica-se a toalha
Esticam-se as mãos para se agarrar com força
A barriga cheia
Tudo volta ao normal!


Cristal

O trabalho, quando bem concluído, cristalizado está.
As lágrimas, quando não mais participam presas da agonia no peito,
cristalizadas ficam no rosto.
O amor, quando mais forte e intransponível de obstáculos,
deixa de ser um cristal frágil. Vence!
A amizade verdadeira é um cristal precioso; uma jóia, que ao contrário do amor,
primeiro é forte, uma rocha, antes de arrebentar ao peso da discórdia.
A vida é um cristal pequeno e divino nos braços de uma mãe.
A vida, quando ultrapassa o aconchego do leite, é um cristal maravilhoso.
O qual temos medo de lapidar com erros, transformando-o em proveitoso leito.
As palavras belas, e com forças de leis, são cristais ao vento e aos corações com ouvido.
Os corais, fortalecendo as profundezas num tapete de abrigo colorido, são cristais...
A liberdade, sem mais, é um cristal no meio das escolhas.
O pensamento, livre, cristaliza nossas emoções, sentimentos.
Os enfeites natalinos, frágeis como cristais, são o que dão vida ao verde.
O perdão, quando maduro, é um cristal autêntico.
A rocha, como aquela velha amizade que concretiza cristais entre as pessoas,
Também reúne cristais de minerais no meio da Natureza.
A alma cristaliza em si o conjunto de pedras de tudo aquilo o que somos
como num colar de contas sem fecho.
O açúcar, quando cristalizado, é ainda mais doce...
A infância é um cristal de açúcar.
A saudade? Estou aqui do teu lado agora.
Mais presente do que um buquê.
Cristalizo em pétalas de boas lembranças.

Nassary Lee Bahar

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