BRUXA • UM POEMA DE NASSARY LEE BAHAR



Nunca vi ninguém subir
no alto do meu mastro,
já com o prumo erguido,
e abrir as comportas
do meu lítio aquecido,

puro como a magia branca da pagã
de Salém à minha sorte enlouquecida,
pra descer o seu mais soberbo feitiço
barragens adentro do sabor de mim.

E invocar a poesia inflamada do meu corpo
pro oitavo chakra de outubro
no vão negro do tempo pararelo
ao som de saz, sombras e uivos da noite.

Nunca vi ninguém me envergar assim
com o ritual de uma tara absurda
em tapetes de Hareke e Kayseri
e me fazer gemer o indizível;
o impronunciável;
o incurável;
o pervertido...

E me sugar o sangue sujo do pecado,
como se de mim chupasse o sugo rubro
da romã frutada no outono,
escancarando os portais do meu coração de pedra.
E me fazer pular o meu próprio langor
na fogueira febril de Nevruz. 

Ah! Quem dera a deusa que me seduz. 

Mas não! Ela é uma bruxa do amor.

Nassary Lee Bahar 

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