DOMINGO É DIA DE PESCAR ASSOMBRAÇÃO (UMA LEITURA DE ANA CLÁUDIA TRIGUEIRO)


Por José de Castro

Acredito que muitos amigos e amigas tenham uma enorme fila de livros à espera de leitura na prateleira. Livros que, aos poucos, vão se acumulando em face a visitas a livrarias, sebos e, principalmente, a lançamentos literários que, ao final do ano, costumam se avolumar, pois os autores querem ver suas obras lançadas antes do período das festas natalinas. Assim, quem sabe, seu livro possa ser útil nas confraternizações de fim de ano, nos amigos secretos,  ou como presente de Natal?

Num domingo qualquer resolvi, então, que seria a hora de diminuir essa fila, pois os domingos costumam ser propícios à leitura. Comecei a olhar a prateleira, passando por alguns dos títulos. Qual seria o escolhido do dia? Havia muitos de poemas. Mas senti que estava na vibe da prosa. Percorri lombadas de romances, novelas e crônicas. Acabei adiando-os por mais algum tempo e escolhi um de contos. Confesso que aquele livro estava me suplicando para ser lido desde quando o adquirira, semanas atrás. Conhecia já a autora, por quem nutro especial admiração. Dela, havia lido dois romances. E os havia apreciado bastante. Então, senti que estava na hora de encarar “A ira de Judas – contos assombrados”, de Ana Cláudia Trigueiro (Natal: CJA, 2018, 135 p.)

Lembrei-me que tinha até uma foto do dia em que recebera o autógrafo da autora. Eu e ela ao lado do banner com da capa do livro, na qual Judas nos ameaça com sua bocarra cheia de dentes, pronto a estraçalhar o que vier pela frente.

Comecei a leitura pela manhã e a interrompi perto do meio-dia para almoçar fora. Não com o intuito de fazer marketing, mas para causar inveja, revelo que fui ao Mina D’Água - comida mineira -  que fica em Ponta Negra. Depois de saborear as iguarias das Gerais, incluindo a sobremesa de doce de cidra com queijo meia cura, voltei para casa. Então, retomei a outra degustação, iniciada pela manhã, a qual não larguei mais enquanto não cheguei à última história. Aliás, mesmo depois de chegar ao final, para minha alegria, o livro não terminou: ainda prosseguiu, trazendo textos “Extras”, um brinde especial ao leitor.

Assim como a autora, que revela nos “Extras” a sua paixão pelas obras de ficção extraordinária, eu também aprecio esse gênero em suas várias modalidades. Sempre gostei de Edgar Alan Poe e Stephen King, para citar apenas dois autores. Lobisomens, vampiros, suspense, mistério, terror, tudo isso me encanta. E encontrei uma boa amostra de quase tudo o que assombra nesse livro de contos. E narrados numa linguagem que traz, aqui e ali,  a marca da fala nordestina, pois a maioria das histórias é ambientada em lugares facilmente reconhecidos na geografia potiguar por todos os que vivem por estas bandas, mesmo que os locais tenham sido levemente disfarçados em seus nomes. Mas aparecem também cenários da França e da Crimeia e alguns que a autora deixou em aberto para que a imaginação do leitor os localize onde quiser. Como exemplos de lugares mais conhecidos tem-se o “Lajedo da Saudade”, que foi inspirado no sítio arqueológico “Lajedo de Soledade” da Chapada do Apodi/RN; a “Praia Vermelha”, que é, na verdade, a “Praia de Ponta Negra” (Natal/RN), como explica a autora nos escritos extras, ao final do livro.

A familiaridade demonstrada pela escritora com os ambientes onde se desenrola o novelo das histórias, através de uma riqueza de detalhes, dá vida à obra e confere consistência ao que é narrado. Por outro lado, e talvez devido à sua vivência na área da psicologia, as personagens são bem caracterizadas em seu perfil e em seus traços pessoais. Imagino que algumas delas são meio que baseadas em desejos ocultos da própria autora - mas confessos nos extras - como a de ser arqueóloga, tal como a personagem Beatriz do conto “Os ossos do revolucionário”. Aliás, este foi um dos contos que mais me chamou a atenção, pois além de se inspirar numa figura emblemática da história do Rio Grande do Norte, André de Albuquerque, mostra a personagem central, Beatriz, como uma profissional apaixonada e inteiramente tomada pelo que faz, tal como a autora o demonstra com a literatura. Assim, a realidade imita a fantasia e vice-versa. 

Desse modo, fiquei impressionado com a magia de sua narrativa, ancorada em fatos históricos, em achados do seu baú de escritora/pesquisadora, que consegue, com mestria, mesclar realidade e ficção.  A maneira com que as histórias são montadas revela a arte de quem sabe dosar o momento exato de revelar ou de esconder, de sugerir. Tudo isso contribui para uma leitura agradável, pois nada é gratuito na obra: detalhes ganham importância e intrigam o leitor, como, por exemplo, o desafio lançado para que se descubra quem personifica o lobisomem de um dos contos. 

A autora se mostra, antes de mais nada, alguém que tem um olhar atento, contemporâneo e que sabe construir personagens – diga-se de passagem, uma boa galeria deles -  e tem um jeito especial de conduzir o fio da narrativa com o requinte descritivo dos cenários e a localização dos acontecimentos contextualizados em diferentes épocas (Século XVIII, 1930, 1980 e  1990, por exemplo).

Ao final do livro, o leitor fica ainda mais grato à autora pelas revelações de algumas particularidades de influências nessa obra, principalmente de autores como Stephen King, Conan Doyle, Oscar Wilde e até mesmo inspiração advinda de seriado da Netflix. A explicação da gênese  de cada conto serve como leitura suplementar que enriquece sobremaneira a obra e mostra o cuidado e o compromisso da contista com o seu ofício. São curiosidades que permitem o estabelecimento de uma certa cumplicidade do leitor com a escritora. Com certeza, esses textos adicionais serão muito úteis, principalmente para o caso de a obra vir a ser estudada em escolas, respondendo a prováveis indagações de mestres e alunos, ao mesmo tempo em que servem como guia de leitura. 

Gostei de todos os contos, mas faço um destaque para três deles: “O fantasma do edifício 21 de março”, “A encruzilhada do diabo” e “O estranho cemitério de Serrote do Junco”.

No primeiro, chamou-me a atenção a inusitada solução encontrada para o desfecho da história – do qual não vou fazer spoiler - que traz à baila fenômenos interessantes à moda dos “poltergeists”, com uma certa dose de leveza e até mesmo de bom humor no enredo. Encontrei alguns traços da autora na sua personagem Andreia, escritora, que gosta de ler Quintana e Drummond, além de estar determinada a escrever uma história infantil. Delicioso o diálogo que a personagem mantém ao teclar com um fantasma em seu notebook. Um conto para ser lido ao som de piano, preferentemente, para se entrar mais ainda no clima da história.  

Quanto ao segundo dentre os mencionados, trata-se de uma retomada dos famosos “tratos com o demônio”, narrado num cenário bem interessante e que mostra de forma instigante o duelo entre o bem e o mal, evidenciando a força e a importância da devoção aos santos. Um culto à fé e ao triunfo do amor. Neste conto, há muito de mágico no momento em que duas das personagens centrais vão fazer a invocação do demo, aboio cortando o silêncio da serra, acompanhado de gaita e viola. As personagens, todas elas, são apaixonantes e emblemáticas, havendo uma certa dose de ironia no fato de um padre estar ali naquele cenário, ele mesmo um dos protagonistas daquele tipo de pacto. Ao aboio segue-se a cantoria dos versos de uma das músicas de Zé Ramalho. Há uma sucessão rápida de acontecimentos inesperados que deixo à responsabilidade do leitor descobrir quando estiver com o livro nas mãos. Adianto apenas que saboreei cada linha dessa narrativa, incluindo a própria descrição dos dois duelantes finais, o cramunhão e a santa, com pormenores que mostram bem o domínio da autora na construção de personagens.

Já o terceiro conto aqui destacado, “O estranho cemitério de Serrote do Junco”, nos delicia com um elenco de ressuscitados, os mortos que voltam à vida, suas peripécias e os novos desfechos do destino desses redivivos. O conto tem uma certa pitada da obra de Veríssimo (Incidente em Antares) e, com certeza, poderia facilmente virar uma novela, tal a riqueza das personagens apresentadas e todas as possibilidades de desdobramentos que elas ensejam. Sem contar com o final do conto, que sugere nova onda de inusitadas ressurreições na pacata cidade serro-junquense. Meus olhos de leitor pediam que a história se estendesse mais.

Posso dizer que todos os onze contos mereceriam algum comentário. Por exemplo, o “A escadaria de Vorontsovisky”, lembrou-me um pouco o estilo da escrita de Marina Colasanti em seus bons momentos de prosa, quando ambienta suas personagens, geralmente príncipes e princesas, em ambientes requintados como o faz aqui a autora, colocando Erina a se deslumbrar com o “salão azul”, todo em turquesa, “com centenas de flores brancas”, lareira de  mármore, “piano de cauda com incrustações em dourado”, o mágico cenário a que a escadaria conduz. Porém o espaço aqui não permite tantas louvações quanto gostaria de fazer. Destacar um ou outro conto não significa desmerecimento aos demais, uma vez que o objetivo deste texto é apenas o de despertar no leitor a vontade de conhecer uma contista potiguar de relevo, que merece ser lida, relida, estudada e divulgada ao máximo que se puder. Não é todo o dia que nos deparamos com uma escrita tão convidativa, agradável e consistente, tanto na forma quanto no conteúdo. Escrever contos é uma arte. E, sem dúvida, bem dominada por Ana Cláudia Trigueiro. Fico, então, na expectativa de que ela continue a escavar - como a sua personagem Beatriz -  camadas após camadas de seus guardados no baú, de onde sairão, imagino, não só outros contos extraordinários, como também novos romances, novelas e livros destinados à faixa infantil e infantojuvenil. Serão presentes que eu, particularmente, aguardo ansioso.

Confesso minha alegria em perceber que existem domingos, livros e autoras desse quilate que nos fazem viajar e nos encantam com a força e a magia de narrativas tão singulares como as que encontramos nessa obra publicada pela CJA em 2018.  Com certeza, um livro que faz história dentro do gênero conto, representando um dos bons momentos da literatura que se pratica hoje no Rio Grande do Norte. Recomendo a leitura, com algumas estrelas. Aliás, com uma constelação.  Aqui existe brilho. Está feito o convite.

*José de Castro, jornalista, escritor, poeta e autor de livros para crianças (A Marreca de Rebeca, A cozinha da Maria Farinha, Poemares, Vaca amarela pulou a janela, dentre outros). E autor de livros de poemas para adultos (Apenas palavras e Quando chover estrelas). Membro da SPVA/RN, UBE/RN e da ALACIB/Mariana /MG. Contato: josedecastro9@gmail.com


A IRA DE JUDAS – contos assombrados
Ana Cláudia Trigueiro, Natal: CJA, 2018, 135 p.


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