A POESIA DA SAUDADE



Um dia para lembrar com mais apuro a poesia do VELHO CHINA, de HELOISA GALVEZ, CAITO SPINA e ÂNGELA OITICICA, BENTO CALAÇA, ÉRICA CRISTIANE e MÚCIO GÓES

ENGANOS
VÉIO CHINA
A dor se manifesta, mas não se imprime
Em tonalidade de lamentos, ou se lança
Ao calor dos beijos que passado refuta
Ou aos murmúrios cálidos de um amor
Que muitos sabem, desabou fracassado

Dores não se alardeiam ou partilham
São solitudes pactuando penitencias
Ao silêncio das paredes dum quarto
Repleto de roupas, livros, cobertores
Cúmplices mudos à ordem dos fatos

Assim é a dor; um eterno desafio a autoestima
Privilegiado aquele que por ela se sentir tocado
Pois paulatinamente sem notar, os insensíveis
Amargam-se abandonados como um cão vadio
Refém da rudeza duma vida onde não há afago

Logo, dor maior é aquela que nos trancafia na redoma das inverdades
Nas mentiras ditas por nós aos nossos olhos encharcados de poeiras
A vislumbrar ansiedades que persistem, mas recusam o arfar do peito
Na farsa consentida pelo coração que ao tempo transformou cúmplice
O pulsar cruel e disrítmico diante a fragilidade nostálgica das emoções

Copirraiti17Mai2014


DO MEU LADO
CAITO SPINA
Nada mais lícito
Que teu querer tão lúcido
E assim tão justo
O teu desejo puro.

E no meu mundo
Esse olhar noturno
E o teu contorno
Sobre meus dedos finos.

Corre em teu corpo
Meus lábios tão sedentos
E no meu peito
Esse amor imenso,

Que até penso
Que ainda estou sonhando,
E amanheço
Contigo do meu lado.


ÁGUA
HELOISA GALVEZ
E sendo água, sou tudo e nada.
Oceano que ameaça o planeta.
Rio que leva embarcações,
transporto sobre mim, cartas, pessoas, esperanças...
Repousam em meu leito, espíritos de afogados que formam ali seu clã.
Assim me transformo em inferno e paraíso.
Morte e vida.
Sou vida, quando sou chuva,
Mato nas tempestades,
Salvo quem morre de sede,
Mato quando “explodo” as barreiras, que prendem: Eu Represa.

Sou Água
A Lagoa das lavadeiras
O Esgoto de imundos dejetos
Sou passiva, sou nociva,
Necessária, corrompida,
Todos têm muito de mim...
Ninguém tem tudo que sou.

Sendo água não sou porto,
Eu nenhum lugar me encontro
Se me prendem, evaporo...
Se me soltam, seco e morro.

Mas renasço em cada lágrima,
De dor, de alegria,
Acolho ecossistemas, escrevem coisas sobre mim,
Contemplam minha beleza, me execram, amaldiçoam...
E assim eu venho e vou
Subo, desço,
Mato e salvo,
E nunca Sou.
Porque sou Água.


FIRMAMENTO
ÂNGELA OITICICA

lógica longínqua
num gesto
ocorre
a evolução de um firmamento
abotoado e até grudado de
impressões
carrega sofismático
bandalheira
dor
alegria
prantos de dúvidas
lustres de gargalhadas
novenas de perguntas
partidas sem serem convidadas
chegadas enevoadas
enxuga o tempo
levantam folhas
em currupio ao vento
e eu o homem
a mulher
o que faço nisso
estrago? planto?
modesto pranto
duvidoso aceno mais uma vez
pergunto
o que faço nisto
insisto
não penso
já não creio
e no entanto
carrego eu
um firmamento
mas, olho o do outro
se tenebroso gasoso
aromático
(será cheiroso)
o meu se expande em um outro
longe
e eu então viro de costas
sem encontrar o meu
pertence a outrem
(será belo)
será este firmamento
um pacote lembrando
nuvens dobradas
amarrado por um cordão
de estrelas
caído em laço
me lastimo passando
a limpo
o firmamento de outro eu
que não é o meu


DIÁRIO DE UM NÁUFRAGO
BENTO CALAÇA

O mar visto da pedra onde estou
transborda pelas manhãs
de peixes e pássaros

não eram minhas as mensagens
que recebia em garrafas na praia
mas com o tempo foram sendo...
fiz verdades em garrafas de outros.

Eu, que nunca tive um Deus
com quase meio século
descubro ser o meu Deus
o mar.
Temperamental e traiçoeiro
às vezes manso como um cordeiro
dissolve-se em sal no azul do céu
enquanto gaivotas, voam penas
feito folhas.
Ateei fogo ao passado
para dormir em travesseiros de cinzas
e da ilha dos sonhos
nunca mais voltar
Engolido pelo pôr do sol


ANTROPOFAGIA
ÉRICA CRISTIANE

Centímetro por centímetro
degustas.
consomes lentamente,
com todos os teus quatro sentidos,
minha pele esbranquiçada
e meus pelos eriçados.

Correm os teus dedos por toda que sou,
tuas mãos me decoram
numa escuridão que eu não percebo.
prova meus poros
intempestivamente.

E já que tua língua te revelou
minha alma, minha matéria e o resto que teus olhos não veem.
e já que arrancaste
pedaços do meu corpo,
e preparaste a carne
com teu enigma de esfinge,
agora devora-me
matando tua fome.

Começando pelos pés.


A VERVE DE MÚCIO GOÉS

converso com versos,
a poesia é o trem
em que me expresso.


meu coração
é líquido correndo
nas artérias do poema.


quando
medito
me edito


a moça
que dança ciranda,
folia na borda
do poema.

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