TRÊS POEMAS/TRÊS POETAS

     Nesta série com Cristhina Rangel, Claire Feliz Regina e Nassary Lee Bahar

Língua
Cristhina Rangel
-

O santo sacrifício de sangrar as palavras
sobre a dura tábua das interpretações.
Ser poeta é criar combustão quando nos falta oxigênio
Criar uma colisão entre as palavras santas e pagãs
Afazamada sorte de criar caos interiores
Esperando d'algum deus piedade
Pelas barbáries cometidas quando as paixões estão em guerra
Pela quebra da paz, da continência
Pelo atrevimento que há em ser poeta
Escrever é o exercício de resistência
Que contraria os adágios
Pois com esse ferro, nem todos saberão ferir-me
E ao golpe na fronte a que me atrevo
Por hora eu sei que não será compreendido
Escrevo impiedosa, releio irônica
Seviciando  a língua no papel
Como se fora apenas uma marca de batom.


Pedras na barriga
Nassary Lee Bahar
-

Da nicotina que ficou no casco,
a maior impotência que senti
se chama embaraço.
Nó de garganta – ardi.

A saudade tua me manteve presa.
Renegando ao peso das pedras.

Sigo.

A ciência que ali dentro existe: surpresa!
Moléculas, tu procuras, só vejo as “quebras”.

Fisgo:

te peguei.
E na barriga puxo pelo teu braço.
Enfiado por desespero do que sei.
Embaraço só vira cansaço...
Meu bem, depois que gozei.

Se vida, pedras fossem,
minha impotência de ti desvalidaria.
Nós de tua garganta, cuspam a todas as fossas!
Aquelas que fazem de ti brujería.
Há bueiros que pedras de dor não entupam?
Por que, então, tu não queres engolir
...o que “rochas” já não me engra-(rimam)?
Permaneço forte; estás travado a colidir.

/// Barriga e refluxo ///

Cuspa, cor, eu depredo.
Vomite, amor, eu engulo.
Despeje, calor, eu procuro.
Engula, dor, eu carrego.


Pílulas da vida
Claire Feliz Regina
 -

Quando eu nasci, tomei
A pílula da minha vida.
Era verde, cor da esperança,
tudo ia ser sempre lindo,
no meu sonho de criança.

 Logo depois, veio
a pílula da ilusão
 iluminando o meu ser,
de longe tão iluminada,
mas uma luz não alcançada
que apagou o meu viver.

Tomei outra, a pílula da emoção
que, dentro de mim,
não viu mais nada,
pois, de tão emocionada,
se perdeu na imensidão.

Aí tomei a pílula do amor,
que era toda colorida,
coloriu a minha vida,
mas depois perdeu a cor.

Veio, então, a pílula da solidão,
tão desprovida de cor,
deixou-me percorrer sozinha
o caminho da minha dor.

Enfim, tomei todas as pílulas
que, para mim,
Deus havia prescrito,
inclusive a da alegria e da felicidade.
Mas só sobrevivi porque tomei,
ainda que à força,
a pílula da humildade.

Finalmente olhei no vidro
era a última,
sua cor era amarela,
nela nada estava escrito. Tomei.
Sabem o que aconteceu?
Não sei se por azar, ou por sorte,
fez-me ir, bem de mansinho,
caminhando para a morte.
         (Pensei que era o meu fim.)

Pois vi meu corpo ser jogado
na sepultura,
mas um divino arremesso,
jogou minha alma para o além.
Não era a pílula do fim,
era a do recomeço,
          já que fim o homem não tem.


2 comentários:

  1. Estar na Revista de Ouro é um luxo. E mais emocionante ainda é estar com Cristhina Rangel e Nassary Lee Bahar duas poetas admiráveis. Obrigada Radyr.

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