Burka moderna


Um poema de Nassary Lee Bahar

Ela vive hoje coberta sim.
Mas não é de panos, nem de véus, nem de ritos, nem de leis.
Ela vive coberta de sangue e horror e dor e balas.
Coberta de medo e violação e tolas falas.
Ela ainda vive coberta pelo desprezo e a diferença.
O estresse, a sobrecarga de trabalho, a ansiedade.
Ela vive com o corpo escondido sim, mas é da liberdade.

Até quando? Quantos panos mais?
Quantos pratos limpos? Quantos prantos a mais ?

Às vezes, ela só queria deitar no chão sem ser por morte e respirar.
Trocar as vestes vencidas pelas pelejas repetidas, um pequeno luxo.
Muitas vezes, ela só queria ser ela mesma, mas isso parece um abuso.
Ela vive ainda coberta de: “Isso pode e isso não é certo!”
Coberta pelo peso de carregar os filhos num caminho reto.
Ou vive o peso da cobrança pelos filhos que sua condição não deu.

Ela vive coberta de preocupação.
Tem dias que não come. Tem dias que não dorme.
Ela nunca para. É uma máquina (do tempo e de luta).
E se dorme – exausta – já nem sonha, não escuta.
Arregala os olhos de existir apenas, presos na burka.

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