A verve de Mô Ribeiro


Três poemas da poeta mineira Mô Ribeiro

Ampulheta

quantos pontos
são necessários
para estancar
o sangue
de quem se corta
com os cacos
da ampulheta?

quantas pinças
são necessárias
para tirar
do sangue
a areia do tempo
que escapou
da ampulheta quebrada?

quantos anos
sofridos
são necessários
para que não se quebre
a ampulheta?

a ampulheta
é por si
torta, trincada
mal lacrada, vazada.


Fotogênesis

A minha fotografia mente
o meu olhar.

Não há as corrugas
do chapisco,

nem sequer a cor que vejo
dos riscos que contam
da chuva que choveu.

Não há fidelidade
na oxidação fotografada.

A câmera não mostra o ar que
belamente
pintou sardas no metal
que parece o telhado
sustentar.

Será?
Será que sustenta?

Os verdumes?
Deles nem falo.

Minha fotografia?
É mentira pro meu olhar.

Talvez um dia eu possa aprender
A fotogenar.


Já que não sei fotografar

uma nuvem gigante traça um plano cinza-escuro no céu.
acima, o breu e a lua:
ela adornada com seu halo também plúmbeo
ela partida ao meio.
algumas estrelas
. talvez mortas, para mim vivas .
fazem a escolta
falsa imóvel.
a terra gira
mas tudo parece parado.
apenas meus cabelos e as plantas e minha saia provam
que o ar hoje quis correr.
sob o pseudônimo vento
ele canta
com seu timbre indefinível.


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