MANOEL DE BARROS:


 MEMÓRIAS INVENTADAS PARA  CRIANÇAS por JOSÉ DE CASTRO
A editora Planeta publicou, em 2010, um belo livro no formato 21 x 28, capa dura, contendo alguns textos do poeta pantaneiro Manoel de Barros. Trata-se de uma coletânea de dez crônicas retiradas de sua obra “Memórias inventadas: as infâncias de Manoel de Barros”.

Os textos vêm acompanhados de belas iluminuras criadas pela única filha que lhe restara ainda em vida, Martha Barros. Seus dois outros filhos homens já haviam falecido. Restava-lhe a esposa e essa filha que desenha tão bem.

Neste livro vê-se a nítida marca de um autor inventivo, bem-humorado, de bem com a vida. E mostrando toda a beleza de sua “criança interior”, olhos atentos às coisas miúdas, aos detalhes que parecem insignificantes, mas que recebem uma magnitude que só um coração e uma alma grande podem enxergar.

O primeiro texto, “Escova”, mostra o autor se comparando a arqueólogos que ficavam o dia inteiro “escovando osso”. Só que o seu ofício era o de “escovar palavras”. E confessa que escovava as palavras na tentativa de ir atrás dos clamores antigos escondidos nas palavras. Uma bela analogia, sem dúvida.

“Minha mãe me deu um rio.” Assim começa a segunda crônica do livro. Quem não haveria de querer ganhar um rio? Eu, na minha infância, também tive um rio. E uma montanha. Tudo isso lá em Minas Gerais. Hoje, desses dois, resta-me a lembrança. E o autor mostra que sua mãe prometera ao outro filho, de presente, uma árvore coberta de pássaros. Verdade ou mentira, não importa. Mas ele mesmo costuma dizer que “só dez por cento é mentira... o resto é invenção”, como está registrado na sua “desbiografia oficial”.

“Fraseador” é um texto que resgata o dia em que ele faria 95 anos (encantar-se-ia dois anos depois, com 97 primaveras cheias de pássaros). Aquele foi o dia em que ele escreveu uma carta aos seus pais dizendo que não queria ser doutor. Queria mesmo era ser fraseador. O pai tinha dúvidas. A mãe também. O irmão não apoiava muito a ideia. Enfim... O que ganha mesmo um fraseador? Ninguém costuma valorizar os que lidam com a palavra. Mas Manoel de Barros, felizmente, seguiu seu destino de brincar com as palavras e extrair delas muito mais que dinheiro: vida, razão de ser, beleza, encantamento. O que mais a gente precisa para ser feliz?

O texto que se segue, no livro, é “O apanhador de desperdícios”. Um texto primoroso. Na verdade, um poema. “Uso a palavra para compor meus silêncios.” Confessa que foi aparelhado para gostar de passarinhos. Afirma que seu quintal é maior do que o mundo. É um texto profundamente confessional, que investiga a fundo todo o jeito simples de ser do poeta que dá “respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.” Termina o texto fazendo uma crítica à atual sociedade tecnocrática:  “...eu não sou da informática: eu sou da invencionática.” Assim era o pequeno/grande Manoel de Barros.

Em “Delírios” o autor prossegue no seu trabalho de mostrar toda a sua capacidade imaginativa, um pensar que não tem limites. Quem já imaginou uma “tarde correndo atrás de um cachorro.”? Nesses delírios ele se lembra quando disse à sua mãe suas impressões sobre um sapo: “Sapo é um pedaço de chão que pula.” É claro que sua mãe não concordou com aquela definição. E o poeta se lembra que, mais tarde, relacionou esse seu delírio às palavras do Profeta Jeremias. Ao contemplar uma Sião destruída pelo fogo ele afirmara que “até as pedras da rua choravam”. A verdade é que, de delírio em delírio, Manoel de Barros construiu uma obra monumental que é um culto a esse entrelaçamento entre a realidade e a fantasia. Um eterno sonho de menino acordado para a vida.

O texto seguinte, “Brincadeiras”, desvenda o menino que brincava mais com as palavras do que de bicicleta. Até porque, confessa, não tinha bicicleta. E mostra essa brincadeira à luz das ideias – ou da falta de ideias – do amigo dele, um índio guató que vinha brincar com ele e o irmão. A questão é que Cipriano, o índio, pensava como árvore. Um amigo que tinha mais “predominâncias vegetais do que platônicas”. Feito o próprio Manoel. Que tinha sonho de ser árvore ou passarinho. Conseguiu ser um pouco de cada um deles. Tanto assim que, pra mim, Manoel de Barros não morreu. Passarinhou.

E o livro prossegue com “O lavador de pedra”, rememorando o lugar onde morava, o patrimônio de Pedra Lisa. O lavador de pedra era o seu avô, que recebeu esse apelido devido ao cuidado que tinha com uma pedra localizada no meio do rio. O avô foi um grande incentivador de Manoel no seu ofício de “fraseador”, pois tinha a sabedoria de afirmar que “Os andarilhos, as crianças e os passarinhos têm o dom de ser poesia. Dom de ser poesia é muito bom!” Quem teve um avô com essa sensibilidade não poderia desaguar em outra coisa que não fosse poesia.

“Peraltagem” é a antepenúltima crônica. Discorre sobre a inutilidade das brincadeiras das crianças e da preocupação dos pais no sentido de que os filhos sejam alguma coisa na vida. E não fiquem apenas “lesando” por aí. A mãe do poeta vaticinou sobre ele: “esse menino vai passar a vida inteira enfiando água no espeto.”  Fez muito mais que isso. Alguém que nos alumbra quando diz com propriedade:  “Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina.” E a luz de sua poesia continua nos alumiando. Sempre, sempre.

Quando percorremos os olhos sobre o texto “Sucata”, já começamos a nos inquietar, pois o livro está chegando ao fim. E não queríamos que assim fosse. A gente queria um livro de jamais acabar. Nesse texto ele filosofa sobre o destino de tudo o que homem fabrica. Tudo vira sucata. Tudo vira traste. “Só  o que não vira sucata é ave, árvore, rã, pedra. Até nave espacial vira sucata.” E os olhos do poeta, à moda de Salomão que contemplava a beleza dos lírios do campo, se debruça sobre a garça branca do brejo: “...mais linda que uma nave espacial.” E pede desculpas por cometer essa verdade. Simples assim.

Então, chega-se ao último texto: “Lacraia”. Aqui o autor mostra a similitude entre um trem de ferro e uma lacraia. Uma lacraia parece um comboio.  Mas ambos têm de comum só mesmo a aparência. Pois um trem, quando descarrila, não tem a mesma capacidade de se recompor como uma lacraia. Ele confessa o espanto que teve ao ver os pedaços de uma lacraia tentando se juntar. E ali os olhos do poeta menino viram a força de Deus. A força da natureza que é vida querendo se refazer a todo custo. Ele diz que, anos mais tarde, inspirado naquele incidente da lacraia escreveu o verso: “Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.”

Atônito. É assim que fica o nosso olhar diante de tanta beleza contida nas obras de Manoel de Barros. Um poeta excepcional, que soube extrair o sumo e a essência das coisas que aparentam ser as mais insignificantes e as mais desimportantes da vida como sapo, rã, pedra, árvore, rio e passarinho. Mas que na sua escrita recebem a bênção da grandiosidade que merecem.

Essas “Memórias inventadas para crianças” são textos que podem ser apreciados também por gente grande. Como forma de alimentar a criança interior que todos trazem em si. Uma leitura para ser feita sem pressa, curtindo cada palavra, cada frase. Como se fosse o sopro de uma brisa mágica que traz toda a inocência do menino Manoel, o poeta passarinheiro do pantanal.

(José de Castro, poeta, escritor. Mestre em Tecnologia da Educação. Autor de literatura infantil)

Um comentário:

  1. Que maravilha de resenha amigo poeta. Esse livro não tenho, tenho dois do autor, gosto demais e é mesmo como vc disse: a poesia de Manoel é pra ler sem pressa, reler, comer, brincar e refletir como quem sente a brisa toda sua poesia

    ResponderExcluir