DÉBORA MITRANO


A verve efervescente  da Poeta carioca DÉBORA MITRANO na Série Poetas da Nova Era
Minha cabeça é um vaso de flores mortas
.
Mais uma vez choraremos enquanto folheamos revistas de decoração.
Mais uma vez comeremos e fumaremos buscando um novo seio materno.
Mais uma vez estaremos descalços e famintos,
embaixo das pontes de nossa mente.
Mais uma vez a loucura é tudo o que teremos.
Mais uma vez as nossas crises servirão para nos curar.
Mais uma vez iremos querer viver nos bosques,
assim como o Thoreau em " Walden ".
Mais uma vez assistiremos Arte 1 e ficaremos profundamente emocionados.
Mais uma vez guardaremos as estrelas nas cumbucas.
Mais uma vez faremos sexo através das telas dos computadores.
Mais uma vez os nossos peitos vazios esperarão o sol nascer.
Mais uma vez sonharemos com a Sylvia Plath com a cabeça dentro do forno, pronta para morrer.
Mais uma vez comparemos talheres,
vasos de porcelana,
abajures
e flores artificiais.
Mais uma vez nos molharemos e nos queimaremos,
para confirmar se ainda podemos sentir.
Mais uma vez tudo nos acometerá por inteiro,
nos assaltará,
nos subtrairá,
nos rasgará
por dentro e por fora, assim como papel sulfite,.

E se morrermos,
não chore não,
é só poesia.

Eu pude sentir o cheiro dos teus fluídos naquela fotografia.


A língua roxa fedendo a vinho.

A manta exalando amaciante.

No dia seguinte, a boca bebe água,
muita água.

A bunda lânguida senta no sofá.

O olho sequer chora.

Observo o meu tênis vermelho surrado e penso num breve instante que eu queria ser ele.

Ou um anel,
Uma lanterna,
um perfume,
uma instalação hidráulica,
e por que não uma privada?!.

Éramos virtuais,
Éramos tão afetuosos quanto um livro de aritmética.

Ele: tão frio quanto um jogo de jantar.

Fizemos sexo por fotos.

E eu me lamentava por ele não ter pintas no pescoço,
me queixava, pois assim eu não poderia brincar de ligar os pontos.

Coisa de gente apaixonada.

Você me entende, né?!

No fundo sabemos o quão acolhedor é sofrer numa cama limpa e cheirosa,
mas precisamos antes de mais nada limpar as nossas almas.

Todos os que amamos um dia morrerão


 A água barulhenta do chuveiro cai sobre o corpo travado.
 Você poderia dizer que ela me limpa,
 eu poderia dizer que ela me suja.

 Todos os que amamos um dia morrerão.

 A gota fria da água do chuveiro cheira ao cadáver da minha  mãe,
 ela não me lavará.

 Aquele semblante de paz,
 aquele vestidinho branco,
 católico,
 acima do joelho.

 Sem batom,
 sem brinco na orelha,
 sem cordão no pescoço,
 mas com um sapato bonito.

 E as minhas lágrimas serão convertidas em vinhos.
 E colocarei mobílias vermelhas no meu quarto
 como na instalação do Cildo Meireles.

 O desespero do luto passará.

 Comprarei roupas nos brechós da cidade
 Comerei misto quente
 Farei sexo sem carinho
 Irei às exposições de arte
 Visitarei antiquários
 Lerei livros do Leminski.

 Todos os que amamos um dia morrerão
 e não há nada que o nosso Deus possa fazer.

 Serei comida pela lua
 e a minha substância psíquica fará ela brilhar cada vez mais.

Discurso sobre um interior despedaçado.
• 
Em madrugadas intranquilas,
entre baratas e garrafas velhas de vinho em volta da cama,
recordo-me que não sei o que fazer.

Qualquer lembrança desconcertante surge
e diz-me o quanto sou impotente perante as minhas emoções.

Meu pensamento dança entre facas eretas que me cortam
e agonizo futilmente a cada fim.

Eu já nem me lembro como cheguei até aqui.

Eu só queria desenvolver a faculdade de esquecer.
Esquecer a tua voz,
a tua expressão facial dura,
o teu niilismo crônico.

Pergunto-me onde minha serenidade se perdeu,
entre as indas e vindas,
um acúmulo de dores se deu.

Existe um alfabeto de incertezas dentro dos teus intentos.
Um desafeto pelas cousas que não sara.
Uma instabilidade que deixa teus pés atados pela doença emocional.

Eu abro a torneira das impossibilidades
e limpo o meu rosto,
mas a água se transmuta em sangue
e eu me sinto participante de um crime contra mim mesma.

O mito romântico ainda me matará.

Eu já cai e estou no chão,
escutando o som dos teus monólogos verbais exaustivos que rondam a minha mente
e causam-me desgaste emocional.

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