PAULO MIRANDA BARRETO


A magnifica verve de um dos melhores poetas desta geração. Leia a poderosa poesia do paulista PAULO MIRANDA BARRETO, na Série Poetas da Nova Era.

SORAIA SEREIA

‘’a vida é tão curta quanto a tua saia’’
mas, inda te enfurnas no quarto dos fundos
e segredas versos à uma samambaia
alheia a beleza de bilhões de mundos

que pairam no espaço infinito, Soraia
enquanto  teu corpo perfeito definha
enquanto  teu corpo moreno desmaia
de tédio na cama em que dormes sozinha. . .

à espera da morte, vives de tocaia
não sabes o nome da tua vizinha
se a lua está cheia, se o sol inda raia
ou se a humanidade rasteja ou caminha

e o que só deus sabe e ninguém adivinha
é o quanto te amo . . . te amo Soraia!
e tudo eu faria pra que fosses minha
moveria os montes de todo o Himalaia

mas, tu sequer lembras da força que tinhas
dos velhos amigos, da casa na praia
de nós vendo estrelas, catando conchinhas
sentados na areia e ouvindo Tim Maia. . .

lembro-me de tudo, de cada coisinha
das tuas blusinhas tomara que caia. . .
dos teus lindos brincos de água-marinha
de todas as flores que te dei,  Soraia

mas, agora o medo dentro em ti se apinha
te rói ,te espezinha, te prende à uma teia
e tu já não ousas . . .  não cruzas a linha
tu és prisioneira . . . e a própria cadeia

e a minha esperança morre . . . pobrezinha
poema de amor que não tem quem o leia. . .
peixe fora d’água . . .  sol que se esfarinha
e morre a esperar-te, Soraia . . . sereia.


DE POUCA FÉ

porque rasuro os azuis
e arraso os roseirais
e estilho o brilho da luz
e humilho os milharais?
Pai! porque meus olhos nus
decifram sinas, sinais
e despem mandacarus
e  revolvem areais?

porque é que encontro Jesus
nas esquinas, nos quintais
nos bares . . . e não na Cruz
ou dentro das Catedrais?

e, ai! se é Você que me conduz
em sonho às dimensões celestiais
porque é que não me mostra aonde pus
a fé febril . . .  que em mim, não tenho mais?


 VERSOS BÊBADOS

(mar de gim)

de vez em quando naufrago
num mar
                  de doses
                                     de gin

(lá no fundo, me embriago
                    só para emergir
                                  de mim)

e entre um e outro trago
           amargo . . .
           me estrago . . .   sim!

mas, me aprofundo
    me alargo
me ilumino
    viro um ‘mago ‘

e só ‘apago ‘
            no
                       fim.


CARLA

Carla cala calafrios
fotografa balbucios
despetala solidões

Carla inala desvarios
espinafra poderios
exala alucinações. . .

Carla encarna carnavais
Carla come canibais . . .
leva pra cama leões. . .

gera auroras boreais 
destempera temporais
e enfurece furacões. . .

Carla aniquila querelas
ela escangalha mazelas
ela cintila no breu. . .

mas, não lê minhas balelas. . .
minhas rimas requenguelas. . .
e nem sabe . . .  quem sou eu!


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