LILLY ARAÚJO


A verve intimista da goiana LILLY ARAÚJO na estreia da Série Poetas da Nova Era

A proposta

Eu topo!
Quando você existir, e insistir,
e persistir, e introjetar-se em mim.

Eu topo!
Quando você se diluir, assim,
quase sem conseguir continuar dono de si.

Eu topo!
Quando você topar se desconstruir,
e, Quimera, nos tornamos um,
para colher o porvir...


Distopia

Eu conheço os passos da dança,
mas piso no teu pé de propósito.
Eu conheço as regras do jogo,
mas adoro a infração a que me proponho
todas as manhãs.

Eu reconheço o seu xeque-mate,
mas viro o tabuleiro,
confundo todas as peças,
e ferro com tua cabeça,
só para sorrir à noite.

Eu conheço todas as lágrimas,
mas as escondo num vidro
com tampa fechada à vácuo,
e o pote só se quebra nas madrugadas,
onde eu não reconheço mais nada.


Das vezes de esperar

Vinte velas acesas para iluminar o meu sonho,
vinte vezes eu olho na tela do celular buscando em vão,
na aridez da descompostura da minha cervical
que me entorta todas as juras que nunca cumpro a mim mesma.

Pela vigésima vez, só esse ano, eu me embriago
de absinto e mel, como se o paladar
de qualquer um deles fossem-me a mesma coisa.

Vinte vezes eu olhei o horizonte na esperança de ver você chegar,
entre as brumas mal dormidas e sorrisos amarelados
desfeitos no brilhar de uma aurora boreal.

Vinte vezes ou um pouco mais,
e nunca, nunca em qualquer uma delas,
meu peito teve um instante sequer de paz.


Eu seria

Se eu não tivesse corpo,
eu me contentaria em ser a tua sombra,
a sombra da fumaça do teu cigarro,
a sombra da sombra da luz do flash em disparo.
A penumbra da tua felicidade.

Se eu não tivesse corpo,
me contentaria em ser teu dia claro,
tua noite fria, ou o teu agasalho.
Eu me contentaria em ser as cócegas
por entre os teus dedos dos pés,
e o vão do teu sorriso desproposital.

Se eu não tivesse esse corpo,
essa embalagem pesada e fútil,
eu seria o ar ao teu redor diuturnamente,
eu seria a tua lágrima expurgando tua dor,
eu seria teus gemidos de amor.

— Mas para que querer ser tanta coisa?
Eu só sou isto aqui que vejo:
um corpo esquecido na sarjeta do desejo,
um corpo seco, desumidificado pelos desacertos,
desencontros, descaminhos,
despalavras, precipícios, e o infinito..



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