Enquanto Espero Gabriel • Zulmar Lopes


São onze horas e ao sabor da corrida do tempo os carros silenciam noite afora. Os ouvidos já captam o tique-taque uniforme e monótono do relógio na parede da cozinha. É impressionante como os mecanismos dos relógios se tornam tão presentes, batucando em nossas cabeças quando estamos aflitas. Aflição: teu nome é Gabriel. Por onde andará aquele maldito que não volta para casa? Ora, Yolanda, na safadeza, onde mais? Você já está careca de saber que Gabriel é um ser da rua, com caráter forjado na bandalheira, nas noites furtivas de prazeres. Quem mandou abrigar-lhe em sua própria casa? Lembra-se que logo na primeira semana ele botou as manguinhas de fora e sumiu por quase dois dias? Que idiota eu fui, meu Deus! Vontade de me esbofetear por minha cretinice! Deveria ter ouvido mamãe, mas qual? Foi amor à primeira vista, mãe...
O tempo avança relógio adentro e nada do Gabriel. Meu coração descompassa em angústias. Cidade perigosa a que vivemos, sobretudo à noite. Aboleto-me na janela mirando o ponto da rua de onde ele costuma aparecer. Já perdi a conta das vezes em que o peguei subindo a ladeira com o seu gingado despreocupado, livre de culpas, tendo apenas como testemunha as bruxuleantes luzes da iluminação pública e a minha vigilância indignada. Ele passa por mim como uma nada houvesse ocorrido e se aloja em sua poltrona predileta. A seguir me encara com seus olhos dardejantes e parece sorrir por debaixo daquele bigode. Brigo, xingo, esperneio e ele ali, impassível na poltrona feito um rei em seu trono. Quisera eu que o cínico, o desalmado, estivesse agora a repetir este roteiro e eu pudesse dormir com ele aqui, na segurança de nosso lar.
Abandono a janela e sento em sua poltrona favorita. Quantas vezes nos divertimos aqui, juntos. Gabriel adora minhas carícias, sobretudo em suas costas. É capaz de ficar minutos, impassível, se deixando dominar por minhas mãos em seu dorso esquálido. Quase consigo contar suas vértebras quando desses contatos. Preocupo-me com a sua magreza mas Gabriel faz sempre cara de nem estou aí. Biqueiro, vive de beliscar. Refeições de verdade? Ele foge delas. Acaba anoréxico, o coitado.
Coitado nada, Yolanda. Coitada é você, se consumindo a cada noite que ele resolve desaparecer em busca de diversão. Olhe só o seu estado, mulher. Tenha dignidade. Encare o espelho e veja você mesma: ainda és jovem, atraente. Um pouco maltratada, desleixada até, mas ainda conservando certos atributos. Doutor Orlando bem que vem me olhando de um modo esquisito ultimamente. Cara de tô querendo. Amanhã é o Dia da Secretária. Se ele me convidar para almoçar, aceito sem pestanejar. Quem sabe depois um motelzinho? Gabriel que se dane!
Mais de meia-noite. Será que algo de ruim aconteceu a Gabriel? Será que o pobre está morto, esquecido em algum canto? É um mundo doente, meu Deus! Doente e mau. Se eu não me controlar até a alvorada serão dois cadáveres necessitando de exéquias: eu e Gabriel. Deixo sua poltrona a caça de um cigarro. Não! Fumar só vai me deixar mais apreensiva. Gabriel não gosta de cigarro, sempre procura outro cômodo do apartamento quando eu estou fumando. Eu respeito sua atitude. Cada um na sua, desde que ele aceite os meus pequenos vícios, insignificantes manias. Rolo o cigarro entre os dedos e desisto de acendê-lo. Um comprimido até que me faria bem. Apagaria feito uma pedra mas amanhã eu acabo perdendo a hora e se chegar atrasada talvez o Doutor Orlando se aborreça e desista do nosso jantarzinho. Você deve estar pirando, Yolanda! Que jantar? Isso só existe na sua imaginação. Droga, Gabriel! Por que tu não apareces e acaba de uma vez com este tormento a corroer minha alma, desafiando minha sanidade?
Uma consulta a geladeira e volto com uma taça de sorvete. Gabriel adora sorvete. Se lambuza todo. Enquanto me afugento em duas porções de napolitano, pego o jornal já envelhecido pela velocidade dos fatos e procuro esquecer o desgraçado buscando concentrar-me na leitura. Mas qual? O ínfimo barulho que a rua varre para dentro de casa me sobressalta na esperança de que está de volta. Melhor dormir. O cansaço me vencerá e amanhã será um lindo da mais louca alegria que se possa imaginar. Guilherme Arantes, por onde andará Gabriel?
Gabriel, nome de anjo, encarnação do demônio materializado em vadiação. Vagabundo! Imprestável! Traste! Controle-se, mulher! Amanhã, que já é hoje, é o dia da secretária. Doutor Orlando, motelzinho, lembra?
Venço a teimosia e vou para a cama. Deitada, agora são os números luminosos do relógio digital que me impedem de esquecer a ausência de Gabriel. Não consigo cerrar os olhos e fico espionando a mudança dos minutos no mostrador que brilha rubro dentro da madrugada. 1:38, 1:39, 1:40, 1:41! Ele só pode ter morrido! Certamente atropelado! Sempre foi descuidado, o Gabriel! E se eu nunca mais tiver notícias dele? Deus meu! Não vou aguentar este tormento!
Salto bruscamente do leito e desligo o relógio na tomada, crendo que desconhecendo o avançar das horas a tranquilidade chegue e o sono me surpreenda. Ondas de frio varrem meu corpo e mal me cubro começo a sentir um calor pegajoso a ponto de ensopar em suores a camisola.  Gasto bom tempo neste jogo de trocas térmicas abruptas. São os nervos a brincar comigo. Pela primeira vez na noite, choro. De início, breve lamento acompanhado de um fungar que em segundos metamorfoseia-se em um pranto sentido e incontido. Desisto! Sem um calmante não conseguirei dormir. Que se dane, o dia da secretária, o doutor Orlando e o ingrato do Gabriel! Que vão todos para o inferno! Engulo o choro, assoo o nariz e sirvo-me de um comprimido inteiro de potente tranquilizante guardado na mesinha de cabeceira para estas ocasiões. Em questão de minutos leve sensação de bem-estar toma o meu corpo, sinto os ombros relaxarem, a cabeça se esvazia e perco os sentidos. A indústria farmacêutica decide a meu favor a contenda com Gabriel.
Depois de algumas horas mergulhada em um sono ausente de sonhos e pesadelos, acordo em sobressaltos e a primeira ideia a assombrar-me a mente é o desaparecimento de Gabriel. Corro para a sala aos tropeções e meu coração se alivia: lá estava ele, dormitando em sua poltrona, iluminado pelos primeiros raios solares que a manhã anunciava. Grito seu nome numa explosão de euforia. Ele desperta assustado. Fita-me com o seu olhar despido de qualquer culpa espreguiçando-se com despeito. Um egoísta. Desisto. O canalha nunca mudará.
É Dia da Secretária. Doutor Orlando me espera.  Tenho que tomar um banho e me aprontar para mais um dia de trabalho. Quem sabe um motelzinho depois do expediente? Dentro do banheiro resmungo: “Gato maldito!”
Da sala, chega o miado de Gabriel em resposta.


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