Três poemas de Lia Sena


não

não quero o estúpido dedo em riste
a desdenhar da minha face.
não quero o palpite.
não quero nenhum limite desenhado.
nenhum quadrado em volta
nenhuma porta a trancar os meus delitos
nenhum atrito
nenhum subterfúgio a me conter.
nenhum cabresto a me controlar.

não morro na praia.
adentro o mar.



indecências 

o que cavalga em ânsias
é esse ódio todo recoberto de feridas.
essa desgraça anêmica. sem reação.
o que perturba o sono
é esse trotar contínuo das vicissitudes.
o olhar longínquo a repensar o bom.
o que naufraga o belo
é o incessante vômito. essas caras carcomidas.
a podridão.
o que desmembra o corpo
é o pérfido adestramento
catalogado em celas.
o que me assombra
é esse sangue ardido
ainda pulsando nas veias.
essa calma nas janelas.



Em De foro íntimo (Editora Penalux/2018)



Ida

Quando partiu sobre o cavalo
havia névoa, flores
e alegria matutina de saudar o sol.

Havia orvalho em suas retinas
e a pressa de chegar.
Havia brisa

e uma saudade mordida
de deixar pra trás
orquídeas e girassóis
além dos muros.

Havia leve criança
sobre o lombo levitando
e mulher, rasgada ao meip.
Aos prantos.

 Em Lume dos Anseios (Edições MAC/2014)

-
Saiba mais sobre LIA SENA 

Lia Sena é poeta baiana, graduada em Letras pela Uefs e escreve desde a infância. Publicou quatro livros: Pedaços (Editora Interbahia/1981); Por Todo Risco (Edição independente/2013); Lume dos Anseios( Edições MAC, Coleção Vinho e Poesia/2014); De foro íntimo (Editora Penalux/2018).  Participou de várias Antologias e recentemente foi uma das organizadoras revisora e participou com poemas da Antologia Outras Carolinas – Mulherio da Bahia (Editora Penalux/2017). Ganhou Menção honrosa pela segunda colocação no Prêmio Sosígenes Costa de Poesia 2017. Criadora do Sarau das Mulheres em Feira de Santana-BA.




Nenhum comentário:

Postar um comentário