DA SÉRIE POEMAS DE OURO


 Sete poemas da poeta paraense NASSARY LEE BAHAR, diretamente da Turquia:




Sinfonia de outono

Eu,
Nassarynho Leevre
No meio dos Campos quentes de trigo silvestre
Trigo seco de inverno
Trigo fresco de primavera
Perigo de ressurreissão em vida 
Perdida no vento da criação
Percorro as arestas ásperas de trigo
Altas, por cima dos meus ouvidos
Do silêncio à quimera!
Onde há uivos que falam de mim
Mas nunca estão perto...
Eu percorro e me recupero
Porque sei mais quem eu sou nos Campos
Do que os campos de visão miúda
Que me circundam invictos
Julgando saberem tudo o que me faz  voar em abandono
De costas, livre, por sobre o novo trigo de outono

***

Entre becos e sonhos

Por que perco, à faca, os dedos? [das mãos.
Por que jogo fora minha colher? [de sobremesa.
Alguém me passa um trote... Estou traída.
Alguém me passa para trás... Estou confiante.
E me passo – horas – perguntando:
Onde foi parar aquele colar? [de esmeraldas.
Noutro sonho? Em que trecho? Em que beco?
E por que só o que vejo é um diário escrito a sangue?
E por que se foi desfeito um praia-mar, tão excitante?

Por que faço chover quando choro?
Se me vou daqui, por que o apavoro?
Por que tentei ser sol um dia?
Se longes raios jamais percorreria?
Por que minha natureza teima em ser lua?
Se dentro de mim só há rua?

(E)scura e fechada;
(E)streita e calada;
(E)sgueirando em cada calçada;
(E)sperando em cada passada;
(E)squecer aquele brilho;
(E)scondido, meu ladrilho.

Da rua que sou.
Do poeta que me sobrou.

Divagações entre “esquerdas” de comportamentos.
Direções entre “esquinas” de sentimentos.
– Encruzilhada –

E sigo vencendo rabiscos de bares.
E prossigo reunindo os meus lares.
[numa grande Caixa Preta.

Entre becos e sonhos.
Entre rua e poesia.

***

Pedras na barriga

Da nicotina que ficou no casco,
a maior impotência que senti
se chama embaraço.
Nó de garganta – ardi.

A saudade tua me manteve presa.
Renegando ao peso das pedras.

Sigo.

A ciência que ali dentro existe: surpresa!
Moléculas, tu procuras, só vejo as “quebras”.

Fisgo:

te peguei.
E na barriga puxo pelo teu braço.
Enfiado por desespero do que sei.
Embaraço só vira cansaço...
Meu bem, depois que gozei.

Se vida, pedras fossem,
minha impotência de ti desvalidaria.
Nós de tua garganta, cuspam a todas as fossas!
Aquelas que fazem de ti brujería.
Há bueiros que pedras de dor não entupam?
Por que, então, tu não queres engolir
...o que “rochas” já não me engra-(rimam)?
Permaneço forte; estás travado a colidir.

/// Barriga e refluxo ///

Cuspa, cor, eu depredo.
Vomite, amor, eu engulo.
Despeje, calor, eu procuro.
Engula, dor, eu carrego.

***

Jogo de palavras

Raia,
fere-me com o esporão do desconto
apenas porque nos deste uma segunda vez
fere-me quando pensas que estás pronto
Baia.
Tua redoma de vidro blindado se desfez
E éramos orgulho. E éramos pausa. E ponto.
Agora reticência nas arraias das palavras
que nos cercam de saudade e medo
Justo nós, percorredores das farpas
O tabuleiro de teu braço é negro
Mas o coração (bem sei) não é raia
cujas grandes navegações não recusam “redes”
Saia.
Parta. Vista. Mas queira ter pernas
Para sempre voltar,
tapete ardiloso do mar
Caia no chão, tapete!
E reconheça: estou aqui, vou te pisar
Colorir-te com os pés e ser
não tua segunda vez
mas a segunda escama
E vais raiar consigo mesmo
– Por que motivo eu me permito
viver de jogo assim a esmo?

***

Lisboa menina e moça canção [ A mulher que eu amo]

A mulher que eu amo habita um oceano
Ela me convida a navegar quando não tenho pernas nem pleuras
Ela serpenteia dilemas em minha falta de fé
Seria real se não fosse Sereia
É a própria salvação em figura feminina
N’um mar de tantas que se entregam sem nadar
A mulher que eu amo acaricia ao meu corpo
Como quem perfuma a Confissão da saudade dos atos infames
Ela escolhe, nos dentes, os versos remotos, mordendo remorsos
Quando perto, me bane! Eu tenho medo de amar a este Ser
Quando longe, me mata! Eu tenho peito de voltar a lhe querer
Ela é fértil, doce, pálida, pequenina
Ela me perdoa sempre
Porque faz de mim louco, eu sendo normal
Ela é mágica
Porque guarda nos olhos a força firme de um ímã infinito
E me encanta para o centro de um coração imenso, o mais bonito
Escuros, esses olhos, abissais
Eu me abismo – verbo novo – completamente iluminado
A mulher que eu amo, Deus do Céu, é um recado
Que a vida inteira me responde para eu entender...

***

Sobre dias quentes

O sol vai nos castigar enquanto puder
O calor vai desgastar
o que resta de pele em nós
Quando tudo descarnar,
o sentimento
  de tão exposto –
não vai ter do que se esconder
E vai viver ambulante
batendo de Sol em Sol
Sem medo de se queimar
e de ser feliz.

***

Morte súbita

Diz-se, à boca miúda, que quando se beija um poeta
as letras percorrem o céu da boca em forma de pista
Viram trem-bala e morrem no peito em faísca
Constelação: é tiro e queda...


Quem é ela ?

NASSARY LEE BAHAR é jornalista e autora do livro Entre becos e sonhos (2014). Obteve vários prêmios literários e participou de coletâneas dentro e fora do Brasil.
 Hoje, nas águas de 12 de Março de 2018, completa 32 primaveras. Tem “primavera” no nome (“Bahar” em Turco). Nasceu poeta paraense de Belém, estrela do Norte. Atualmente reside na Turquia, estrela do Oriente. Acredita que a poesia é do mundo, não de ninguém! Acredita em destinos, astros, encontros e reencontros. Insiste em acreditar no ser humano e na força de bons versos. 
Uma mulher: Frida. Uma escritora: Lispector. Uma cor: lilás. Um hobby: tricotar. Uma paixão: desbravar idiomas e estradas. Um filme que marcou: Jornada da Alma (Drama / Psicologia). Um sabor: vinho. Uma saudade: tudo o que viveu e o que virá.




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