DA SÉRIE POEMAS DE OURO

Sete poemas da Poeta sul mato-grossense Claire Feliz Regina
Amor eterno

Eu olhava aquela menina na praça, que graça.
Ela brincava, tão risonha e tão feliz. Eu voltava
todos os dias para vê-la brincar, para vê-la crescer. Tão linda e tão risonha. A menina cresceu. Eu me apaixonei. Ela se apaixonou. Foi um grande amor que deu certo. Com um final feliz. Nos casamos. E seríamos felizes para sempre. Na igreja o padre disse amém.
A vida passou.
A vida cobrou,
a vida pagou.
Agora a minha menina velhinha, na cadeira de balanço, olhando para mim, parece que me pergunta se o nosso amor está chegando ao fim.

Eu ainda vejo a minha menina risonha naquela
velhinha que sonha nunca se separar de mim.

Minha menina querida, é verdade que estamos
chegando no fim da vida, mas não no fim do nosso amor. Quando o padre, na igreja, disse amém, no céu Deus disse também. Vivemos nosso amor na terra agora vamos vivê-lo no além.


O gari e a princesa

Nasci na periferia.
Sou assim,
sou pobre. Sou gari.
Todos os dias limpo,
com muita paixão,
a calçada da sua rua.
Olho a sua mansão,
que para mim
é um castelo.
Vejo você na janela,
finjo que você é
a minha princesa.
Mas tudo o que eu tenho na vida
é uma vassourae um rastelo.

Hoje quando vinha para cá,
vi nascida ali na beira do rio,
no meio do lodo, uma flor tão bela.
Vendo-a assim tão branca e tão pura,
pensando em mim, pensando em você,
pensando em nós, colhi-a com doçura.
Trouxe-a comigo,
vou jogá-la para você.
E que essa flor tão linda,
nascida ali na imundice,
seja a palavra de amor mais linda
que alguém te disse.


A receita de bolo

Meu vizinho queria fazer um bolo,
me pediu a receita.
Eu não tinha a receita,
mas eu tinha vinte anos!
Fui ajudar...
Não tinha farinha para ele amassar
com as mãos,
ofereci meu corpo
e ele amassou.
Não tenho açúcar, ele me disse,
ofereci meus lábios,
e ele beijou.
Ele era bom cozinheiro.
Pois o leite para ferver,
o leite fervia no meu corpo inteiro.
Nós dois queríamos fazer o bolo
mas, e a receita?
Ele abriu o caderno,
estava escrito,
me ama.
Não fomos mais para a cozinha
fomos para a cama.


A estrada da vida

A cidade onde eu nasci
As ruas por onde andei
Os lugares que eu conheci
E as paredes onde eu amei.

Deles eu nunca me esqueci

São os lugares da minha vida
Espaços da minha memória
Se um dia eu for poeta
Vou cantar em sua glória.

Ela pensa que se lembra de todos
Mas, há uma estrada que anda muito esquecida
Justamente aquela, que foi a primeira,
Por todos nós percorrida.

Nenhum poeta fez versos para ela
Nem você, se lembra do nome dela

"Perereca", " xoxota" e até " periquita"
São nomes que dão para ela
Mas, você sabe na verdade o que ela é
Ela é a porta de entrada da vida

E se você não nasceu de cesariana
Tenha mais carinho ainda com a

"perseguida"

Pois, ela já foi um dia
A sua única saída.

  
A tapera onde eu nasci

Minha tapera,
Que linda que era
A tapera onde nasci.

Minha Campo Grande, meu Mato Grosso do Sul
meu bairro do Amambaí
o que vocês fizeram com a minha tapera
que não está mais aí?

Voltei pra vê-la mas não vi mais
ela não estava mais lá.
Puseram cidade encima dela.
Sepultaram a minha tapera
Debaixo de arranha céus.

 E as minhas árvores?
Também não vi mais,
meu pé de manga, meu pé de araçá
não tinha mais nada.
Também não estavam mais lá.

E o meu rio que passava bem aqui,
Onde eu brincava com as outras crianças?
Crianças que eu nunca mais vi.

O Seu rio ainda existe,
mas o cantar de suas águas ninguém mais ouviu.
Também está debaixo da terra canalizado, sepultado,
assim como também está sepultado
o seu passado de que aqui ninguém se lembra,
que aqui ninguém viu.

Sou uma estranha, sou uma ausente
na cidade onde eu nasci,
foi a minha triste conclusão.
Mas e a minha tapera?
Dela eu não abro mão.

Quero achar a minha tapera.
Procurei com os olhos por isso não vi.
Quando olhei pra dentro com os olhos do coração
 era aí que ela estava.
Achei a minha tapera, enfim.
Não era mais eu quem morava nela,
Agora, era ela que morava dentro de mim.


Pílulas da vida

Quando eu nasci, tomei
A pílula da minha vida.
Era verde, cor da esperança,
tudo ia ser sempre lindo,
no meu sonho de criança.
 Logo depois, veio
a pílula da ilusão
 iluminando o meu ser,
de longe tão iluminada,
mas uma luz não alcançada
que apagou o meu viver.
Tomei outra, a pílula da emoção
que, dentro de mim,
não viu mais nada,
pois, de tão emocionada,
se perdeu na imensidão.
Aí tomei a pílula do amor,
que era toda colorida,
coloriu a minha vida,
mas depois perdeu a cor.
Veio, então, a pílula da solidão,
tão desprovida de cor,
deixou-me percorrer sozinha
o caminho da minha dor.
Enfim, tomei todas as pílulas
que, para mim,
Deus havia prescrito,
inclusive a da alegria e da felicidade.
Mas só sobrevivi porque tomei,
ainda que à força,
a pílula da humildade.
Finalmente olhei no vidro
era a última,
sua cor era amarela,
nela nada estava escrito. Tomei.
Sabem o que aconteceu?
Não sei se por azar, ou por sorte,
fez-me ir, bem de mansinho,
caminhando para a morte.
         (Pensei que era o meu fim.)
Pois vi meu corpo ser jogado
na sepultura,
mas um divino arremesso,
jogou minha alma para o além.
Não era a pílula do fim,
era a do recomeço,
          já que fim o homem não tem.


Separação

Que hora triste e linda
você escolheu para ir embora,
o nascer do dia,
ao raiar da aurora.
Fiquei olhando,
e vi você sumiiiindo, iiiiiiindo na estrada
e eu não sabia mais
se era noite ou se era dia,
o dia clareava,
a minha vida escurecia.

II

Numa divisão equitativa de bens
Você leva tudo o que temos e tudo o que é teu.
E eu, só levo eu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário