DA SÉRIE POEMAS DE OURO


Sete poemas de ouro de DÉBORA MITRANO
A morte é um cão comendo das beiradas a entranha. Chame ela pra jantar contigo.

Tudo está morto dentro de mim,
como no centro da cidade num dia de domingo.

Tudo está morto e eu choro enquanto ando na rua,
dando adeus as etiquetas sociais.

Eu quero um pouco de vida,
não quero mais ser um pedaço de carne ambulante,
me arrastando sem ter um destino.

Tudo está morto dentro de mim
mas ao mesmo tempo,
tudo me toca,
me faz tremer, como numa daquelas crises de ansiedade homéricas, deitada em uma cama limpa e diplomática.

Tudo está assim, sem um princípio, nem fim.
Falhei em tudo,
sobretudo, quando tentava manter as pessoas ao meu lado,
num misto de codependência e paixão doentia.

Tudo está morto dentro de mim
e eu não tenho mais amizade com o céu,
as nuvens,
as crianças,
a paleta de cores da cidade em movimento.

E é preciso tomar um trago violento de qualquer coisa pra sentir um soco no interior.
Anestesiar as adversidades.

E nenhum vento me refresca,
nenhum dia de chuva me liberta,
nenhuma partida me assusta.

Tudo está morto dentro de mim
e se eu reajo é pra dizer que estou semi-viva,
resistindo.

Mosaico de fracassos e derrotas.

Não fui uma boa combatente.
Sempre me rendi.
Sempre abaixei a arma e deixei o tiro atravessar o meu corpo.

O mundo quer que eu desista
e continue igual a eles,
traçando a mesma rota de penúria e lamento.

Tudo está morto dentro de mim
e vocês já poderiam me enterrar e jogar a terra.



Pessoas não são respostas, são perguntas

Vejo através dos teus olhos, velhos soís enfraquecidos.
Um que diz adeus quando saúda.
Ensaiando a não ingestão de emoções,
como um ser que não sente enquanto deveras sofre por sentir demais.

Luas caídas em areia incandescente são as tuas memórias.

A dor indescritível que não cabe no espaço inexato de um discurso melancólico.

Há um catálogo de fraquezas dentro da tua garganta.
Pois o grande engano está em acreditar que exista imprecisão na miséria.



Com crise de ansiedade nada é real. Tudo fica distante. Tudo é uma cópia, da cópia, da cópia

Abracei-o com o pensamento acelerado e debulhei-me em lágrimas.
Não é fácil racionalizar a avalanche de pensamentos irracionais que surgem para amedrontar.

Sons da natureza, chá de camomila, luz apagada

Nenhum paliativo acalma.

Com crise de ansiedade o corpo fica debilitado, fraco, desanimado, frágil, débil, inválido. Sem capacidade de agir.

Privação do sono faz o cérebro comer a si mesmo.
Jack ficou 6 meses com insônia antes de conhecer Tyler Durden.

Dramin na veia.

Insônia presente.

Somente sobrou a barbeiragem no meu braço. Uma grande mancha cor uva.

Com crise de ansiedade tudo fica distante.

A fraqueza corporal.
A mente indecentemente trabalhando sem parar.

Centelhas de medo se desprendendo do cérebro em brasa.

Tudo é uma cópia,
da cópia,
da cópia.

A fábula psicótica dos pensamentos narrando sem cessar.
Buscar racionalizar as narrativas que surgem é sinônimo de fracasso.
Acreditar nelas nem que seja por um instante, para depois elas se dissolverem naturalmente, sem esforço.

E sempre se dissolve.



O gorduroso excesso de existir ainda nos matará

A linguagem é só uma parte expressa,
de todas as outras que evidencia uma existência inquieta,
celebra as cicatrizes em meio a uma chuva de arroz.

A realidade embalada num papel celofane azul.

A natureza é o urinol de Duchamp,
uma obra de arte incompreendida,
usada como um instrumento de escapismo,
mero enfeite para anestesiar o descontentamento,
esse vazio de furar num encontro consigo mesmo.

O desabrochar do brilho solar:
banquete de projeções moldadas pelo olhar.
As borboletas, os pássaros, as gaivotas, os patos, as joaninhas, querem ser oxigênio sensorial.

O sussuro onírico da contemplação.
Fragância de cereja.
Balé de beija flores.

Demolir o teatro de significados.
As cousas belas não cumprem protocolos sociais.



Ensaio fotográfico do inexprimível

As palavras dão alimento a fantasia,
quando são um esparadrapo velho e encardido,
justificando as mesmas feridas.

O machucado e a participação no corte.

Ao longo do tempo,
a humanidade costura tratados sobre a dor.
Nos perdemos nos labirintos de infinitas definições.

Entramos angustiados e quietos em nossos laboratórios, e como cientistas confusos e sem rumo,
analisamos cuidadosamente a sua química.
Navegamos dentro dela.
Em frações de segundos nos tornamos a sua entidade corpórea,
em vez de desencarnarmos e a observarmos de longe.

A dor com os seus gestos e toques.
A dor com as suas estruturas de argumentos e empoeiradas defesas.
A dor com sua biografia duvidosa..

O outro,
um personagem que dialoga com elas,
que confunde a sua sombra com as nossas sombras.
Personagens são como cachorros,
andam em bandos,
e essa dramatização conjugal, junto com a falsa ideia de que se está sacando tudo, pode levar algum dos lados a destruição.
Um apanha mais do que bate.

A dor foi alfabetizada desde a mais tenra infância
num faz de conta coletivo.
A urgência em torná-la analfabeta
A dor é uma tecnologia obsoleta de séculos adoecidos.
Há que encará-la corajosamente antes que os olhos sejam arrancados.


Um estojo de seda com memórias guardadas

A memória é um museu,
onde ao visitarmos experienciamos
um estado de alucinação.
Não há clareza,
a imagem é distorcida.

Eu me afoguei no inconsciente
e esperei que me resgatassem.
Ao voltar a irrealidade,
não pude enxergar o que sou,
porque os espelhos fragmentados refletiram as narrativas ilusórias contadas pelo pensamento.
A manga,
o elefante,
o canteiro de flores
sabem o que são.

O pincel sujo de tinta
conhece o seu eu verdadeiro.
O movimento do pincel no quadro
revela a conexão com o seu ser.

Por isso, uma manga não sente que necessita amar,
porque ela é uma boa companheira para si mesma.
Um elefante não tem ídolos ou crenças,
porque ele é o seu próprio mestre.
Um canteiro de flores não fala em demasia,
porque se nutre pelo seu silêncio.

A montanha não escreve ou dança
para lidar com as suas emoções,
ela compreende o que está além da busca pelo prazer.

A cadeira,
a gaveta
ou o avião,
são ignorantes,
pois acreditam ser o que seu criador lhe determinou.

O ser humano é um estranho de si.
Uma geografia completamente nova o aguarda.



Carinhoso pra poder ferir

As cócegas,
direcionadas em pontos específicos,
me adoeceram.

Soubeste bem como aplicá-las.
Entre espasmos e risos convulsivos,
teceu-se o ridículo.

O tempo foi o grande aliado da angústia.
A mansidão de teus dedos coçando a minha pele foi injusta.

Houve singularidade nos objetivos.
Os aposentos da casa testemunharam o momento
e transferiram passes energéticos para mim.

Qualquer descompasso sobrou.
Pedregulhos, restos de lixo, fetos abortados.
Resíduos da tua psicologia.

A política dos teus desejos é astuciosa.

A enxaqueca nos olhos e a insônia revelam a desordem.

A caligrafia da tua saliva ficou marcada na minha carne.
Há uma carta atrás do teu tato.
Não pude lê-la, tua consistência é densa.

Essa orgia que é o carinho,
amputa a racionalidade.
Deixei as portas abertas,
e você entrou.

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