DA SÉRIE POEMAS DE OURO


Sete poemas da poeta mineira AMANDA VITAL
“poeta”

entidade ocupada por portais semiabertos
artífice diluidor das palavras do dicionário
antenas captadoras de sopros imagéticos
sintonizando universos não-catalogados

maestro a reger vozes isócronas avulsas
lentes refratoras das luzes inesgotáveis
extraindo a arte para fora das molduras
linha tênue entre insurgente e selvagem

glândula cravejada no corpo do mundo
imersa na estrutura e sob a pele grossa
vítima preliminar de seu próprio produto

orador das percepções não empilhadas,
é tecelão em tarefa constante e laboriosa:
costurar do homem todas as camadas.

****

“fuso horário”
  
subiu numa árvore pela primeira vez
os dedos dos pés agarravam o tronco
com a força ressabiada dos começos

o sorriso ganhava dentes a cada galho
e os olhos viam sempre um céu a mais
ignorando as ranhuras de seus joelhos

uma vez em cima, demorou a descer
seu sangue alcançava trajetos novos
acordando fragmentos desconhecidos

a pele pulsava entre cansaço e mercê
validava seu corpo em inédito alento:
infância é ciclo não-grafado no tempo.

****

“fome”

o corpo agora é uma casa no escuro
abrigando vibrações e gemidos vários

camadas desfeitas rodopiam em si

: relógio que dança entre seus minutos
cambaleando por ter a bateria fraca
sustentado apenas pela própria função

percebe-se as luzes, as névoas inquietas
se formando numa tela preta localizada
atrás da cabeça, vagalumeando na órbita

todos os sentidos sobem lentos à tez
envolvidos pela sutileza das cócegas

o corpo se imerge entre o frio e a febre

a alma se perde no instante da verve.

****

“a cigarra não canta a própria morte”

a cigarra não canta a própria morte
ela vocifera, urge, ralha e brada
em agudos polifônicos dispersados
ao primeiro sinal de nuvem negra

mas não canta a própria morte

ela anuncia o arrancar da própria tez
ovacionando a nueza às semelhantes
prolificando-se em ciclos axiomáticos

mas não canta a própria morte

ela se espalha entre toras e troncos
pisa na terra, equilibra-se em galhos
voa tardes que lhe resumem a vida
numa inconsciência pura e indolor

e isso é estar bem longe da morte

****

“apetite”

basta o desgastante falar das maturações
do tempo do verbo que nunca se alcança

tez algodoada de um azul inquebrantável
onde a palavra é lúcida e a poesia é mansa

que o fruto ainda verde caia sobre as mãos
em um só sentido, uníssono e irreversível
desfazendo-se em grãos ao puir nos dentes

e confronte a etérea solombra atmosférica
com toda a força desgarrada das urgências
interrompendo o tempo sacro da semente

bendita seja a palavra daquilo que se consome
bendita a rebelião do lado de dentro da fome

****

“mise em place”

há um copo de farinha sob a cama
para salvar sonhos aprisionados

meninos com amido entre os dedos
fazem ciranda no limite da ebulição

dourando seus pés no Fogo Sagrado
saltitando em suas simetrias caloríficas
para não se queimarem

meninos um a um desgarrados
trazendo resquícios de brasa na face
nunca retornam ao breve estado do ser

o sal da terra
é duro de moer

****

“metafísica”

ponta não acaba em nó
há sempre um pequeno
contínuo

um ramicho
curto demais para ser linha
longo demais para ser
fim



3 comentários:

  1. Valéria Brasil Callegari11 de março de 2018 01:26

    Nascimento/vida/,morte/ressurreicao/ emoção, poeta de raiz cravada no só fertil. Vivenciei cada palavra. Dom raro.������������������

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, Radyr, pela publicação! Resistimos! <3

    ResponderExcluir