DA SÉRIE POEMAS DE OURO


A verve do Poeta potiguar SANDEMBERG OLIVEIRA
Sou verso

Se soubesse fazer sol,
Estaria todas as manhãs
A bater na janela de teu quarto.
Sem pedir licença, entraria.
Abraçaria teu corpo e te aqueceria
Com meu calor.

Se soubesse fazer a chuva,
Pegaria em tuas mãos e dançaria
Sob seus pingos constantes.
Pularia nas poças d’agua,
Esqueceria que sou adulto,
Voltaria a minha infância
A brincar de ser criança.

Mas se e somente se, como não sei
Fazer sol nem chuva,
Faço poesia e escrevo versos sob o sol,
Declamo versos sob a chuva,
Conclamo a poesia em prosa,
Seja soneto ou trova.

A poesia é uma noiva feliz,
Pois sabe que é amada.
Se o que sei fazer é poesia,
Recito com alegria
Minha poesia amada.


Pele

Ardor, inquietude, amor...
Como asas de um Ícaro só,
Na liberdade dos amantes 
No beijo doce, fulgor...
Envolve-me,
Encanta-me,
Tira-me,
Faz-me,
E me tens...
Toca-me e, enfim, me traz...
Toma-me,
Enlaça-te,
E me envolve...
Suspiros,
Fúrias,
Fogo,
Brasa,
Espasmo,
Sagaz,
Prazer,
Encanto...
O que sinto?
Amor.


IMITAÇÃO DA VIDA

Tudo era construção
Figurinos, cenários, ensaios, emoção.
Imitávamos a vida como o contornar de um desenho
Que se cria, se emolda, se forma, se pinta
E os tons são dados a partir da sensibilidade
Do envolvimento entre o riso e o prazer de ser
O único momento, o único dia
As emoções se entrelaçam, nos envolve
Quando todos somos um, num único tom
Um espetáculo, sob o som dos aplausos
Da satisfação, da emoção e do ápice
Um momento extremo de nós mesmos
O tilintar das luzes denunciam a retratação
Paralisando o tempo, o agora, para o sempre
Esse, o único momento em que se pode parar o tempo
Porque o tempo não para, o mundo não para
Só o espetáculo da vida para
Os aplausos param
As emoções param
As sensações param
Eu paro
Você para
Fim do espetáculo
Todos se despedem
Ficam as lembranças
Os momentos
Os figurinos pelo chão
Quando, na realidade, era pura imitação
Apanho os figurinos
Guardo-os na emoção de sua representatividade
No sentido da arte pela arte
Porque o espetáculo parou
Resta-nos a denotação
Viver cada dia
Como se fosse o último.
Assim eu vivo
Meus dias
Minhas emoções
Pura representação da arte
Na imitação da vida
Posto que não é a mim que aplaudem
Mas a arte que faço
Não sou artista
Sou amante da arte em sua essência
O palhaço que chora
O drama que rir
O trágico que declama
O poeta de mim.


Alamedas

Enquanto caminhava pelas alamedas de meus ébanos
Acompanhava-me uma sombra, numa veste de silhueta,
Gesticulava de vez em quando e em passos descompassados
Grande de mim, fora de mim.
Sumia por vezes e por vezes se mostrava.
Sem face, sem medo, sem dor, sem nada.
A mim não era, posto que não via minhas lágrimas,
Meus rios de angústias, minhas náuseas.
Lúgubre de mim, absorto sem fim,
Trajando vestes negras, não me olhas,
Renegas-me e mostra-me o que não sou em verdade,
Enquanto recolho os pedaços de meu coração
Espalhados pelo chão de penumbras,
Somes e não mais te vejo.
E quando diante de mim, ainda estou só,
Como sempre fui e sempre serei, só
Numa necessidade compulsiva de ser; palavras
A preencher meus devaneios
A dar-me um rumo,
Nessa alameda de ébanos sombrios.
Tomo de um fio de seda extraído de um ser metamórfico.
Junto meus destroços e ponho-me a cosê-los,
Por fim, tomou forma, na representação de Eros,
Contudo, ficaram os pés pontos dessas mãos artesã,
Que transformam e que recriam
Mas que nunca entenderão as alamedas do meu coração.


Entre mundos

Faz um silêncio,
O dia num acalanto inerte de todos.
Uma brisa me toca a pele,
Tem cheiro de solidão, de momentos...
São meus e teus pensamentos,
Tudo e nada ao mesmo tempo.
Angústia, medo, torpor.
Cheiro de teus abraços,
Gosto por tua voz.
Uma melancolia sutil, mas triste!
É claro e está escuro.
A chuva cai lentamente,
Na mesma velocidade que minhas lágrimas por ti.
Choro a solidão de tua ausência,
Brado a vaguidão de tua presença,
Meus ais, meus eus, meus sós...
Meu tudo, meu nada, meu Deus!
E eu sofro!
O passado é como tinta sobre a água...
A tua face não mais se toca, nem se sente,
Mas se ver.
Feito névoa te sinto,
Como silhuetas sobre as pequenas ondas
Navega teu corpo.
Então partes...
Para além de meus abraços!
E deixa-me na solidão desse porto!


SUBMUNDO

Esta noite enquanto dormia,
Em sonho vaguei por um lugar jamais visto,
Distante no tempo de meu presente acordado,
Sombrio e escuro, tênue e macabro.
Talvez porque fosse noite,
Ninguém eu via,
Nem sombra, nem luz.
Apenas minha alma vazia.
Andei sem saber para onde, nem por onde.
Não conseguia me encontrar, nem encontrar...
Quem? O quê?
Sequer sabia se era sonho ou se era real.
Percebi que a escuridão sumia,
Que as trevas sucumbiam, mas continuava a caminhar,
Apenas acordei, porque amanhecia,
Não sei de que dia...



3 comentários:

  1. A poesia do Rio Grande do Norte atualmente se manifesta numa verve bastante diversificada, o que, para muitos conservadores, elitistas e blumáticos que apenas enxergam a poesia do passado e contestam o presente, não compreendem que o passado é nossa fonte de inspiração, nossa base e nossa força, posto que nos implica enquanto literatura. Parabéns aos poetas inovadores...

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  2. Um grandioso Poeta e um Ser Humano Magnifico. Parabéns, Sandemberg Oliveira pelos belíssimos versos

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  3. A arte de contar histórias através de versos é dominada por este poeta que tenho a honra de conhecer pessoalmente. Parabéns, Sandemberg!

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