DA SÉRIE POEMAS DE OURO


Sete poemas da Poeta goiana Lilly Araujo
NOITE CURTA

Quando a noite não for o suficiente para me engolir,
eu engolirei a madrugada
com gosto de tequila e sal,
e de fumaça de cigarro e incenso,
e sarro escondido no banheiro úmido de prazer.

Quando a noite for curta demais,
eu atropelarei as placas que dizem proibido estacionar,
e todas as demais que queiram me proibir,
seja do que quer que for,
porque a ordem da vez é seguir meu coração,
esse doido varrido,
que me aponta para cumes que eu temo escalar.

Quando a noite já não mais for,
eu ainda serei,
torta, densa, descompensada,
rasgada de desejo e de sussurros habitada.


CARNEIRINHOS PARA MINHA INSÔNIA

Chove ruidosamente.
A chuva disfarça as lágrimas
que eu não deixo mais cair.
Nos braços da noite
de mais um sábado abandonado,
vou contando carneirinhos
para minha insônia dormir.
Chove denso,
com tom fúnebre de trovões
orquestrando letras ocas
para gravarem meu epitáfio
em pedra mármore enregelada.
Morre-me
na presença do agora,
mais outra vez adiada,
a esperança de quem sabe um dia.
A chuva chegou tarde.
Outra vez, tarde demais!
A vida era um faz-de-conta
que alguém escreveu por engano,
num momento úmido de melancolia.

  
PAPO ESTELAR

— Você se sabe?
Homo sapiens que é!
— Você se enxerga?
Sendo homem ou mulher...

— Você se sabe?
Foi o que me perguntaram dia desses...
Refleti insistentemente até completar:
— Hoje eu me sei amar!

Entre cosmos e pó de estrelas,
e amebas e vírus,
e príons e átomos...
Sou apenas uma estrela produzindo ferro,
e meu elemento suicida
e  autofágico é o AMOR...

— Você se sabe?
Sim... me redescubro
todo dia, toda manhã,
a cada verde solar,
a cada novo acordar.

Me sei sendo nada, e sendo tudo,
um ser raso e profundo,
o pó da poeira,
um espirro do mundo.


TAÇA

Oferece-me uma taça de vinho,
e imagino-o imediatamente tinto,
rubro, como o sangue nas veias a ferver.

Brindo com taça de cristal
a você, que me oferece,
talvez sem saber,
à artesã o sisal.

Tim-tim!
Um brinde a você e a mim.
A nós, que nos embriagamos em
palavras ditas em versos,
de desejos puros ou perversos!


CAMINHO DA LOUCURA

Queres aprender o caminho da loucura?
Basta apenas me seguir.
Eu vou te ensinar a insanidade,
a boca seca e as vísceras retorcidas
e com vontade de morrer.
E essa é apenas a lição do amanhecer.

À hora do almoço vou te mostrar o alimento
que deve satisfazer também a alma
e não somente o corpo,
(essa casca indubitavelmente
dispensável e fútil.)

Já na sesta,
vou ensinar-te que melhor que descansar
é entregar os pés à festa,
e bailar initerruptamente
sem reservas.

Ao pôr-do-sol,
experimentarás a tristeza de
enterrá-lo todos os dias
e enlutar-se por ele para sempre.
E acostume-se, porque o dia irá morrer
todos os dias,
nesse fato corriqueiro e cíclico.

Mas não te preocupes,
cada lágrima que derramares
irá subir lentamente
e se grudar à teia azul profunda do céu
e ao observares daqui da Terra,
hás de jurar serem apenas estrelas.

Já na noite mais adentro,
quando sentires fome,
eu irei te oferecer o cálice do meu colo,
uma xícara de consolo, um silêncio de rua
e uma fatia da lua.

E quando enfastiado,
te deixarei aninhar-se
por entre minha pernas,
essas pernas tuas.
  
Tens certeza que queres aprender o caminho?
Então eu posso te guiar.
Começa assim, com risos frenéticos
e alegria sem par,
se envereda por curvas tortuosas
para em seguida depara-se em cerca de espinhos.

Mas é preciso ser bravo nesta hora,
e escolher continuar pelas garras afiadas,
para ferido atravessar-lhe
e por ela ser atravessado,
e alcançar a outra margem desse lago de torturas
com uma felicidade desesperada
e uma tristeza acompanhada.
Onde sorrir e chorar são tudo e quase nada.

Queres aprender o caminho?
Segue o coelho branco,
pula para dentro e caia para cima.
E esqueça-te de qualquer arrependimento,
pois que uma vez no caminho,
o caminho é pra nunca mais.

  
ANATOMIA DE UM BURACO NEGRO

O golpe foi certeiro
entre a décima terceira vértebra
e sua condição inexistente.

Agora era gêmea idêntica
do absurdo,
e irmã do infinito que se esconde
após a curva da última estrela-cadente.

Quando o Coelho Branco de Alice
lhe fez sinal, não o seguiu,
antes, o convidou a voar consigo,
pois seu mundo era ainda mais belo que o dele,
e lá ninguém cortava cabeças e nem asas.

Quando o ponteiro do relógio badalou as 13 vezes,
descobriu que ali o tempo era infinito...


EUTANÁSIA

Resolveu dar cabo da vida,
entrou para um quarto e
tomou uma dose letal de poesia.



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