DA SÉRIE POEMAS DE OURO


Sete poemas da Poeta carioca Cláudia Manzolillo
OS OLHOS

Cansados de ver,
ainda lançam
ao cais
um olhar.

Quem sabe lá
onde a vista
não alcança
se alcance
a paz?


DIÁLOGO

Mia dizia:
sou tua.
Ele dizia:
sou eu mais minha sombra.

Mia sugeriu:
serei teu sol.
Ele dizia:
sou eu mais meu eclipse.

Mia se entregou:
serei tua sombra.

E assim
Mia foi dele:
sombra e só.


TUDO DE NOVO NO FRONT

O mesmo do mesmo
é sempre aquele inverno
é o nada que é tudo
os passos sem rumo
a vida em sua lida
o relógio enguiçado
a corda parou
o cuco cansou
a porta não abre.

Tudo de velho de novo
na boca, o amargo
o áspero na língua
a vida emperrada
soluço da alma
esgota até a última gota
o que há de orvalho.
Seca, a noite estéril segue
e encontra estrelas.

  
INVENTÁRIO

Acumulam-se os bens
e o males do tempo
pela vida aforadentro
e, quando se crê adultomaduro,
vem a vida e te diz: estás cru!

E choramos as pitangas,
as uvas colhidas verdes,
como na fábula de Esopo,
a caravana que passou,
o circo que levantou a lona,
e tudo que a água não lavou.


AVASSALADORA

Refém de fatos
E mitos
Minto as horas
Esquecidas.

Mantenho-me
Assim
Suspensa
No intervalo
Entre o que há
E o que haverá.

Ponte do meio
Arco em punho
A corda vibra
Seta
Som.

Palavra
Atirada
Não tem volta
Fico
No caminho
Do meio.

  
AGARRO-ME A ELAS [esperanças] COMO A INEFÁVEIS TESOUROS

Sei que descerrar os olhos
é tarefa que urge.
Branda é a manhã
com suas promessas.
Despertar corpo
e alma.

Leve é o fardo
se o carregas
como inefáveis tesouros
que só a ti pertencem
e que te fazem crescer
serenamente,
mesmo na curva
do Tempo
que parece
descender.

Adiante
o trilho ainda segue
e aponta outras
estações.

  
FRAGILIDADE

chovem pétalas
insistentes
dizem que a dor
é passageira

mentem as rosas
despedaçadas

na rua
morrem os sonhos
de um menino
de uma menina
do Rio de Janeiro

chove um rio inteiro
e mãos armadas
calam o que seria vida.


Nenhum comentário:

Postar um comentário