DA SÉRIE POEMAS DE OURO


Sete poemas da Poeta baiana Luíza Silva Oliveira
SOLIDÃO
nas ruas
lá vão eles...
seres pensantes, passantes
um calor preguiçoso
faz a sua dormência
se olham se estranham
dormem em suas demências
só,
costuro minha mágoa falida..
não tem ninguém nessa terra
seres oblíquos
ai que vontade de voar
Sou presa na ratoeira
ratazanas cheiram e querem
comer meu pé
faminta
em casa só tem farinha
queria sentir
mas na estrada
só tem seres fantasmagóricos
sem pulsação
existe uma imprecisão
um amor sem coleiras
cadelas no cio
meu nome é ninguém


DESORDEM

Camas desarrumadas
Lençóis atirados no chão
Cumpro rituais de uma paixão inexistente
ensaboo meu corpo
saio na rua, nua....
Pego a mão de um desconhecido
vivo num tom desafinado da vida...
Nada me pertence.
Como me apossar da inexistência?
Como mulher recebo presentes masculinos
Não me aposso deles.
Destrepo da árvore com receio de cair.
Despenco....
Com a imagem denegrida caminho na contramão.
Me garanto nos devaneios da escuridão
há luminosidade nela
entro num teatro de marionetes
sorrio constrangida
tento decifrar os hieróglifos do amor
me desumanizo e viro bicho
caio na correnteza da vida ou da emoção
sem uivos, sem gritos, sem berro, sem grunhidos
tudo volta a silenciar...


uma cachaça, por favor

As chaleiras estão fervendo
ventiladores no alto não sustentam o calor
eu preciso de um refrigerador
panos úmidos não seguram fogos de artifícios
Eu preciso ser
as pessoas são, já dizia o rei Arthur
mas cadê ele?
somos plasmas, cataplasmas
soltos no ar
sementes jogadas em vasos sanitários
vivemos parcelados
a minha primeira parcela já tá paga
o que faço com as restantes?
o saldo acabou,
estou suando, carpindo com a enxada rochas duras
vou e volto
volto e vou
caminhos isentos são o nosso habitat
mas queremos sempre ganhar
somos ansiosos, desonestos
só o cativeiro é peculiar
como feto sofro pancadas para abrir os olhos
que um dia se fecharão
vivemos em dois lados, em dois hemisférios
a vida dupla amansa a escuridão
existe uma rua sem saída
são os caminhos mornos que rondam a cidade
ainda tem uma raspa de osso, quer comer???


o melhor do flash back (92 clipes)

últimos dias do ano...

um desfile de incertezas
a roda que não para de girar

dorme, dorme...
crianças  em calçadas sujas

limpa, lava, torce
e esse cheiro que não sai

essa nostalgia maldita
dos que se foram...

o tempo borrado
não dá pra enxergar

os tiros sem alvos
as cortinas cerradas

e a solidão
um caminhão de recordações

e as ausências

dos beatles beatificados
dos woodstocks  asertanejados

e o vazio endurecido

enfia o dedo no cu e grita
essa terra não é mais sua

você já não mais se pertence
pertences viram cinzas

e nossos ideais 
calcaram em pós

escureceram as salas
vai começar o filme

não pula a janela
vai sujar a calçada de sangue

e o lixeiro tá em greve..


SEM GARANTIAS     

pescoço duro
febres amarelas
sem dinheiro no bolso
amarga o dia que chega

roleta russa
e os meninos despencam dos morros
mato o jacaré
engulo o leãozinho

e sou fuzilado em praça pública


Da menina que virou bicho

Cadê o gato?
O rato comeu...
Cadê o rato?
Voou pela janela, com os sonhos de menina

"Perdi, antes de nascer, o meu castelo antigo".
Só quando deslizo em lamas de ouro,
me esfria a saudade do céu azul com nuvens de cordeirinhos
do outro lado do muro,

Terezinha de Jesus canta em dueto com a menina de ovos de ouro:
A canção da cigana, do boi da cara preta
Na escola maculada, a menina desaprende o verbo e leva chicotadas
de megeras da alfabetização.

Entre risos e choros a menina aquece seus tormentos
À noite, abafa seus sonhos com cobertores pesados, fétidos,
Seus cachos encaracolados são cortados por tesouras gigantes de aço preto
no brejo, aproxima-se de um sapo... ao beijá-lo, o sapo vira jacaré e a engole...

A tragédia do primeiro ato se encerra e a cortina se fecha.
pelos começam a grudar em seus devaneios
seus pés crescem e se petrificam
seus olhos se congelam,
e seu rosto vira uma máscara de ferro

O horizonte é cortado por vértices afiadas,
a menina se debruça em  névoa molhada,
seus ídolos caem em mortalhas
nesse calvário, sem nobreza,
o  enterro da menina acontece num dia de chuva...


Hoje, eu preciso chorar

hoje, preciso chorar.
jogar fora esse escarro do choro.
as nuvens cinzas ficaram pretas
o dia já aconteceu... ou já vingou? 
a menina? branqueou o seu cabelo.
o vira-lata da esquina morreu
o jornaleiro vendeu sua banca
minha casa amarelou
os prédios cresceram, viraram magazines
o jogo de botão virou botões da internet
a boneca dorme no canto da caixa de papelão
o meu pai?
está lá no céu agora, me olhando
os meus amigos?
não sei.
o beija flor morreu de agrotóxico
a tv continua com seus noticiários horrendos
a vida está despencando dos penhascos...
meus sonhos coloridos? estão desbotados.
as frutas estão passadas...
o ser humano continua andando em filas.


Mais de Luzia Silva Oliveira

Luiza Oliveira é poetisa, atriz, bailarina, socióloga, advogada. Em 2011, lançou seu primeiro livro de poesias, chamado Afetos Transgressores; agora, em 2017, saiu a sua segunda obra,  chamada   Da menina que matou seus bichos. Participa de diferentes saraus literários em São Paulo. No teatro, já trabalhou com diretores como Antunes Filho, Naum Alves de Souza, Miriam Muniz, Berta Zemel . Em cinema, realizou dois longas com o diretor Elvis DelBagno: O homem da cabeça de laranja A suíte epifânica de Luiza – este, inspirado em seus poema



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