DA SÉRIE POEMAS DE OURO


Sete poemas do Poeta paulistano PAULO MIRANDA BARRETO

POEMA DE VASTA DOR

Minha alegria (sofrível)               
faz-me rir com dissabor
Já o meu pranto (risível) 
faz jus ao de um fingidor. . .
  
Azarado incorrigível
malnascido e sofredor
meu futuro é  previsível:
‘Um fracasso promissor’
  
Fiz-me pastor do impossível
Lúcido (pra lá de louco)
Pai- de-santo (do pau oco)
e um ‘prezado desprezível’ 
  
Sinto muito e faço pouco
caso do in-dis-cu-tí-vel
nominal e intransferível
destino meu: O sufoco
  
Versador irreversível
fiz-me insone sonhador
que teima em buscar alívio
nos arredores do horror
  
Notório imperceptível
e esdrúxulo rimador
sou um ídolo passível
de passar por impostor
  
Minha glória é a dos inglórios. . .
a de um semideus falível. . .
Meus ditos contraditórios
concebem o inconcebível
  
mas, sou ‘mito perecível’. . .
feitor de feitos simplórios. . .
Merecedor da dor . . . indirimível
que exibo em meus sorrisos . . .  irrisórios.


CIBELE

sobre o leito de Cibele
falo afago e falo açoite
despetalo a flor da pele     
e calo a boca da noite
  
sob o efeito de Cibele
coloro olores e lumes
em profundezas e cumes. . .
e até que o céu se desvele
  
enluaro os pirilampos. .  . 
bolino laivos . . . delírios. . .  
e molho os lírios dos campos. . .
e desmantelo  os martírios. . .
  
estrela que me ‘ensolara’!
que sorve a seiva que expilo!
sou seu Ganges! sou seu Nilo!
seu oásis . . . no Saara!
  
noite adentro . . .  dentro dela
me refaço e me aniquilo
morro, renasço e oscilo . . .
sou sol e chama de vela
  
escafandrista e astronauta
servo e senhor do seu cio
que sem receios . . . sacio
no seio . . . da noite alta!


APERREIO

o sol se põe em Taiwan
a chuva cai em Dublin
venta forte em Teerã
e ela . .  . não liga pra mim
  
faz 30 graus em Macau
amanhece em Maceió
um sismo assola o Nepal
e eu . . .  continuo só
  
neva nos alpes da Austrália
há uma guerra em Bagdá
é feriado na Itália
e ela . . .  não diz onde está
  
porque  não telefonar
ou enviar um e-mail
mandar  um pombo correio
um bilhete . . .   pra avisar
  
se partiu pra não voltar
ou foi só dar um passeio?
ai! pra quê me judiar. . .
me deixar nesse aperreio?
  
a lua surge em Hanói
um tufão varre Miami
ruge o mar em Niterói
e eu . . . amasso um origami
  
cai um jato na Espanha
um ditador no Zimbábue
um UFO na Grã-Bretanha
e eu . . . quero que o céu desabe

que o mundo acabe e não reste
nem uma única estrela
viva no reino Celeste
se eu nunca mais . . .   puder vê-la
  
ela me ama . . .  ou não ama?
deus! a dúvida me enerva!

vencido pelo sono .. .
 vou pra cama
e só meu cão (castrado)
 me observa.


UM PEQUENO APOCALIPSE

Nesta sala
quase cela
minha sanidade oscila
entre o pesar que me assola
e a solidão que me insula. . .
  
e, nem mesmo Deus calcula
quanto o Demônio me esfola
e me escalpela e me pila
e me flagela
e me empala. . .
  
nesta vila de São Paulo. . .
nesta sala feita em cela
jaula estreita em que me enjaulo
feito um leão . . .  que ‘amarela’
  
contabilizo as mazelas
digiro os sapos que engulo
e empilho minhas dores (todas elas)
dentro em meu peito (mínimo casulo)
  
e, ao fim do dia cheio
de sequelas. . .
exausto da esperança
que simulo
  
desisto de ser eu . . .  
e, afinal pulo
dentro do breu
por uma das janelas.


INSULADO E INSÓLITO

no reverso de meu verso
há o inverso da uma farsa
que arranha o céu submerso
sob a pele que se esgarça
  
e, atento, sigo disperso
da desconexa graça
que ilumina o breu perverso
na cortina de fumaça. . .
  
faminto e nu
eu finjo que converso
com Deus e Belzebu
na noite baça. . .
  
risonho e jururu
(sou controverso)
murmuro i love you
para uma traça. . .


O PESO DELA

quis carregá-la
e o peso dela. . .
era maior que uma novela

quisera fosse leve novelo
o pesadelo. . .
o peso dela       
  
enxuguei gelo. . .
lucrei mazela. . .
fez-se procela 
o meu desvelo 
  
era uma ‘mala’!
uma ‘cadela’!
porém, deixá-la. . .
deixou sequela

quis tanto tê-la. . .
e dar-me à ela
que fiz-me vê-la
ingênua e bela. . .
  
meiga donzela
doce quimera. . .
sem percebê-la
tal como era:
  
sombria estrela. . .
rude megera. . .

e assim . . . querê-la
virou querela.


BOCA DESBOCADA

Minha boca que verseja
que bendiz, que amaldiçoa
que come , que bebe e beija
que consola e que caçoa
  
minha boca que festeja
que lastima, que se cala
que diz preces ,que pragueja 
e que  . . . ‘não sabe o que fala ‘
  
porta a voz de uma pessoa
mal encarada . . . bonita. . .
que ora sussurra , ora grita
que ora rasteja, ora voa
  
ah! minha boca maldita
que diz verdades à toa . . .
e que embevece e magoa
quem me ama e quem me evita
  
boca louca . . .  desbocada
boca suja . . .  boca santa
que canta . . .  e que desencanta
que enfada . . . contos de fada
  
boca que me aperfeiçoa
que me rebaixa . . .  e me eleva
és a luz . . .  que extingue a treva
da vasta . . .  solidão ... que me povoa.

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