DA SÉRIE POEMAS DE OURO

Sete poemas da Poeta bauruense RENATA REGINA

Oferenda

Entro no mar,
Com intenção de limpeza.
Descarrêgo.
Vou cortando as ondas,
atendendo
ao chamado de Lemanjá.
Entrego ao mar
a minha tristeza.
O calor do sol me conforta.
A água salgada me embala.
Mergulho,
buscando o esquecimento.
Tento afogar a dor de não ter sido,
o arrependimento de não ter dito.
Numa tentativa vã de ser sereia,
nado com desespero,
em direção ao fundo.
Preciso me afastar da margem,
esquecer rostos,
nomes e datas.
Quero algas,
estou cansada de areia.
Sinto o naufrágio do meu corpo.
Percebo que meu corpo,
agora boia e afunda.
Choro lágrimas salgadas,
contribuindo para
o aumento do mar.
Tenho a esperança de,
enfim, ser útil.
Desisto de dar propósito
ao que não tem sentido,
e entrego ao mar a minha solidão.
A mágoa de ser sozinha.
Deposito,
nos braços de lemanjá,
a minha pobre poesia.
E torço para que ela não a rejeite.


Cada dia vale por anos

nesse labirinto.
Vou pela esquerda,
não encontro nada.
Se viro à direita,
portas fechadas.
Não tenho chaves,
não tem saída.
Desisto,
sento e choro.
Vou virar árvore
nesse lugar sem fim.
Árvore,
pó,
paisagem.
Poderia voar,
única saída.
Se eu,
anjo caído,
há muito,
não tivesse
perdido minha asas.


Batismo

Você vai beber o quê?
Perguntou a garçonete.
Que bar de quinta categoria,
pensei.
Olhei para o rosto
redondo da moça.
Olhei em volta.
Tudo escuro,
como provavelmente deve ser,
já que as pessoas,
nesses lugares,
querem ficar meio escondidas.
De que, meu Deus, de quem?
É tudo tão óbvio, na verdade.
Está tudo tão estampado
nas fisionomias cansadas.
O escuro que domina o interior,
além do exterior,
o vazio que preenche nada.
Os copos cheios...
De vinho,
de conhaque,
de cerveja.
O álcool borbulhando
nos estômagos,
com uma única missão:
entorpecer as mentes já confusas.
Fazer esquecer a dor de viver.
A solidão dos quartos de casais.


Escancara

O meu corpo serve de consolo
para essa sua alma cansada?
Se servir, pode entrar, escancara.
O meu corpo é a sua casa.
Não tem chave nas portas,
e as minhas pernas estão abertas.
Entra e senta do meu lado.
No meu colo cabem  você
e todas as suas mágoas.
Dentro de mim cabe você inteiro,
por mais que doa.
Ai, meu deus, que dor boa!
Os meus seios, amigos,
Cabem direitinho na sua boca.
E a sua mão, atrevida,
é bem-vinda.
A sua mão, a sua língua...
As minhas lágrimas servem de alívio
para os seus pés doloridos?
Se servirem, vou chorá-las de joelhos,
e enxuga-los com os meus cabelos.
Depois, vou deitar no chão da sala,
nua e de olhos vermelhos.
Quero sentir dor.
Serei tão feliz nesse momento,
pois poderei te distrair
do seu sofrimento.
Usa-me, sem pena,
quero compensar
o que a vida te fez.
E, depois de saciado,
quero te aninhar nos braços,
finalmente feliz,
sonolento e exausto.


Banquete

Ofereço o meu amor
nessa bandeja de prata.
O meu amor te faz falta.
Como faz falta o meu amor,
você pensa que se basta!
Ponho a mesa,
fico nua e me deito.
Meu corpo para o seu regalo.
Toalha, mesa,
garfo, faca.
Que coma quem tem fome,
e depois, parta.


Sina

Desejo e culpa,
eis a minha sina.
Acendo o cigarro,
apago o cigarro,
mas é você que me queima.
Descubro um prazer
que não conhecia.
Um calor que não tem mais fim...
Um medo imenso de ficar,
novamente, de boca vazia.
Dentro de mim,
uma voz dizendo
- foge!
E a minha razão se anima.
Ai vem outra e grita
- fica,
e experimenta todas as dores
de Eva expulsa do Paraíso.


Flores, Horrores e Amores

Flores roxas
para a infância.
Medos,
pesadelos,
insegurança.
Bicicletas,
tombos,
distâncias.
Pai que morre.
Mãe que some.
Mãe que volta.
Mãe que ama.
Flores tristes
no café-da-manhã:
já sou quase
uma mocinha.
Mas na escola
sou gorda.
Tenho cabelo crespo
e ninguém quer me beijar.
Cresci
e dei um chute no rabo
de quem não queria meus beijos.
Agora eu beijo,
beijo,
beijo.


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