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Sete poemas do maior nome da Poesia Nacional, CASTRO ALVES. 14 de março é considerado o Dia Nacional da Poesia, em homenagem a Antônio Frederico de Castro Alves, nascido em 1847. O poeta foi um dos maiores nomes do Romantismo brasileiro e uma das principais vozes a favor da abolição da escravatura.
A
atriz Eugênia Câmara
No
dia seguinte ao de uma vaia
sofrida no Teatro Santa Isabel, no
Recife.
sofrida no Teatro Santa Isabel, no
Recife.
HOJE ESTAMOS unidos a adorar-te Tu és a nossa glória, a nossa fé, Gravitar para ti é levantar-se, Cair-te às plantas é ficar de pé!... Ontem a infâmia te cobria de lama Mas pra insultar-te se cobriu de pó! ... Miseráveis que ferem a fraqueza De uma pobre mulher inerme, só! Tu és tão grande como é grande o gênio És tão brilhante como a própria luz, Dentre os infames do calvário d'arte, Tu foste o Cristo, foi o palco a cruz! ... Mas estamos unidos a adorar-te! Tu és a nossa glória, a nossa fé! Gravitar para ti é levantar-se, Cair-te às plantas é ficar de pé!
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Adeus
ADEUS! P'ra sempre adeus! A voz dos ventos Chama por mim batendo contra as fragas. Eu vou partir... em breve o oceano Vai lançar entre nós milhões de vagas ... Recomeço de novo o meu caminho Do lar deserto vou seguindo o trilho... Já que nada me resta sobre a terra Dar-lhe-ei meu cadáver... sou bom filho!... Eu vim cantando a mocidade e os sonhos, Eu vim sonhando a felicidade e a glória! Ai! primavera que fugiu p'ra sempre, Amor — escárnio!... lutulenta história! Bem vês! Eu volto. Como vou tão rico... Que risos n’alma! que lauréis na frente... Tenho por c'roa a palidez da morte, Fez-se um cadáver — o poeta ardente! Adeus! P'ra sempre adeus! Quando alta noite, Encostado à amurada do navio... As vagas tristes... que nos viram juntos Perguntarem por ti num beijo frio, Eu lhes hei de contar a minha história. Talvez me entenda este sofrer do inferno O oceano! O oceano imenso e triste, O gigante da dor! o Jó eterno! Fazia um ano. Era o dia Do fatal aniversário... Ergui-me da cova escura, Sacudi o meu sudário... Em meio aos risos e à festa E às gargalhadas da orquesta, Que eu tinha esquecido, enfim, Tomei lugar!... Solitário Quis rever o meu Calvárío Deserto, tredo, sem fim!... Sabes o que é sepultar-se Um ano inteiro na dor... Esquecido, abandonado, Sem crença, ambição e amor... Ver cair dia... após dia, Sem um riso d'alegria... Sem nada... nada... Jesus! Ver cair noite após noite, Sem ninguém que nos acoite... Ninguém, que nos tome a Cruz?! Ai! não sabes! nunca o saibas!... Pois bem; imagina-o só... E então talvez compreendas A lenda escura de Jó. II Mon coeur, encore plein d'elle, errait sur son visage Et ne Ia trouvait plus. MUSSET. Porém de súbito acordou do ergástulo O precito, que ali jazia há pouco... E o pensamento habituado às trevas Atirado na luz... — pássaro louco! Vi de repente o passado Erguer-se em face de mim... A rir... a rir, como espectro, De uma ironia sem fim. A orquestra, as luzes, o teatro, as flores Tu no meio da festa que fulgura Tu! sempre a mesma! a mesma! Tu! meu Deus! Não morri neste instante de loucura ... Quebra-te pena maldita Que não podes escrever A horror de angústias e mágoas Que então me viste sofrer. A mesma fronte que amei outrora! O mesmo riso que me vira um dia! O mesmo olhar que me perdera a vida! A mesma, a mesma, por quem eu morria! Que saudades que eu tenho do passado, Da nossa mocidade ardente e amante! Meu Deus! Eu dera o resto de existência Por um momento assim... por um instante. Mas não! entre nós o abismo Se estende negro e fatal... — Jamais! — é palavra escrita No céu, na terra, no val. Eu — já não tenho mais vida! Tu — já não tens mais amor! Tu — só vives para os risos. Eu — só vivo para a dor. Tu vais em busca da aurora! Eu em busca do poente! Queres o leito brilhante! Eu peço a cova silente! Não te iludas! O passado P'ra sempre quebrado está! Desce a corrente do rio... E deixa-o sepulto lá! Viste-me... E creste um momento Qu'inda me tinhas amor!. i. Pobre amiga! Era lembrança, Era saudade... era dor! Obrigado! Mas na terra Tudo entre nós se acabou! Adeus! ... É o adeus extremo... A hora extrema soou. Quis te odiar, não pude. — Quis na terra Encontrar outro amor. — Foi-me impossível. Então bendisse a Deus que no meu peito Pôs o germe cruel de um mal terrível. Sinto que vou morrer! Posso, portanto, A verdade dizer-te santa e nua,. Não quero mais teu amor! Porém minh'alma Aqui, além, mais longe, é sempre tua.
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Amemos!
DAMA NEGRA
POR QUE TARDAS, meu anjo! oh! vem comigo. Serei teu, serás minha... É um doce abrigo A tenda dos amores! Longe a tormenta agita as penedias... Aqui, ao som de errantes harmonias, Se adormece entre flores. Quando a chuva atravessa o peregrino, Quando a rajada a galopar sem tino Açoita-lhe na face, E em meio à noite, em cima dos rochedos, Rasga-se o coração, ferem-se os dedos, E a dor cresce e renasce... A porta dos amores entreaberta É a cabana erguida em plaga incerta, Que ampara do tufão... O lábio apaixonado é um lar em chamas E os cabelos, rolando em espadanas, São mantos de paixão. Oh! amar é viver... Deste amor santo — Taça de risos, beijos e de prantos Longos sorvos beber... No mesmo leito adormecer cantando... Num longo beijo despertar sonhando... Num abraço morrer. Oh! amar é ser Deus!... Olhar ufano O céu azul, os astros, o oceano E dizer-lhes: "Sois meus!" Fazer que o mundo se transforme em lira, Dizer ao tempo: "Não... Tu és mentira, Espera que eu sou Deus!" Amemos! pois. Se sofres terei prantos, Que hão de rolar por terra tantos, tantos, Como chora um irmão. Hei de enxugar teus olhos com meus beijos, Escutarás os doces rumorejes D'ave do coração. Depois... hei de encostar-te no meu peito, Velar por ti — dormida sobre o leito — Bem como a luz no altar. Te embalarei com uma canção sentida, Que minha mãe cantava enternecida Quando ia me embalar. Amemos, pois! P'ra ti eu tenho nalma Beijos, prantos, sorrisos, cantos, palmas... Um abismo de amor... Sorriso de uma irmã, prantos maternos, Beijos de amante, cânticos eternos, E as palmas do cantor! Ah! fora belo unidos em segredo, Juntos, bem juntos... trêmulos de medo, De quem entra no céu, Desmanchar teus cabelos delirante, Beijar teu colo!... Oh! vamos minha amante, Abre-me o seio teu. Eu quero teu olhar de áureos fulgores, Ver desmaiar na febre dos amores, Fitos fitos... em mim. Eu quero ver teu peito intumescido, Ao sopro da volúpia arfar erguido O oceano de cetim Não tardes tanto assim... Esquece tudo... Amemos, porque amar é um santo escudo, Amar é não sofrer. Eu não posso ser de outra... Tu és minha, Almas que Deus uniu na balça edênea Hão de unidas viver. Meu Deus!... Só eu compreendo as harmonias, De tua alma sublime as melodias Que tens no coração. Vem! Serei teu poeta, teu amante... Vamos sonhar no leito delirante No templo da paixão.
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Cansaço
O NÁUFRAGO nadou por longas horas... Na praia dorme frio num desmaio. A força após a luta abandonou-o, Do sol queimou-lhe a face ardente raio. Pois eu sou como o nauta... Após a luta Meu amor dorme lânguido no peito. Cansado... talvez morto, dorme e dorme Da indiferença no gelado leito. Sobre as asas velozes a andorinha Maneira se lançou nos puros ares... Veio após o tufão... lutou debalde, Mas em breve boiou por sobre os mares. Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo Sobre as asas gentis da fantasia. A descrença nublou-me o céu da vida... E a crença estrebuchou numa agonia. Como as flores de estufa que emurchecem Lembrando o céu azul do seu país, Minha alma vai morrendo, suspirando Por seus perdidos sonhos tão gentis. E que durma ... E que durma ... ó virgem santa, Que criou sempre pura a fantasia, Só a ti é que eu quero que te sentes Ao meu lado na última agonia.
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Horas de saudade
TUDO VEM me lembrar que tu fugiste, Tudo que me rodeia de ti fala. Inda a almofada, em que pousaste a fronte O teu perfume predileto exala No piano saudoso, à tua espera, Dormem sono de morte as harmonias. E a valsa entreaberta mostra a frase A doce frase qu'inda há pouco lias. As horas passam longas, sonolentas... Desce a tarde no carro vaporoso... D'Ave-Maria o sino, que soluça, É por ti que soluça mais queixoso. E não Vens te sentar perto, bem perto Nem derramas ao vento da tardinha, A caçoula de notas rutilantes Que tua alma entornava sobre a minha. E, quando uma tristeza irresistível Mais fundo cava-me um abismo n'alma, Como a harpa de Davi teu riso santo Meu acerbo sofrer já não acalma. É que tudo me lembra que fugiste. Tudo que me rodeia de ti fala... Como o cristal da essência do oriente Mesmo vazio a sândalo trescala. No ramo curvo o ninho abandonado Relembra o pipilar do passarinho. Foi-se a festa de amores e de afagos... Eras — ave do céu... minh'alma — o ninho! Por onde trilhas — um perfume expande-se. Há ritmo e cadência no teu passo! És como a estrela, que transpondo as sombras, Deixa um rastro de luz no azul do espaço ... E teu rastro de amor guarda minh'alma, Estrela que fugiste aos meus anelos! Que levaste-me a vida entrelaçada Na sombra sideral de teus cabelos! ...
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Não sabes
QUANTA ALTA noite n'amplidão flutua Pálida a lua com fatal palor, Não sabes, virgem, que eu por ti suspiro E que deliro a suspirar de amor. Quando no leito entre sutis cortinas Tu te reclinas indolente aí, Ai! Tu não sabes que sozinho e triste Um ser existe que só pensa em ti. Lírio dest'alma, sensitiva bela, És minha estrela, meu viver, meu Deus. Se olhas — me rio, se sorris — me inspiro, Choras — deliro por martírios teus. E tu não sabes deste meu segredo Ah! tenho medo do teu rir cruel!... Pois se o desprezo fosse a minha sorte Bebera a morte neste amargo fel. Mas dá-me a esp'rança num olhar quebrado, Num ai magoado, num sorrir dó céu, Ver-me-ás dizer-te na febril vertigem "Não sabes, virgem? Meu futuro é teu"!
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Poeta
POETA, às horas mortas que o cálice azulado — Da etérea flor — a noite — debruça-se p'ra o mar, E a pálida sonâmbula, cumprindo o eterno fado, As gazas transparentes espalha do luar, Eu vi-te ao clarão, trêmulo dos astros lá n'altura Pela janela aberta às virações azuis, — A amante sobre o peito sedento de ternura, A mente no infinito sedenta só de luz. Perto do candelabro teu Lamartine terno À tua espera abria as folhas de cetim; Mas tu lias no livro, onde escrevera o Eterno Letras — que são estrelas — no céu — folha sem fim Cismavas... de astro em astro teu pensamento errava Rasgando o reposteiro da seda azul dos céus: E teu ouvido atento... em êxtase escutava Nas virações da noite o respirar de Deus. O oceano de tua alma, do crânio transbordando, Enchia a natureza de sentimento e amor, As noites eram ninhos de amantes s'ocultando, O monte — um braço erguido em busca do Senhor. Nas selvas, nas neblinas o olhar visionário Via s'erguer fantasmas aqui... ali... além, P'ra ti era o cipreste — o dedo mortuário Com que o sepulcro aponta no espaço ao longe... alguém No cedro pensativo, que a sós no descampado Geme e goteja orvalhos ao sopro do tufão, Vias um triste velho — sozinho, desprezado Molhando a barba em prantos co'a fronte para o chão. Aqui — ondina louca — vogavas sobre os mares — Ali — silfo ligeiro — na murta ias dormir, Anjo — de algum cometa, que vaga pelos ares, Na cabeleira fúlgida brincavas a sorrir. Sublime panteísta, que amor em ti resumes, Sentes a alma de Deus na criação brilhar! Perfume — tu subias, de um anjo entre os perfumes, Ave do céu — nas nuvens teu ninho ias buscar. Canta, poeta, os hinos, com que o silêncio acordas, A natureza — é uma harpa presa nas mãos de Deus. O mundo passa... e mira o brilho dessas cordas... E o hino?... O hino apenas chega aos ouvidos teus. Todo o universo é um templo — o céu a cúpula imensa, Os astros — lampas de ouro no espaço a cintilar, A ventania — é o órgão que enche a nave extensa, Tu és o sacerdote da terra — imenso altar. |


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