DA SÉRIE POEMAS DE OURO

Sete poemas da poeta paulista Máyda Zanirato
Fênix

Um vento leve varreu a última poeira de ti mesma
Por um instante o reino do nada se instala
e se vislumbra um império de mil anos
de ausência total e
de silêncio profundo e
de escuro, escuro...

Então um clarim não se sabe de onde
anuncia um novo parto de ti mesma
a dor
a alegria
e o recomeço de um tempo novo
e de um círculo eterno

Enquanto um deus mudo e indiferente
preside sonolento
à tua vida eterna
à tua sede
à tua busca
ao teu encontrar-nunca

Mar./87

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Poemateu

 Tu, que ateias fogo
 e foges
 (ah! teu jogo
 que me fez perder
 a fé
 e o foco!)

 fica!

 ateu,
 ah, meu
 ah, nosso amor!
 não quero mais
 nenhum
 (a)deus!

Outubro 2.017



Pousa tão leve
não percebe
os olhos do cão
que desde longe
a segue

nem a mira
inexorável
que enquadra
seu peito frágil
entre as asas

E ele atira

e erra

E ela voa
salva

(valeu minha torcida
pela ave)

nov/ 2.017


Não ao teu brilho fácil à superfície branca
que impermeabiliza
a tua essência

não ao teu riso solto
que oculta porém
o teu por dentro

não à dança num palco
que disfarça
o teu t(r)emor
de amor e medo

não a tudo que te esconde
nesse nicho
em que te cercas
de segredos

Vem só
despido e puro
porque
no escuro que atravesso
insisto que só posso te encontrar
no teu avesso

nov/2017


Por recusar
o pão
o vinho
a dança
a festa
a luz
me chamam de louca
Não sabem
Só tenho uma única urgência:
a da tua boca.

Nov/2017


quando teu nome do fundo do sonho
emerge
e sai como suspiro
e sinto
meus lábios se movendo
te chamando

quando mal desperta vejo
que tenho só teu nome
em minha boca
vazia do teu beijo
que
de tão intenso
me tirou do sono

quando me recuso a despertar de todo
e não ver que o corpo teu
junto do meu
era só um sonho

procuro te pensar então
como se apenas
sonho mesmo fosses

um sonho a que sequer devo dar forma
se acordada
(com medo que se despedace)

e tento então dormir de novo

jan/2.018

  
Confidências do mar

Bate-me aos pés e me conta segredos: amou ilhas distantes
virgens, antes da atual paixão
a prostituta
que se entrega a todos
navios e outros
que lhe usam o corpo. E partem
deixando de lembrança
o sêmem gonorreico
E aos que também a meretrizam
crescendo enfileirados: montes altos de concreto
cheios de verme, bichos
e dejetos

Á tarde caminho ao longo
da sua franja suja
que me molha os pés. E ele explica
um dia ela - amada amante -
vai se desvencilhar de todos eles
( já tenta fazer isso)
e de novo limpa e bela como poucas
será só dele
que pergunta:
Mas vou amá-la tanto assim, quando ela for
no fim
tão parecida com todas as outras?

nov/ 2.017


Saiba mais sobre Máyda Zanirato 
Cursou Letras na Unesp em Assis. Foi professora do Ensino Fundamental , do Ensino Médio e Diretora de Escola
Escreve desde 1984, mas só começou a divulgar seus escritos vinte anos depois, nas redes sociais.

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