DA SÉRIE DESPIDAS DE TUDO


VESTIDAS DE POESIA ♥ A verve da Poeta NASSARY LEE BAHAR
Pau pra toda obra 

Era um gozador assumido
Sofria de uma luxúria incontida
Desnudava com os olhos as damas nas ruas
Desejava que todas fossem suas
Não havia no mundo amante que lhe saciasse o fogo
Se brincar, dispensava conversa, abraço, sorriso
Só podia viver com o corpo em febre
Só podia viver com o falo em riste... teso... rijo...
Na altura de ferver libido e borbulhar nas pernas alheias
A maior vontade era viver assim eternamente fraco
O mosto derramado, o vigor perdido
Não podia se ver molhado ao sair do banho
Não podia repousar sem culpa de polução
Nunca deu descanso à pobre mão
Virou escravo do seu langor
Não podia deitar sem se contaminar com as imagens do dia
Era um desassossegado, rolava na cama, não dormia
Não queria fazer do amor um vício, mas vivia no cio
Não podia dançar colado a dois
Evitava os espelhos, as calças justas e as juras
Não tinha paz de sentir a lascívia do simples
Era voraz na volúpia de qualquer pensamento
Sua pele pubescente, sensível ao próprio vento
Não deixava passar nada pra depois
Que já caía de pau matando
E já se imaginava com seus quartos presos nas ancas
O cavalo montado, o comando na coma
A veia saltando do pescoço, as costelas bailarinas
O fôlego curto, regrado, as noites pequenas
Sua existência era mesmo fecunda de prazer
Absurda, a sua tara
Vivia sempre pronto, em ponto de bala.


Soneto Tântrico

Gostava de ser amada como quem põe a mão na chama
Com as pernas enlaçadas no ritmo de um devaneio
Os cabelos libertos, estendidos, uma imensa trama
O eşarp de leopardo ao colo quente de um cálice cheio

Acendia velas e versos no decoro ao pé da cama
E adoecia - docemente - com os lábios suicidas à beira do seio
Seus grandes olhos negros, fecundos, fundo abismo ao corpo que inflama
Fechavam-se aos espasmos cerzidos no ardor do seu meio

Mas abriam-se a todos os portais de prazer no milímetro de cada detalhe
A vontade mais secreta, desvendada e devolvida
Na côrte dos tecidos da pele, pincelada pelas notas de "Animale"

O fogo aumentado; o mel regado; a flor colhida
A longa dança das horas no resto de aurora: o grand finale
Era assim bem devagar que destilava o sentir em cada medida.


Gozo poético*

Quanto mais do negro a noite chama,
por pura lembrança, o meu corpo declara e reclama
A fama que faz...
quando tu, em mim, se derrama.

*Prêmio de poesia Américo de Oliveira Costa (Edufrn, 2015).

Nenhum comentário:

Postar um comentário