Bartolomeu Campos de Queirós:


Uma literatura de encantamento e sonho


Por José de Castro* 


Este ano, em janeiro de 2018, completaram-se seis anos do encantamento do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. Tive o grande prazer de conhecê-lo pessoalmente. Uma pessoa calma, que nos encantava também com sua fala mansa nas palestras que ministrava. Estive relendo alguns livros desse  autor premiadíssimo: Selo de Ouro da FNLIJ, Prêmio Bienal de São Paulo, Prêmio Prefeitura de Belo Horizonte, Jabuti, Diploma de Honra da IBBY de Londres e Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, dentre outros, o que é sempre motivo de novas descobertas.  

Partiu em 2012, mas nos deixou muitos títulos, mais de 64 livros escritos, dos quais podemos extrair sempre preciosas lições de vida. Mario, Pedro, Indez, Escritura, O olho de vidro do meu avô, Raul, Estória em três atos, O fio da palavra,
são alguns deles, todos com o encanto próprio de um autor que sabe lidar com as palavras. Mais que isso, tem o poder de mergulhar dentro da alma e do coração delas. Destila em cada frase uma essência singular, única, que inebria como se fosse matéria de sonho, com suavidade, leveza e profundidade. Por todas essas  peculiaridades e extremo esmero no trato da linguagem, a obra de Bartolomeu Campos de Queirós tem merecido vários estudos acadêmicos, sempre admirada e elogiada em todos os níveis.

Dentre seus livros, destaco  Diário de Classe, Ciganos, A faca afiada, Cavaleiros das Sete Luas, Coração não toma sol, Onde tem bruxa tem fada, Correspondência, Ler, escrever e fazer conta de cabeça, Para criar passarinho, Até passarinho passa, Elefante, A árvore. 

Desfrute um pouco desses encantamentos e da magia de Bartolomeu Campos de Queirós retirados dessas doze obras. 

 01. DIÁRIO DE CLASSE (SP: Moderna, 1997)
“Se olho demoradamente para uma palavra descubro, dentro dela, outras tantas palavras. Assim, cada palavra contém muitas leituras e sentidos. O meu texto surge, algumas vezes, a partir de uma palavra que, ao meu encantar, também me dirige. E vou descobrindo, desdobrando, criando relações entre as novas palavras que dela vão surgindo. Por isso digo sempre: é a palavra que me escreve.”

02. CIGANOS (BH: Miguilim, 1996)
“Foi de seu pai que ele herdou essa mania calada, esse jeito escondido e mais a saudade de coisas que ele não conhecia, mas imaginava. Sua vontade de partir veio, porém, do desamor. Tudo em casa já andava ocupado: as cadeiras, as camas, os pratos, os copos. Mesmo o carinho distribuído...”

03. A FACA AFIADA (SP: Moderna, 1997)
“Naquela noite o menino mais velho perdeu o sono. Encolheu bem o corpo para caber menos medo. Apertou as meninas dos olhos para não deixar escapar o sono. O vento gemia fino nas gretas das janelas. As tábuas do assoalho rangiam soluços. No forro de esteira caminhavam as suspeitas.”

04. CAVALEIROS DAS SETE LUAS (BH: Miguilim, 1997)
“Foram sete anéis de ouro
sete alianças de prata
sete coroas em flores
trançadas por sete amores...”

05. CORAÇÃO NÃO TOMA SOL (SP: FTD, 1998)
“Assim o coração continha intensos e diversos segredos: de alegria, de mágoa ou eram de dor e sorte ao mesmo tempo, as coisas. E o coração que não tomava sol restava sem pausa para pontuar todas as histórias.”

06. ONDE TEM BRUXA TEM FADA (SP: Moderna, 1983)
“Um dia, Maria do Céu cansou de ser ideia. Com as nuvens, costurou um vestido. Pediu emprestados os sapatos de um anjo. Arrancou sua estrela e colou na ponta de um pedaço de raio de Sol. Com retalhos de papel de seda – resto de um papagaio solto de linha – construiu seu chapéu. E Maria, ideia no céu, virou Fada!”

07. CORRESPONDÊNCIA (MG: Rhj, 2004)
“Como são fortes as palavras! Elas dizem coisas que só o coração escuta. Se escritas sobre papel claro, ficam mais iluminadas e eternas. Sei que as palavras podem abrir novo caminho.
Procurei dentro de mim alguma palavra dormindo. Só encontrei uma: Igualdade. Ela nos permite viver as diferenças.”

08. LER, ESCREVER E FAZER CONTA DE CABEÇA (SP: Global, 2004)
“Parecia muito pequeno o ideal de meu pai, naquele tempo, lá. A escola, onde me matriculou também na caixa escolar – para ter direito a uniforme e merenda -, devia me ensinar a ler, escrever e a fazer conta de cabeça. O resto, dizia ele, é só ter gratidão, e isso se aprende copiando exemplos.”

09. PARA CRIAR PASSARINHO (SP, Global, 2009)
“Para bem criar passarinho
  é bom ter asas na alma,
  imensa inveja dos voos e
  viver leve com as penas.”

10. ATÉ PASSARINHO PASSA (SP: Moderna, 2003)
“Mas havia naquele tempo, entre tantos outros, um passarinho que eu mais amava. Ele chegava transportado por um voo raso. Pousava sobre a grande varanda, olhando por todos os lados. Parecia querer estar só comigo, eu pensava com vaidade. Depois me pedia licença para entrar, como se precisasse.” 

11. ELEFANTE (SP: Cosac Naify, 2013)
“Ele entrou no meu sonho, sem licença. Chegou pequenininho como se fosse filho da insignificância. Seu andar perdido, pisando dúvidas, parecia transportar o passado em suas costas. Não se desfaz da carga do passado. Ele sabia que o futuro é só matéria de fantasia.”

12. A ÁRVORE (SP: Paulinas, 2011)
“Pelo muito que minha árvore me faz pensar, tenho por ela um respeito desmedido. Passo horas do meu relógio decorando as lições que minha árvore me ensina. Ela não sabe que é minha professora. Aliás, desconfio que minha árvore viva gratuitamente. Eu é que necessito dar sentido à sua existência.”

Aqui ficam essas doze sugestões de leitura desse mineiro que dizia:  Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar, como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar.
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*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Mestre em Tecnologia da Educação. Autor de livros infantis (A marreca de Rebeca, O mundo em minhas mãos, Poemares, Poetrix, Dicionário Engraçado, A cozinha da Maria Farinha, Poemas Brincantes, Vaca amarela pulou a janela). Contatos: josedecastro9@gmail.com.


UM POEMA DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS

O fio da palavra

A vida é um fio,
a memória é seu novelo.

Enrolo – no novelo da memória –
o vivido e o sonhado.

Se desenrolo o novelo da memória,
não sei se tudo foi real
ou não passou de fantasia.

A vida é um fio
mais fino que a linha da aranha.
Tem uma ponta no nascimento
e a outra: eu não sei, não.

(Bartolomeu Campos de Queirós, in O fio da palavra, RJ: Galera Record, 2012)




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