A verve da Poeta baiana Lia Sena


viva

não é porque trago nos olhos
essa faca atravessada
depois do último susto
que esquecerei as pedras polidas
durante os longos anos.
nem a blasfêmia
- salpicada a pó nos meus cabelos
vincará de ódio cego
a pele calma
do meu desassossego.
nem segredo é
que ainda vivo
- e anseio


Lia Sena em Outras Carolinas – Mulherio da Bahia (Editora Penalux/2017)


Impressões

a farpa do meu contentamento
não resvalará no osso - exposto -
não fincará dente na rebeldia
no déjà vu que invento e proclamo.
Qualquer engano, tomará a curva
da esquina. suspiros e ais, já estão
na cartilha linda que diagramei toda
em versos. só pra impressionar.
Vou viajar naquela canção escrita
naquele livro não lido - mas que lerei 
um dia. nos filmes todos vistos. nos teatros
lotados de tantos espetáculos. a mala pronta
é só delírio. a foda inesquecível campeia
a casa. (será na escada?). o vulto que se move
é só cortina, centelha e perfume. saudade 
é bicho besta que a gente puxa pelo rabo
arrasta e doma.

Lia Sena em De foro íntimo (Editora Penalux/2018)

 •

assim acontece

não escrevi teu nome
num rastro de estrela.
não sussurrei baixinho - letra por letra-
aos pés do santo milagreiro.
não descobri nos livros - romances incansáveis -
o jeito mais certo de traduzir o amor.
não dedilhei no violão
a tua música predileta.
não redesenhei meus gostos.
não me contive nos gestos.
não elegi o teu filme predileto dentre os meus favoritos.
não tentei magias ou quebrantos.
não fiz pedidos sob a lua.
não desembarquei na tua cidade natal
no país dos teus sonhos, no teu refúgio predileto.
não cozinhei o prato que preferes.
não te seduzi com carícias, carinhos, sortilégios.
não desembarquei no teu porto seguro.
não visitei os teus jardins - não me cerquei dos teus muros -
não te convenci dos meus princípios.
não te persuadi com meus saberes.
não te comovi com histórias tristes.
não te impingi minhas verdades.

desnudei-me.
(sendo somente o que sou),
subverti tuas vontades,
teus olhares,
tua ânsia
teu amor.

Lia sena em de Foro íntimo (Editora Penalux/2018)


das danças

já dançava.
[acho que tinha três]
meus pés (treinando a ponta)
sobre os seus pés
ele me guiava
(eu perguntava: não dói, pai?)
o salão de festas
a sala da casa
(pra mim tinha luzes e orquestra)
suas mãos sustentavam os bracinhos esticados
e rodopiava, rodopiava...
depois das longas viagens
a alegria voltava
o salão de festas mudou
tem muitas luzes
[estrelas]
meu pé de bailarina
perdeu o passo
perdeu o par
[acho que nunca mais dançou]


Lia  Sena em De foro íntimo (Editora Penalux/2018)

Saiba mais sobre Lia Sena•

Lia Sena é poeta baiana, graduada em Letras pela Uefs e escreve desde a infância. Publicou quatro livros: Pedaços (Editora Interbahia/1981); Por Todo Risco (Edição independente/2013); Lume dos Anseios( Edições MAC, Coleção Vinho e Poesia/2014); De foro íntimo (Editora Penalux/2018).  Participou de várias Antologias e recentemente foi uma das organizadoras revisora e participou com poemas da Antologia Outras Carolinas – Mulherio da Bahia (Editora Penalux/2017). Ganhou Menção honrosa pela segunda colocação no Prêmio Sosígenes Costa de Poesia 2017. Criadora do Sarau das Mulheres em Feira de Santana-BA.


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