A poesia de Ivan Carlos Regina



Sou de peixes, vim do mar, vivo em águas
Profundas, onde, aos meus sentimentos, se misturam,
Líquens de plânctons, e as areais capturam,
De outros seres, os sofrimentos e as mágoas.

Entre sargaços velhos meu coração habita;
Naufraguei há muito tempo, quem o sabe?
Estou preso em destroços até que o tempo acabe
Condenado a ter a solidão do eremita

Meu elemento é este líquido salgado;
Minha sina é sofrer muito e calado.
Creio que apenas meu corpo seja humano,

Pois a alma que carrego é marinha,
A tristeza com certeza é toda minha
E o espírito vaga perdido no oceano.



Não me exijam mais atitudes e comportamento,
nem aos outros igualar-me quero.
Depois que rasguei o mapa, espero
caminho repleto de deleitamento.

Estou velho para trilhar repetir,
arranco abrida e mordo a guia,
cuspo hoje no rosto a quem antes seguia,
meu caminho é por onde eu queria ir.

Trepanei meus tímpanos para não ouvir chamados,
e só aos sonhos agora dou ouvidos.
Pela base meus deuses foram arrancados

e meus parentes todos esquecidos.
Só a quem a si mesmo se conhece de verdade
pode empunhar o doce archote a que chama liberdade.

 •

O menino que um dia fui, veio num fim de tarde me visitar.
Havíamos nos perdido no meio do caminho, logo não nos conhecíamos.
Ele nada falou, eu tive medo de perguntar a razão pela qual viera.
Olhei, surpreso, sua calça curta e seu olhar repleto de esperança.

Fui assim um dia, pensei, perplexo, sem me reconhecer.
O garoto também me olhou longamente, refletindo no que se tornaria.
Como é difícil perder as ilusões que um dia possuímos,
Como é difícil se ver despojado delas, ele pensou.

Talvez não houvesse realmente palavras e serem ditas.
Um pensava no que perdera, o outro em que perderia
e ambos criam ser maior a sua dor.

Ele afastou-se, feliz em esquecer o que seria.
Eu fui embora, alegre de não me comparar em que me transformara,
e ambos seguimos nosso caminho, unidos pela mesma dor.

 •

Supus que pudesse chorar toda a dor que havia no meu peito.
A cada lágrima que rolava, outra a sucedia
e assim, dia após dia, nunca fui refeito
do pranto convulsivo que meu corpo abatia.

A água inundou este universo conhecido
transformando a matéria em ilusão vazia,
e o cinza se fez como único colorido
que o meu dolorido ente conhecia.

Na literatura fui então procurar alívio,
pedi alguma coisa que pudesse apagar
o fogo do inferno em que eu vivia.

Li, e das letras desenhada sobre o quadro níveo,
surgiram Deus e o Diabo a exclamar:
Toma! É tua toda a poesia!


Um comentário:

  1. Gosto de visitar a Revista de Ouro, sempre com matérias muito interessantes de se ver, mas hoje tive um motivo especial: os poemas do Ivan Carlos Regina. Lindos. (Assinado mãe coruja)

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