03 Poemas de Angela Zanirato


O cansaço do poeta
estou  vaga vazia
vesga de espírito
prostrada
lanço um  grito
arrebento meu peito
de cristal

(cigarra lírica
sem ninho
a voar como pássaro cego)

sobre o pentagrama do infinito
costuro silêncio nas pontas
do véu da noite
minhas palavras descabidas
descobertas
usam gorros

meu primeiro verso
viu a alma humana
em tons invertidos
-chorou lágrimas escondidas-

aprendi arranhar o dia
com as garras da tristeza
meu coração pensativo
leva ao princípio do verbo
descubro que a poesia
é o cansaço do poeta.

 ♣

O Louco

no espelho há um convite do louco
para bailar dentro de minha própria demência
pintar meu cabelo de fogo
acender um cigarro na brasa dos meus olhos
rasgar meus trajes...

desfaço-me das minhas humanas misérias
meu capital inventado
minha mão de obra
desbaratada
minha identidade forjada
meu mundo cão adestrado...

hoje o louco mora em mim
seduzida pela loucura
andarilhei
moro no não lugar
desatinada...


Ânima

parti do meridiano de greenwich
para nascer de novo
em uma cidade de longitude 46º49'18"/ oeste
pari a mim mesma/ parto feito a fórceps
nasci côncava /ambidestra
desordenada/ em ciclos de caos
sobrevivi de vazios
minha alma voltada para o poente ...

ah! tempo!
curvei-me a ti
a estas terras estranhas
que minhas entranhas engolem seco
cuspo certezas ,desobstruo olhos
me encharco de uma miragem inventada
em fins de tarde
sonho palavras novas
para compor minhas paisagens ...

(meu autorretrato incompleto
encontra o ventre materno
vazio de fotografias...)



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