A VERVE DA POETA ANGELA ZANIRATO

Poesia, poesia

conta qual a primeira vez
que a palavra pedra te rondou?
foi a pedra pensante de Wallace Stevens?
ou a pedra viúva de Mallarmé?
a pedra queimada de  Aleksandr Blok?
a pedra  poética de Ósip Mandelstam?
a pedra –ferro de Hilda Hilst?

poesia, poesia
tuas pedras doem  a cada verso
meu coração calcificado
asas amputadas
lírios desossados
este olhar pétreo
constrói muros
dorsos dobrados
pedra sabão

poesia, poesia
tuas pedras
mostram o caminho
dos voos
dos vasos
dos vales
dos ecos
dos gritos das mulheres apedrejadas
poesia, poesia
mostre a ultima pedra do poema :
- ensina a caminhar em  pedras brutas.


Simbiose

com palavras interditas pela mãe
a menina fez poesias
rascunhou feridas
nos panos de trapos
enxugou lágrimas desconhecidas
deixou pentear os cabelos
(mínima proximidade permitida )

com os hinos cantados pela mãe
declamou versos reprimidos
pressentiu fé e vertigens
caminhou procissão de braços dados
buscava redenção e não castigo

com os varais estendidos pela mãe
lavou mágoas esquecidas / recolheu garras ferinas
calou a boca da fome
secou os primeiros gritos

com os rosários arrebentados pela mãe
fez adolescentes pulseiras coloridas
mediu distancias entre mãe e filha
calculou área e perímetro:
-não havia métrica poética
nem girassóis a enfeitar gaiolas
existia um muro comprimindo

com as garrafas de aguardente deixadas pela mãe
fez solos de guitarras
entornou solidão em copo duplo
descobriu-se desarmônica/desencontrada
sem ecos/ sem elos
palavras descosidas
olhos de ir embora

com a maquiagem deixada pela mãe
tatuou o amor em crucifixos
sombras e sobras de amor
esculpiu o rosto no rio/vazio
fez fogueiras
queimou navios
passou a alçar voos nos alagadiços

encontrou-se só
separada de si.


Poço

do poço, a mulher não tirava só a água
na subida da úmida corda viajavam pensamentos
a janela mostrava a estrada: queria partir
o sertão tirou da mulher a conformidade
tirou a sina
quebrou juramentos
nunca mais a parábola da fome rondaria sua mesa
multiplicou sonhos
agora estava pronta para multiplicar os pães
(quando partiu levou deus no alforje).


Saiba mais sobre Angela Zanirato


 As palavras chegaram até mim em tempos de dor, mas minha mão não pesou. Ao contrário, ela se mostrou leve, e as palavras fluíram. Escrevo há 17 anos.  Nasci em Itapira/SP, moro em Paraguaçu Paulista . Sou professora de História, Pós-Graduada pela UNESP de Assis e pela UEM, Maringá.
 Participei do Mapa Cultural Paulista em 2015/2016, fui classificada nas fases municipal, regional e fui para a fase final na modalidade conto.
Participo da Associação de Escritores e Poetas de Paraguaçu Paulista-APEP.Tenho poemas publicados em três antologias:“Um Olhar Sobre” coletânea da APEP em 2014, “Filhas de Maria e Valentim”,2015 e “Um Olhar Sobre”, coletânea da APEP em 2017. Tenho poemas publicados nos sites Blocos Online, Cronocópios , Parol , Movimiento Poetas del Mundo e Antologia do Mapa Cultural Paulista edição 2015/2016 ,versão  ebook.

3 comentários:

  1. Poemas intensos; gritos poéticos que denunciam; "navalha na carne"; como definir o Poetar de Ângela Zanirato? Poesia de primeira. Jóia rara. Contente em vê-la, aqui.

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  2. Angela não é pedra bruta.. Lapida-se no dia-a-dia e esparge seus cascalhos brilhantes em nossas vidas.

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  3. Vejo o seu caminhar na literatura em crescente magia, a cada novo texto, a cada nova poesia sua. Encanta-me e espanta-me essa sua forma de conduzir palavras tão levemente, tão fortemente, tão belamente, pois as palavras escorrem entre seus dedos como fonte inesgotável de infindáveis beleza. Seu alforje é pleno de vivências entre pedras e os varais da vida. Orgulho de e por você.

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