A POESIA DE ALMEIDA GARRETT

NÃO ÉS TU

Era assim: tinha êsse olhar,
a mesma graça, o mesmo ar;
corava da mesma côr
aquela visão que eu vi
quando eu sonhava de amor,
quando em sonhos me perdi.
Tôda assim: o porte altivo,
o semblante pensativo,
e uma suave tristeza
que por tôda ela descia
corno um véu que lhe envolvia.
que lhe adoçava a beleza.
Era assim: o seu falar,
ingênuo e quase vulgar,
tinha o poder da razão
que penetra, não seduz;
não era fogo, era luz
que mandava ao coração.
Nos olhos tinha êsse lume,
no seio o mesmo perfume,
um cheiro a rosas celestes,
rosas brancas, puras, finas,
viçosas como boninas,
singelas sem ser agrestes.
Mas não és tu, ai não és:
tôda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
não és a mesma visão,
que essa tinha coração;
tinha, que eu bem lho senti!


CASCAIS

Acabava ali a terra
nos derradeiros rochedos,
a deserta, árida serra
por entre os negros penedos
só deixa viver mesquinho
triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados
sopravam rijos na rama,
e os céus turvos, anuviados,
o mar que incessante brama:
tudo ali era braveza
da selvagem natureza.
Aí na quebra do monte.
entre uns juncos mal medrados,
sêco o rio, sêca a fonte,
ervas e matos queimados,
aí nessa bruta serra,
aí foi um céu na terra.
Ali sós no mundo, sós,
santo Deus! como vívemos!
Como éramos tudo nós
e de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida,
de tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim!
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim!
Como eu tinha nela tudo,
minha alma em sua razão,
meu sangue em seu coração!
Os anjos aqueles dias
contaram na eternidade
que essas horas fugidias,
séculos na intensidade,
por milênios marca Deus
quando os dá aos que são seus.
Ai sim! foi a largos tragos.
longos, fundos que a bebi,
do prazer a taça: amargos,
depois, depois os senti,
os travas que ela deixou,
mas como eu ninguem gozou.
Ninguém, que é preciso amar
como eu amei, ser amado
como eu fui, dar e tomar
do outro ser a quem se há
tôda a razão, tôda a vida
que em nós se anula perdida.
Ai, ai, que pesados anos
tardios depois vieram!
O que fatais desenganos
ramo a ramo a desfizeram,
a minha choça na serra,
lá onde se acaba a terra.
Se o visse — não quero vê-lo,
aquêle sítio encantado:
certo estou não conhecê-lo,
tão outro estará mudado,
mudado como eu, como ela
que a vejo sem conhecê-la.
Inda ali acaba a terra,
mas já o céu não começa,
que aquela visão da serra
sumiu-se na treva espessa,
e deixou nua a tristeza
dessa agreste natureza.


O DESTINO

Quem disse à estrêla o caminho
que ela há de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta: Floresce,
e ao mudo verme que tece
a sua mortalha de seda
os fios quem lhos enreda?
Ensinou alguém à abelha
que no prado anda a zumbir
se à flor branca ou se à vermelha
o seu mel há de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
teus olhos a minha vida,
teu amor todo o meu bem,
ai, não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
como no céu gira a estrêla,
como a todo o ente o seu fado
por instinto se revela,
eu no teu seio divino
vim cumprir/meu destino;
vim, que em ti só sei viver,
só por ti posso morrer.

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