TOP 10 - OS DEZ POEMAS MAIS LIDOS EM 2017

Eis os dez poemas mais lidos na plataforma da REVISTA DE OURO em 2017. Com Paulo Miranda Barreto, David Moura, Cristhina Rangel, Edy Gonçalves, Nassary Lee, Nilson Vieira Moreno, Claire Feliz Regina, Débora Mitrano e Eliete Marry

A SENDA
PAULO MIRANDA BARRETO
 -
No final da vida
da lida, da estrada
da linha que finda
no fim da picada

tudo se desvenda. . .
Nada leva á Nada
Para além da lenda
a Verdade brada

Lá ninguém duvida
da Alma lavada. . .
Entrada é saída
Partida é chegada

Retirada à venda
reluz desvendada
a infinita Senda. . .
nada dá em Nada.

  
VALORES INFUNDADOS
DAVID MOURA
-
"E pasmo de que, sendo um Satanás,
Com tinta faças o sinal da Cruz!"
Bocage

Dissecarei teus vícios e mazelas
Co’a precisão das lâminas fatais,
Pois eu já consegui provas cabais
Contra as podres mentiras que revelas!
Se a multidão te escuta enquanto vais
Desfilando o teu rol de frases belas,
É porque desconhece que estão nelas
Os horrorosos gritos dos boçais!
Giras como um inseto moribundo
Em doidos rodopios alternados
Às voltas do que finges ser teu mundo:
És só um caso a mais de alienados
Que culminou com teu amor profundo
Por todos os valores infundados!


LEMBRANÇAS FATIADAS
BENTO CALAÇA
-

Não se via um astro
no mínimo
estrela de nêutrons
quase um caga-lume
vagabundo.
Enfeitiçado pelas bruxas
que voavam
em vassouras de alumínio
com cachinhos caracóis
descia a ladeira dos prazeres
em cima de um carrinho
ralando os dedos nas curvas
para controlar as rodas de rolimãs.
Era bicho solto safo maloqueiro do Recife
levado por uma inocência branca
ladeira abaixo.
algumas tardes
enquanto os helicópteros
resfriavam o sol
ocupadíssimo com o vento
ele empinava sua pipa de jacaré.
com o fermento da esperança


PEQUENOS DEFEITOS
NILSON VIEIRA MORENO
-

pois eu nunca tive defeitos pequenos
há tempos não peno sonhando-me o eleito
exceto uns senões sou até bom sujeito
tirando o sem jeito até sou mais ou menos

o réu mais direito a mim mesmo condeno
confuso e sereno confesso e suspeito
posando de ingênuo meu caos é conceito
demais contrafeito do próprio veneno

sou juras e juros cobrados na fonte
desculpas aos montes e enormes securas


temendo a censura que vem do horizonte

no meio da ponte meu salto procura
que a própria paúra por fim se amedronte
e um verso desponte de cada fratura


AO MAR DE PERNAMBUCO
CRISTHINA RANGEL
-
É que por gratidão
não quero a morte
mas se desse Deus
a mim o direito
De escolher a sorte
da minha partida
sem medo escolheria
o mar...

Não haveria de ser
um mar qualquer
haveria de ter
um verde sem par

Um céu azul infinitamente
mais bonito que outros céus
 e areias claras, 
 e um maracatu de seres
marítimos, 
dançando frenéticos

E eu,  em braçadas largas
iria ao horizonte
olhando vez ou outra
para as palmeiras
pra ver de longe o farol
se apagando

E eu me largaria feliz
no ventre da minha
terra pernambucana.


A RECEITA DE BOLO
CLAIRE FELIZ REGINA
-
Meu vizinho queria fazer um bolo,
me pediu a receita.
Eu não tinha a receita,
mas eu tinha vinte anos!
Fui ajudar...
Não tinha farinha para ele amassar
com as mãos,
ofereci meu corpo
e ele amassou.
Não tenho açúcar, ele me disse,
ofereci meus lábios
e ele beijou.
Ele era bom cozinheiro,
pôs o leite para ferver,
o leite fervia no meu corpo inteiro.
Nós dois queríamos fazer o bolo,
mas...e a receita?
Ele abriu o caderno,
estava escrito,
me ama.
Não fomos mais para a cozinha
fomos para a cama.


JANTAR DE FINADOS
NASSARY LEE
-
Vi outra vez uma dor que conheço bem
Tão intensa
Tão estranha
Tão tamanha
Afundava igualmente em mim
Quantas vezes eu também já me maldisse?
Quantas vezes eu também quis não existisse?
E senti arranhar-lhe sem fim
E vi mesmo só uma dor que neguei
Naquele triste olhar: o meu maior conforto
Naquele peito vazio: o meu eterno alimento
Quis compartilhar nossas revoltas!
Vi-lhe lavando os pratos com suas lágrimas
Antes de vê-los limpos, secos, raspados (como nós)
Quis tomar um copo, pouco que fosse, de sua angústia
Esmurrar e não "bater" (como talheres)
Quis entender tanta coisa...
Por que ele sentou - comeu - e saiu?
Por que ela chorou - parou - e sorriu?
Para que vomitar nossas mágoas?
Se os restos nem mendigos querem?
São restos humanos
Recolhe-se a mesa
Recolhe-se a insignificância de sempre
Estica-se a toalha
Esticam-se as mãos para se agarrar com força
A barriga cheia
Tudo volta ao normal!


SOBRE CHEIROS E DESPEDIDAS
DÉBORA MITRANO
-

Há um cheiro de doença e despedida,
no fio dos meus cabelos.

Eles caem no ralo em fios grandes,
unidos uns aos outros
Há um cheiro de perfume velho no meu peito
e minhas terminações nervosas sofrem.

A floresta de uma só árvore significa minha solidão.
Os frutos caindo no chão é a dificuldade em chegar até mim.
A doença não me define.

As clínicas psiquiátricas servem para transformar pessoas em ratos de laboratório.

Meus cabelos não param de cair.
As despedidas nunca são anunciadas,
mas algumas são sentidas secretamente
no momento em que se são despedidas.
Gosto de escutar American Football
antes de dormir.
Never Meant.

4:28 de nostalgia.
Os remédios as vezes ajudam,
mas os pensamentos psicóticos continuam.
Bebo cerveja sem álcool para entrar na realidade.
O que é poesia?.
Senão a arte de esquecer.
Há um cheiro de despedida na minha casa,
ela fede a desilusão.

Um cheiro de despedida nos meus cabelos,
em que tua mão afagou.
Um cheiro de enfermidade nos meus vestidos.
Doença e despedida:
dois segmentos da mesma medida.


DOSANDO A SAUDADE
ELIETE MARRY
-

Amo-te à distância
No silêncio do meu coração
Amo-te em doses de leveza
E em doses de vulcão
Ao me explodir de desejos
Surge a calmaria
De teus suaves beijos
Tranquilizas meus instintos
Afagando-os de carinhos
Mas se me queimam
as chamas da saudade
Bebo doses paz
Inalo teu cheiro
doce lembrança
Que logo me invade
E ali me embriago
Amo-te em silêncio
E de dose em dose
Venço a ânsia
De amar-te à distância!


NUNCA MAIS
EDY GONÇALVES
-

Nunca mais dos teus olhos os astros,
Nunca mais dos teus poros delícias,
Nunca mais dos teus dedos carícias,
Mais brilhantes, porém, nossos rastros.

Nunca mais o voejar contigo,
Nunca mais um amor verdadeiro,
Nunca mais viração do teu cheiro.
Tudo morto... Mas vive comigo.

Ao pensar no que sou, reconheço:
Não sou mais que lembranças fatais.
Se a beleza perdeu-se, esmoreço

Nesta vida e caminho pra trás.
Ouço o corvo de Poe e enlouqueço:
Nunca mais... Nunca mais... Nunca mais...

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