TRÊS POEMAS DE VANIA LOPEZ

PEQUENO PEDAÇO EXTASIADO

hei de tragar a noite quando ela corta o vestido
como uma faca inventada
feito água aparecendo no silencio das coisas
água negra, água grata.
quanto mais escura à noite, mais profunda as asas.
quero tanto me perder negra
como se morresse 
esvaziada por todas as cores insensatas
pequeno pedaço extasiado
que sai da completa penumbra 
e atravessa o oceano na ponta dos dedos,
atrás do carvão ondulado dos teus cabelos.
essa negra água,
tecendo com ferocidade,
a presença do nosso eco. sim, eu o serei. 
em todos os pincéis perplexos e mudo.


O ENSAIO DAS ORAÇÕES

sob a cintura do vestido aspirava a noite

os anéis dos cabelos, mar entreaberto
molha os ombros em contradições de azul
naufragando em sal dentro de um navio

teus olhos menino, esquinas tardias
fazem as raízes da noite estremecerem
queimando em minhas mãos a calma
cativa-me a claridade com que captas o silencio
o ensaio das orações

se, o tempo mudo é quando fala mais de ti.
por Deus, pra que servem as palavras?

  
IMPUNE ATÉ A ÚLTIMA LINHA

havia céu, noite... e, nenhum mundo.
havia uma loucura tão serena... e teus cabelos
encobrindo o mar
ocupando os espaços da estante
desaparecendo nos contornos dos livros,
onde só teu nome consome
como se não houvesse tremor.
quando o sol muda de lugar, para ter-te mais um pouco.
espaço e tempo se encerram tal um violino que se perde no ar.
aqui dentro fica calmo.
queimo o bom vestido por uns tempos 
me detenho na saudade ali esquecida,
que começou como chuva bem fininha
impune até a última linha
 alagada no eco dos seus dedos.


Vania Lopez é mineira de Itajubá. Autora de 24 livros e dona de uma alma ensolarada que em noites avermelhadas atravessa o papel com palavras.

                http://vaninhaporquespraques.blogspot.com/


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