QUANDO A POESIA NOS DEIXA SEM PALAVRAS

Morre em Maceió o professor e Poeta BENTO CALAÇA. Bento Calaça não era simplesmente mais um poeta da internet, CALAÇA é, e sempre será um POETA com P maiúsculo, um POETA com todas as letras maiúsculas, um POETA GRANDE. Um POETA GRANDE com uma humildade gigantesca. Um facilitador, um verdadeiro mestre das letras. Hoje a poesia está de luto, o POETA que tanto nos ensinou, deixou a pátria dos homens visíveis para encher a pátria celeste de poesia, de poesia de primeira, de poesia “biscoito fino”... Grande menino! Eis alguns poemas de BENTO CALAÇA, que sem dúvida é um gigante da poesia contemporânea... Vai em paz, POETA! 
ZINABRE DA MORTE

Chumbo perdido
besouro sem asas
voláteis sedento
fazendo inocentes
chumbo perdido
um grito de dor
a noite fedendo
ferida e horror
chumbo perdido
da morte o espinho
que mata e crava
que crava e mata
apagando caminhos


TORMENTA

Feras deitam unhas na noite
Luz sombra sangra gemendo
Carne fresca vendida em orgias
Por parasitas que engordam

No desespero que a fome traz
Corpos nus evaporam - se na noite
Perdendo o orgulho ganhando em ira

Possuídos devoram o ócio até o tutano
Olhos de peixes nas mãos corroídas
Com línguas e falos a pele tateia

Os corpos amanhecem ocos
Umbigos entram em órbita
A nave cheira sangue e sêmen
olhos mortos fitam os céus


NA ONDA DA PRIMAVERA SÌRIA

O destino sentencioso
Das aldeias em destroços
O sino leproso
Toca nos ossos.
Para sempre selado está
O Inferno de bombas e fumaça
Síria ao deus-dará
Espírito de luz baça
Bashar al-Assad.

Há de se confiar
Em Kofi-Annan ou Alá


DIÁRIO DE UM NÁUFRAGO

O mar visto da pedra onde estou
transborda pelas manhãs
de peixes e pássaros

não eram minhas as mensagens
que recebia em garrafas na praia
mas com o tempo foram sendo...
fiz verdades em garrafas de outros.

Eu, que nunca tive um Deus
com quase meio século
descubro ser o meu Deus
o mar.
Temperamental e traiçoeiro
às vezes manso como um cordeiro
dissolve-se em sal no azul do céu
enquanto gaivotas, voam penas
feito folhas.
Ateei fogo ao passado
para dormir em travesseiros de cinzas
e da ilha dos sonhos
nunca mais voltar
Engolido pelo pôr do sol


ULISSES & IARA
.
Pelo encantamento
do canto á luz da lua
feito rede de pescar
agulhinha branca
assim Ulisses é fisgado
para as águas fundas
da sereia Iara
.
Os sinetes tocam
canta uma voz de mel
dessa vez Ulisses não veda
os ouvidos com cera
joga-se enlouquecido ao rio
por entre as cortinas de rendas
para sem juízo amar Iara.


TRISTÃO & ISOLDA

Tristão fez de sua honrada missão
pesadelo paixão morte luxúria e dor
Isolda teria sido entregue ao Rei, sã
não tivessem tomado o chá do amor.
.
A noite cai sobre a nau sem piedade
os lábios tocam-se num afeto de mel
amor num périplo para imortalidade
também sem fim n'uma alegria cruel
.
Tristão e Isolda representam uma era
vencendo trevas, gigantes e dragões
amor eterno, divino, rompendo grilhões.
.
Com rapidez a realidade já é quimera
foi possível desamar e amar até onde deu
morreram juntos mas o amor não morreu.



GIRASSOL

Morro de saudades
essência dos meus dias
deusa da flor amarela
como és bela!
por onde andas
depois que o inverno
se abateu em minha janela?
voltas pelo sol
ou pelas telas de Van Gogh.


ADENTRAR NUM LIVRO DE BANDEIRA...

adentrar num livro de Bandeira;
é sentir o cheiro doce de goiabada
cascão;
é andar por praias desertas
cheias de conchinhas raras;
revendo nuances de estrelas do telhado
de nossa infância;
ouvir o frevo pernambucano
girando o sol nas sombrinhas coloridas de Olinda;
é ter saudade do retrô amarelo da gravata
do palhaço;
e até mesmo quando o destino ignora o vento
e o desassossego não tem varandas
para os sonhos mais simples
encontra-se sempre pela estrada coivaras acesas
para um eventual pulo mortal á Pasárgada
e de lá, dá nó em pingo d'água!


LEMBRANÇAS FATIADAS

Não se via um astro
no mínimo
estrela de nêutrons
quase um caga-lume
vagabundo.
Enfeitiçado pelas bruxas
que voavam
em vassouras de alumínio
com cachinhos caracóis
descia a ladeira dos prazeres
em cima de um carrinho
ralando os dedos nas curvas
para controlar as rodas de rolimãs.
Era bicho solto safo maloqueiro do Recife
levado por uma inocência branca
ladeira abaixo.
algumas tardes
enquanto os helicópteros
resfriavam o sol
ocupadíssimo com o vento
ele empinava sua pipa de jacaré.
com o fermento da esperança


O AR ACHOCOLATADO

Nunca houvera eu de esquecer
o tombo daquele inglês, caindo
de sua cadeira Luís XVI
Maciça Capitonê sem braço
entalhada a prata
{quebrando o pescoço}
batendo as botas. Digo, os chinelos
depois de tomar seu chá da tarde
adoçado por pedaços de marshmallow.
.
Entre bombinhas, bolinhos e biscoitos
em cacos amanteigados de porcelanas,
no hotel Hilton London.
Nunca houvera eu de esquecer
o velho e bom inglês, Benedict Ford
com ar achocolatado e pulverizado
pela fumaça de seu cachimbo Oxford!


ORAÇÃO DA FOME

Mal cabe na janela
a lua cheia de vigor
se a cidade doente
vomita ócio e ódio
.
Mal cabe na janela
essa lua marasma
solidão de olhares vazio
na noite sombria
de eternos fantasmas
.
Mal cabe na janela
a lua lambuzada de luz
porque aqui as noites
são trevas
para quem tem fome
.
Mal cabe na janela
a lua branca e doce
se na amargura
quedam-se alguns
na esperança
de sonhar a pão e água


CANTEI FELICIDADE E FELIZ SOU BRINQUEDO

Felicidade reside e desfila
diante dos meus olhos
nas lagoas salobras
dos sururus de capotes
nas aguas salgadas
do sol Multicolorido
sobre as nuvens doce
das canas de açúcar
e fina maresia
do mar de Maceió.
É das rendas de bilros
filé, redendê , labirinto
e ponto-de-cruz
a luz que veste felicidade
para as noites de magias
e bebedeira do pontal.
Felicidade mora aqui
pertinho de mim
comecei com um... - olá, como vai?
hoje já não vou a padaria sem ela...


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