POEMA SEM NOME • PAULO MIRANDA BARRETO

meus olhos abarrotados de silêncios e tumultos
atravessam madrugadas descompassando os minutos
vigiando os viadutos, o horizonte, os vigilantes

e o negror que abriga vultos e estrelas itinerantes
a verdade arranha céus e a garganta de quem cala. . .
minha boca escala versos e as paredes desta sala
que transpiram devaneios e solidões comoventes
cravejadas de mistérios e rimas incandescentes
meus pés de vento tropeçam nas nuvens do meu carpete
no bibelô telepata, nos ímãs da geladeira
na samambaia sonâmbula, no pó da namoradeira
na cristaleira, no teto e no abajur que derrete
sigo assim, insone e turvo, a ver navios e fantasmas
no topo dos edifícios e adentro dessas gavetas
repletas de precipícios e asas de borboletas
enquanto a cidade ronca dissolvendo-se em miasmas
o Sol nascerá do espelho, varará as persianas
saltará pela janela do quinquagésimo andar
cairá no céu sem medo de iluminar as insanas
ruas sem fim que naufragam na metrópole sem mar
mas eu não . . . eu vou ficar sob as flores do edredom
esperando o Armagedom, esperando o sono vir
fechar meus olhos e abrir a porta de um sonho bom
no qual eu, fora do tom, possa afinal existir
dizendo luz, lendo som . . . mudo e repleto de som
mudo e repleto de som como os versos que escrevi
nos espelhos com batom, nas paredes com crayon
à mão em papel crepom e à giz no chão . . . que perdi.


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