OS ESTRANGEIROS • DE JANEIRO A JANEIRO

   Dois poemas de JOSÉ DE CASTRO

   OS ESTRANGEIROS

Nem tudo é poesia neste país
Nem tudo é carnaval
Nem tudo é futebol
Nem tudo é samba
Nem tudo rima com dignidade
Ou sequer com liberdade e democracia...

Pero Vaz, dónde vas”, se nem sabes
Por onde caminhas? Estrada de duques,
De condes, deu no que dá no reino das
Bruzundangas, das mugangas e das
Medidas provisórias, sem métricas, aéticas,
Antiestéticas, ilusórias, escalafobéticas...

Ah! falta de sorte do vate ao ter nascido nestas terras
De aquém-mar, onde se legisla a dor com despudor
O que leva a nação à inação, ao triste fado, ao desatino
De ser grande e ser pequeno menino tupiniquim
Frágil, tão frágil assim, com dor de barriga, dor de dente
Dor de intriga, dor de ferida antiga que não para de sangrar...

Desde os mil e quinhentos e lá vai fumaça que essa sina
Não passa e assassina com sanha o destino de quem
Tem apenas o medo por enredo e também o desengano
Esse laço, o nó insano que sufoca a garganta
Uma tristeza de chicote sobre o lombo
Quilombo dos pesares  - dos czares, dos césares? – dos azares
Que zombam de todos nós que ficamos no assombro
No susto do custo de vida que nos custa tanto
 - e ainda por cima nos fazem de bobos na corte...

E dançamos todos nós.
O samba no pé, a tristeza na cara.
A bola rola e somos verdadeiros campeões
- da safadeza e da corrupção.
Nem tudo é país neste carnaval.
Aqui a cartola sai do coelho.
Aos de fora, rezamos e dobramos o joelho.
E de nós mesmos somos estrangeiros.


     DE JANEIRO A JANEIRO

Não sei se rio de janeiro a janeiro ou se choro
Ou se fervo em fevereiro, sem sorte, sem trevo
Ou se me atrevo a riscar do calendário qualquer
Data que não seja primeiro de abril nestas terras de Cabral
Aqui a mentira grassa sem graça nenhuma...

E me falta o verso mais que perverso para
Virar o poder do avesso e fazer um novo começo
E fica no meio do caminho essa pedra de tropeço
Uma vontade louca de detonar com tudo
Explodir o verbo, a verba, a propina, a  latrina
E toda essa fedentina da política que assola o país...

Há uma falta de vergonha que me faz descrer do mercado
Nem acredito nessa merda de lei da oferta e da procura
Pois quem procura,  porcaria acha -  e safadeza maior encontra
E perco a conta dos anéis, dos dedos, dos coronéis,
Da venda de títulos e papéis, moeda podre, inflação, merreca, mil réis...
Já não tenho mais capacidade de previsão, nenhuma premonição
- e nem pré-sal...

E vejo a falta que me faz uma palavra de fé, algo que me faça
Acreditar que o país tem jeito, que vai entrar nos trilhos
Dar pano pras mangas e emprego pros filhos
E que vai sair dos estribilhos da corrupção
Quero apenas um frasco de dignidade no ar
Uma justiça que seja ética e justa na medida certa
Uma estética da política que desenhe melhor a sua face
Com arte, engenho, empenho e sob o lenho da honestidade
Enfim, parece sonho impossível....

Por isso, rio de janeiro a janeiro.
E, depois, fervo no frevo em fevereiro.

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José de Castro, jornalista, escritor. Autor de livros para crianças (A marreca de Rebeca, Vaca amarela pulou a janela, dentre outros). Publicou “Apenas palavras” e “Quando chover estrelas”, livros de poemas. Membro da SPVA/RN e da UBE/RN. Contato: E-mail • josedecastro9@gmail.com

2 comentários:

  1. É difícil viver num país onde pra onde a gente olha ver a dor da pobreza, a violência, a corrupção, e onde se esconde tudo embaixo do pano, com samba no pé e futebol, que até nesses quesitos tem dado o que falar, mesmo nem tudo sendo poesia, há ainda uma esperança no hoje pela educação que está de pernas quebradas, mas não perde a fé, na leitura, no sonho, no povo que luta dia a dia pra chegar até a salvação.Poemas para refletir e debater, abrir a visão. Amei poeta José de Castro

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    1. Obrigado, amiga, por compartilhar das mesmas inquietudes... Que a poesia ajude a todos a abrir os olhos... E tentar reinventar esse país que está insano... Abraços...

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