MULHERES VESTIDAS DE POESIA

Nesta edição com NORMA SANTI, MARCIA CASTILHO, SOMAIA MARGUERITE, ÍNDIA ONHARA, TEKA ROGEL, LIVIANE MATOS, VALÉRIA BRASIL CALEGARI, MARISA SCHMIDT, VERA ROCHA e JULLIE VEIGA
AMÁLGAMA
NORMA SANTI
Fui colocada por Deus em linha elíptica
Pra viver de dias cândidos
Deitar-me à rede de noites plácidas
Enluarada de águas límpidas

Pra confirmar que a vida é efêmera
Criada sobre a linha lógica
Feita de tardes e paisagens lúdicas
O reverso de outra retórica

Vieram os tempos de ideias sórdidas
Destiladas em coração pérfido
Cauterizadas em sentimentos mórbidos
E fecundadas em atos indômitos

Por muitos séculos em idade púbere
Envolvida em crises cíclicas
Como um câncer em suas metástases
Tremo à ira de febres sísmicas

Em harmonia de elementos químicos
Atestada pela física quântica
Enredada em tramoias cibernéticas
Invoco a letra de um novo cântico

Movimento-me em camadas tectônicas
Escurecida em ares ácidos
Preparo em silêncio novas catástrofes
E crio cenas de efeito épico

Movo os braços em fúria homérica
Abro novas fendas míseras
Rio-me de suas perdas econômicas
E exponho as vossas vísceras


ANJO
MARCIA CASTILHO


Anjo, encantado
Travestido, assexuado
Plural

Anjo encantado
Fragmentado, salpicado
Reluz,  indomável
Acaricia a vida
Na mudança das marés

Anjo, encantado
Mundano, profano
Toca trombeta
Na linha do horizonte

Anjo, encantado
Masculino, feminino
Reflexo inverso
Sol e lua

Anjo encantado
Brilha e renova
Desejo de novo tempo
Anunciando nova era


INVASÃO CONSENTIDA
SOMAIA MARGUERITE

E do nada
Sobressalto por golpe rabiscado,
Letras Inexatas e desarticuladas
Indo e vindo,
Violentando o silêncio,
Constrangendo meu mutismo.

Na Intensidade do tormento,
Excitada e atordoada,
Deixo-me ser invadida.

Sinto o pulsar da língua neste momento
E a minh’alma comovida.

Sem rima, sem métrica...
Assim prossigo!
Desprovida de know-how no versejar.
Apenas reverberando as palavras
(que ecoam)
Sem sentido.


A PESCADORA DE LUAS
ÍNDIA ONHARA

Eternizam-se na memória
- no embalo do vento -
Absorvidas pelo nó sorvido
- com gosto de maçã -
Emoção em gotas cítricas e hortelã.

Das pupilas e das contas d’água
- do verde mar de seus olhos -
Da bruma espuma, nódoas de solidão
O vinho escorre nas veias, rompendo o chão.

Arranco calhetas e cascalhos
Do ferrolho de meu peito
- sou pescadora de Mim -
Húmus mudos
Fragmentos que perdi...

A Luz espalha o seu aroma
Na Terra que fenece
Irrompe em tempos estranhos
Onde se tinge de sangue
Precipita-se ao Sol e
Só se detém, ao amanhecer.

Vislumbro o oceano
- no marejar de meus olhos -
E ao trazer a alma azul do mar e do céu
Eu chorava ao voltar para a Terra.

O imaginário da Lua inspira-me
- a mulher guerreira -
No fundo do lago ou de Yaci...
Qual espelho da Lua, na face refletida

O antes e o agora
- pescadora e cavalgante -
De águas e terras distantes
Neste agreste pernambucano mundo aquoso.


CÂNTICO PARA MARIA!
TEKA ROGEL

Estendo as mãos em branda amargura
Desejando que o mar dos meus olhos encontre
A ardente estrela e nela descanse
A minha dor, extrema loucura.

Se o céu é distante vejo-o incerto
como o futuro que a mim se aflora
Desço ao hades procuro a razão
Não tenho ilusão, jovem senhora.

Mas se asas eu tivesse como o forte condor
Cortaria o espaço e o lívido vento
Seria eterno como eterno é o tempo...

Ao mar eu desceria jovem senhora
Aos teus pés eu poria como faço agora
O céu , as estrelas, a luz, a aurora!


JÁ NÃO É PRIMAVERA
LIVIANE MATOS

Parecia um sonho,
Eu estava ali sentindo a maciez daquela pele,
Sentindo o perfume que exalava daquele corpo que eu tanto desejei,
Nem a mais bela e perfumada flor tem a delicadeza e cheiro igual ao dele.
Apesar de ser outono 
naquele dia parecia primavera,
Meu coração ficou florido,
Meu dia ficou bonito, feliz.
E por um instante
Deitada naquele colo confortável, aconchegante,
Desejei que o tempo congelasse,
Desejei que aquele momento não terminasse.
Mas terminou,
Aquelas mãos já não me tocam,
Aquele cheiro já não está em meus lençóis.
O que parecia primavera
Voltou a ser outono
As flores perderam suas pétalas
As borboletas foram embora.
Mas eu acredito que tudo reflorescerá,
As borboletas irão voltar,
Outono é só uma estação
Logo voltará a ser primavera.


BOBA DA CORTE
VALÉRIA BRASIL CALEGARI

Sou boa e sou má
Sou quente e sou fria
Sou doce e amarga no côncavo e convexo
Sou exata e imprecisa, sorriso de Monalisa
Sou de tudo um pouco
profunda, não rasa!
Confusa, obtusa
me usa!
Quero provar quem tu es!
Quem eu sou?
Seu revés.


DE SEMPRE
MARISA SCHMIDT

Derrama o olhar cansado
pelos campos
pelo mar
pela criança que passa
no reflexo da vidraça
retificando o olhar.
Põe vida na poeira que dança
põe luz na folha do chão
tudo no nada existe
toda beleza é triste
porque nos foge da mão.
Há bandeiras desfraldadas
nessas moças sem sorriso
desfilando nas calçadas
os sonhos que sequer ousam
nos apelos que calam
nos receios que escondem
das cruzes que apontam na esquina
quando nasce uma menina...
Mas há canções sendo escritas
pela lua cheia de notas
sustenidos e colchetes
sob a égide da nova era
Só os versos já nascem velhos...


POESIA
VERA ROCHA

Escreverei poesia quando não estiver com sono...
Será um poema cheio de esplendor como
os olhos amarelos de gatos
quando refletem a luz do sol do meio dia...

Será um poema sem sono como um festejar
de flores no jardim e frutas
maduras saciando o paladar...

Será um poema de cantoria porque
estarei desperta e terei passarinhos
na garganta!

Não será um poema de cansaço
como agora estou...

Será um poema de versatilidade,
aquele poema pra que leiam quando
estiverem acordados e quando a lua
não for diferente, mas sim lua de calor,

lua cheia iluminando a rua, você. passando
toda nua e ninguém achando que você
saiu de uma taberna embriagada...


POESIA TEM VIDA PRÓPRIA, TEM ALMA PRÓPRIA
JULLIE VEIGA

Não faço poemas por querer
As letras é que querem chegar
E chegam
As palavras é que querem nascer
E nascem

É como a criação dum novo mundo
Um universo paralelo
Que a poesia me deixa adentrar
E me faz partícipe

Forçar o nascimento de uma poesia
É violar o seu direito de querer ser
É constranger o que sente a sua alma

Sinto a poesia como uma divindade,
um ser de luz
… divinamente perfeito
Sem um corpo como o meu
Mas que o meu usa
Numa quase psicografia do que sente
Como soubesse o que posso verbalizar

Sim, usa-me completamente
Desde os sentidos todos
Usa os meus movimentos
Até quando me encontra
Por vezes, cansada e frágil

Usa minhas mãos
Usa o meu falar
Cada silabar
Usa meu silêncio

E quando parte
Me deixa em hiatos
Me deixa também mais forte
E presa à minha sorte
De ser poeta

Fico sempre à espera do que virá
Do que não conseguiria criar
... por mim mesma

Quando chega
Vem autenticando o seu poder
... sobre mim
Carimbando-me

Sem alarde
Sem propaganda
Sem apelo
Apenas uma procela
dos seus sentimentos
... em mim

Tomando posse
do nascimento de cada escrito
como se, ali, nascesse uma estrela
no universo mágico das letras

Vou transcendendo
Em toda palavra que chega
Em toda palavra que fica
Em toda palavra que vai

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