JANTAR DE FINADOS • NASSARY LEE BAHAR


Vi outra vez uma dor que conheço bem
Tão intensa
Tão estranha
Tão tamanha
Afundava igualmente em mim
Quantas vezes eu também já me maldisse?
Quantas vezes eu também quis não existisse?
E senti arranhar-lhe sem fim
E vi mesmo só uma dor que neguei
Naquele triste olhar: o meu maior conforto
Naquele peito vazio: o meu eterno alimento
Quis compartilhar nossas revoltas!
Vi-lhe lavando os pratos com suas lágrimas
Antes de vê-los limpos, secos, raspados (como nós)
Quis tomar um copo, pouco que fosse, de sua angústia
Esmurrar e não "bater" (como talheres)
Quis entender tanta coisa...
Por que ele sentou - comeu - e saiu?
Por que ela chorou - parou - e sorriu?
Para que vomitar nossas mágoas?
Se os restos nem mendigos querem?
São restos humanos
Recolhe-se a mesa
Recolhe-se a insignificância de sempre
Estica-se a toalha
Esticam-se as mãos para se agarrar com força
A barriga cheia
Tudo volta ao normal!

Um comentário:

  1. Tocante. Bem apropriado à data, embora os contornos irem além. O título fisga. Parabéns, Estrela do Norte!

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