A POESIA DE GILKA MACHADO

MEU GLORIOSO PECADO III

A que buscas em mim,
que vive em meio de nós,
e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai,
de onde veio,
trago-a no sangue
assim como uma tara

Dou-te a carne que sou…
Mas teu anseio
fôra possuí-la –
a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar
ao mundo alheio,
essa que tão somente
astros encara

Por que não sou
como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo,
em mim preferes
aquela que é
o meu íntimo avantesma…

E, o meu amor,
que ciúme dessa estranha,
dessa rival
que os dias
me acompanha,
para ruína gloriosa
de mim mesma!


PERFUME
À Alberto de Oliveira

Vaga revelação das sensações secretas,
das mudas sensações dos mudos vegetaes;
arco abstracto que afina as emoções dos poetas
e que ao violino da alma arranca sons iriaes.

Ó perfume que a dôr das plantas interpretas
e encerras, muita vez, desesperos mortaes!
busco sempre sentir-te errar, nas noutes quietas,
quando teu floreo corpo em somno immerso jaz.

És um espiritual desprendimento ao luar,
si á noute sonha a flor do calice no leito,
e és a transpiração da planta á luz solar.

Mas, si acaso, te estrahe o homem – sêr destruidor,
perfume! – descomposto, inane, liqueifeito,
és a essência, és a vida, és o sangue da flôr.


FELINA

Minha animada boa de veludo,
minha serpente de frouxel, estranha,
com que interesse as volições te estudo!
Com que amor minha vista te acompanha!

Tens muito de mulher, nesse teu mundo,
lírico ideal que a vida te emaranha,
pois meu ser interior vejo desnudo
se te investigo a mansuetude e a sanha

Expões, a um tempo langoroso e arisca,
sutilezas à mão que te acarinha,
garras à mão que a te magoar se arrisca

Guardas, ó tato corporificado!
A alta ternura e a cólera daninha do
meu amor que exige ser amado!

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