TRÊS POEMAS

Do poeta alagoano BENTO CALAÇA
ADENTRAR NUM LIVRO DE BANDEIRA

adentrar num livro de Bandeira;
é sentir o cheiro doce de goiabada
cascão;
é andar por praias desertas
cheias de conchinhas raras;
revendo nuances de estrelas do telhado
de nossa infância;
ouvir o frevo pernambucano
girando o sol nas sombrinhas coloridas de Olinda;
é ter saudade do retrô amarelo da gravata
do palhaço;
e até mesmo quando o destino ignora o vento
e o desassossego não tem varandas
para os sonhos mais simples
encontra-se sempre pela estrada coivaras acesas
para um eventual pulo mortal á Pasárgada
e de lá, dá nó em pingo d'água!


LEMBRANÇAS FATIADAS
.
Não se via um astro
no mínimo
estrela de nêutrons
quase um caga-lume
vagabundo.
Enfeitiçado pelas bruxas
que voavam
em vassouras de alumínio
com cachinhos caracóis
descia a ladeira dos prazeres
em cima de um carrinho
ralando os dedos nas curvas
para controlar as rodas de rolimãs.
Era bicho solto safo maloqueiro do Recife
levado por uma inocência branca
ladeira abaixo.
algumas tardes
enquanto os helicópteros
resfriavam o sol
ocupadíssimo com o vento
ele empinava sua pipa de jacaré.
com o fermento da esperança.

  
O AR ACHOCOLATADO
.
Nunca houvera eu de esquecer
o tombo daquele inglês, caindo
de sua cadeira Luís XVI
Maciça Capitonê sem braço
entalhada a prata
{quebrando o pescoço}
batendo as botas. Digo, os chinelos
depois de tomar seu chá da tarde
adoçado por pedaços de marshmallow.
.
Entre bombinhas, bolinhos e biscoitos
em cacos amanteigados de porcelanas,
no hotel Hilton London.
Nunca houvera eu de esquecer
o velho e bom inglês, Benedict Ford
com ar achocolatado e pulverizado
pela fumaça de seu cachimbo Oxford!

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