TRÊS POEMAS DE DHENOVA

LINHAS TORTAS

e eu me pego outra vez
contando as horas
ânsia no íntimo talvez
lamento indo embora

e eu me encanto
com o teu pranto
descem da tua face
lágrimas grossas
e eu me entristeço
com minhas tolas rotas

e eu me encouraço
conto cada passo
que vai te levar de mim
no relógio sem fim
e sei do adeus
já cruzou a porta
e me perco nas infindas
tuas linhas tortas.


ENROLADOS

Os negativos se enrolaram
perderam a cor
tantas histórias de vida
perdidas numa gaveta
ficaram lá esquecidas

fotos dos avós, das tias
o quintal num dia de inverno
o colorido da cerca viva
a roseira, o poço
tudo, tudo só esboço

e os negativos se queimaram
alguns sequer foram velados
permaneceram apenas no plástico
cobertos de químicos e sais de prata
não houve qualquer lembrança
que pudesse ser resgatada

o cachorro hoje velho, a babá idosa
o pé de limeira, galpão de madeira
trilha de pedras, tão cuidada a horta
o cimento que mudou a paisagem
cerâmica cinza cobriu a passagem.


AQUI DENTRO E LÁ FORA

lá fora,
no céu azul escuro
tristeza espelha
sem demora
mostra a estrela
sem brilho
e as luzes já mortas

aqui dentro,
esbarro na mesa
o anel se debate
dá duas piruetas
cai e segue o baile
rola pelo quarto
escorrega da escada
vai parar no chão da sala
faz da trilha um sinal
vermelho inebriante
e tudo se faz cansaço
num instante

lá fora,
no céu
anil estrelado
está escrito
em nanquim prata,
desenhado a mão livre
que a loucura que sinto
morre comigo

ao lado, há poesia
num véu de fumaça
no entanto, consciência
mata a esperança
e o amor perdido
será guardado
como um tesouro
relicário de alegria
no canto do peito
até a próxima vida.


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Um comentário:

  1. Sempre um prazer ler essa poeta incrivelmente criativa e de escrita corretíssima.

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